Na Argentina, vem aí um governo mais Néstor ou mais Cristina?

Após eleições na Argentina, o papel da vice-presidente, Cristina Kirchner, na chapa de Alberto Fernández ainda é grande incógnita

São Paulo — Se simbolismos importam, a Argentina amanhece menos dividida nesta segunda-feira. O atual presidente, Mauricio Macri, convidou seu adversário eleito ontem, Alberto Fernández, para um café da manhã na Casa Rosada em que devem tratar da transição de poder no país.

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Confirmando as previsões de todos os institutos de pesquisa, Fernández, que formou chapa com a ex-presidente Cristina Kirchner, foi eleito neste domingo para governar o país pelos próximos quatro anos a partir de dezembro. O resultado final, com 48% a 41%, foi até mais apertado que as estimativas, mas não foi o bastante para mudar o que haviam apontado as primárias de agosto. Nada menos do que oito em cada dez argentinos consideram a situação econômica de seu país ruim, e pleiteavam mudanças.

“Vamos seguir trabalhando, com uma oposição construtiva e responsável, que possa alcançar a estabilidade e a tranquilidade que levem a esse crescimento que tanto necessitamos”, afirmou Macri ontem, após o resultado, num cenário decorado com a palavra “Gracias”.

Minutos depois, Alberto Fernández subiu ao palco para saudar seus eleitores e defendeu uma “Argentina mais igualitária, que defende a educação pública e a saúde pública” e que privilegie “os que trabalham”. “Que nossos opositores nos ajudem a construir o país das cinzas que nos deixaram”, completou.

Eleito com uma plataforma liberal capaz de recuperar o crescimento econômico e o desenvolvimento do país, Macri deixa a presidência com a inflação descontrolada e mais um ano de recessão a caminho — segundo o Fundo Monetário Internacional, o país deve encolher 1,3% em 2019.

Nos quatro anos de Macri, o desemprego passou da casa dos 5% para mais de 10%. O câmbio, vital no dia-a-dia argentino, passou de 10 para mais de 60 pesos. “A deterioração da situação argentina desempenhou um papel decisivo”, diz Martin Ravazzini, economista da consultoria Ecolatina em Buenos Aires.

No discurso da vitória, ontem, o prefeito eleito de Buenos Aires e ex-ministro da Economia de Cristina Axel Kicillof classificou a situação econômica que o novo governo vai encontrar como “terra arrasada”. A grande dúvida no ar é a estratégia econômica do novo governo. Fernández tem dado indicações de que não vai tirar o país do Mercosul, nem de que dará as costas para credores e investidores internacionais.

O país contraiu em 2018 empréstimos de 57 bilhões de dólares com o FMI, cujos pagamentos começarão a vencer em 2021 e 2022, no meio do próximo mandato. Na madrugada de hoje o Banco Central argentino anunciou medidas emergenciais para conter o dólar: a venda está limitada a 200 dólares por homebanking e 100 dólares em efetivo para pequenos poupadores por mês.

Analistas políticos preveem uma equipe econômica mais alinhada a Néstor Kirchner, marido de Cristina que presidiu o país até 2007. Por uma coincidência histórica, Fernández foi eleito no mesmo dia em que o ex-marido de Cristina morreu, 27 de outubro de 2010.

A condução política e as relações com o Congresso também pode ter mais o estilo de Néstor, de quem Fernández era homem de confiança, que de Cristina, com quem o presidente eleito já brigou no passado. Mas a vice-presidente terá um papel para nada figurativo. Como prevê a constituição, ela será também presidente do Senado, casa que deve concentrar as principais batalhas do governo de Fernández.

No discurso da vitória, ontem, Cristina falou antes de Fernández, e pediu que seus eleitores não vaiassem Macri, e que tomassem “todas as medidas possíveis” para aliviar a “dramática” situação econômica do país até o dia da posse, 10 de dezembro. Na sequência, emendou uma contundente crítica aos “projeto neoliberais que tanto dor nos causaram”. A chapa eleita vai seguir causando calafrios a investidores dia após dia, tanto antes como após 10 de dezembro.