Na China, nem todo negócio tem sucesso garantido

Segundo Jonathan Woetzel, sócio-diretor da McKinsey, o país oferece pouca oportunidade nos setores de serviços financeiros

O sucesso na China depende do negócio em que se está investindo. Em setores do primeiro estágio de industrialização como siderurgia, por exemplo , a China é um importante lugar para crescimento. (Leia também reportagem de capa de EXAME sobre a China.) Mas em setores de produtos e serviços que são usados em economias mais desenvolvidas, a China não é tão importante, como por exemplo o mercado financeiro. Derivativos títulos negociados no mercado de capitais, como na Bolsa de Mercadorias e Futuros, no Brasil nem existem de forma importante na economia chinesa.

A percepção é de Jonathan Woetzel, sócio-diretor da McKinsey na China. Em entrevista exclusiva à Revista EXAME, o consultor esclarece vários pontos sobre a realidade sócio-econômica da China, país que tem o poder de atrair muitos empresários interessados mas com pouca informação.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista e os esclarecimentos de Jonathan Woetzel sobre a pujança dessa economia.

Partido Comunista

“Não é necessário lidar com o partido comunista diretamente, mas 5% da população pertence ao partido. Ele é relativamente o maior partido do mundo. Logo, de alguma forma, as empresas sempre lidam com alguém do partido, quase que diariamente. Mas a influência do governo se dá mais no nível local, onde o governo é basicamente as pessoas que recolhem o seu imposto. Quase 70% dos tributos são recolhidos nas localidades e não pelo governo central. A relação com o coletor de impostos é muito importante para o seu futuro.

“O motivo disso é simples: o coletor de impostos tem interesse em ver você crescer. Se uma empresa está investindo fortemente em uma área, os governos locais são bem receptivos. Mas se só está vendendo produtos, há um certo protecionismo. Esse é um grande desafio para os negócios na China: como entrar em um mercado que não seja aquele onde está localizado. Se sua companhia está baseada em Shangai, como fazer para entrar no mercado de Pequim?”

País de dificuldades

“Em geral, tudo é difícil na China. Em primeiro lugar, a logística não anda às mil maravilhas. O custo da logística em função do PIB fica entre 18% e 20%, enquanto nos Estados Unidos é de 10% a 12%. Custa mais para chegar de uma cidade a outra do que em outro lugar do mundo. Lá as estradas são pequenas e os trens, superlotados. O segundo ponto é o protecionismo. Onde há produtores locais, dificilmente distribuidores de outras áreas conseguem entrar no mercado. Os governos locais dão privilégios às empresas da região, como acesso aos grandes compradores, geralmente o próprio governo, e licenças de varejo, que também são restritas. Uma terceira dificuldades é o fato de que é necessário ter funcionários locais, em cada região. Não importa onde a empresa estiver, deve contratar as pessoas da região. Não se pode levar pessoas de uma área para outra, porque geralmente elas não falam o dialeto local e não se sentem bem. Mas isso não chega a ser proibitivo para o negócio. Basta colocar um anúncio numa estação de trem e milhares de pessoas aparecem.

Imensidão em crescimento

“A imensidão do país é outra dificuldade enfrentada na China. Há cem cidades com mais de um milhão de habitantes, o que ainda deve aumentar. Com isso, a logística e a cadeia de suprimentos ficam mais complexas. É necessário ter mais caminhões, mais armazéns e pontos-de-venda. Administrar tudo isso é o grande desafio das empresas.

“As empresas que têm sucesso são aquelas que entendem que trabalhar na China não é uma batalha, é uma guerra. É algo que vai levar um tempo para se ganhar. Elas terão que investir por pelo menos uma década até que possam atingir uma posição de liderança, porque o mercado está crescendo. Enquanto o mercado cresce rapidamente, é preciso investir muito para manter o passo junto ao crescimento do país.”

Corrupção

“Em termos de corrupção, a China não está fora dos padrões dos países emergentes. É pior que o Chile mas está melhor que a Indonésia.

“O sistema legal chinês é ineficiente, e boa parte não foi colocado no papel. Até 1980, não havia leis. Na ausência de marcos legais, os problemas são julgados por administradores, que são membros do governo. Eles decidem sobre assuntos civis. As decisões podem estar certas ou erradas. Muitas vezes estão erradas, porque falta conhecimento sobre os temas julgados.

Propriedade intelectual

“A questão da propriedade intelectual é um grande assunto para a China. Alguns investimentos foram afastados por conta desse problema, sobretudo nos setores de mídia, software e de alta tecnologia. Há uma grande preocupação de que os chineses vão copiar a tecnologia dos produtos para fazer lá e exportar. Com isso, a indústria farmacêutica, por exemplo, não faz qualquer tipo de pesquisa no país. “

Sugestões para os interessados

“Algumas sugestões para empresas interessadas em investir na China são: não se pode fazer negócio na China se você não está na China. Sem estar aqui é difícil para se dirigir ao mercado. Essa não é necessariamente uma premissa para todos os tipos de negócio, como é o caso do setor agrícola, um ponto forte do Brasil. Commodities podem ser compradas e entregues sem a necessidade da presença física. Pode ser feita por meio de um trader.

“Para se vender commodities, é bom ver uma forma de ter um contato mais próximo com as empresas chinesas, nem que seja por meio de um representante. Se a pessoa está em um negócio de venda direta para clientes, é bom vir à China montar seu escritório. Não há apenas uma China. São centenas de Chinas.

“Outro ponto fundamental é a montagem da equipe, particularmente porque o fuso, em geral, é de mais de 12 horas. As pessoas devem ser extremamente confiáveis, porque muitas coisas são decididas de forma independente. Você não pode fazer todas as decisões e deve dar autonomia para as pessoas o fazerem.”