América Latina entra frustrada em temporada de eleições presidenciais

Tom das campanhas, diz The Wall Street Journal, será a sensibilidade dos eleitores a novas abordagens para problemas persistentes que tornam pífio o crescimento da América Latina

Enxurrada de eleições presidenciais concentradas em cerca de 12 meses, com eleitorados prontos para dar vazão a suas frustrações com a pasmaceira econômica na América Latina. É assim que o diário americano The Wall Street Journal pinta o ano de 2006 — calendário político recheado e razões de sobra para que as urnas gerem um divisor de águas na região.

O tema geral nessas disputas, diz o Wall Street, é a disposição dos eleitores de considerar a escolha de novos líderes que prometam abordagens diversas para problemas persistentes que tornam pífio o crescimento da América Latina, especialmente ante regiões dinâmicas como a Ásia.

A temporada começou por Honduras, onde o Partido Liberal, de oposição, saiu vitorioso em 27 de novembro (sem que se dispensassem as tradicionais alegações de fraude). No próximo domingo, 11 de dezembro, é a vez do Chile — menina-dos-olhos da região, por seu formidável desempenho econômico (leia reportagem de EXAME a respeito). Lá, é favorita a socialista Michelle Bachelet, candidata da coalização de centro-esquerda que governa o país desde 1990. Haverá eleições presidenciais na Bolívia, Peru, Colômbia, México e Venezuela, sem falar no Brasil.

“O humor predominante é que temos democracia há 25 anos e experimentamos políticas de livre-mercado, mas o paraíso não chegou como prometido”, diz ao jornal Julio Carrión, cientista político da Universidade de Delaware. “Então, talvez devêssemos deixar que aqueles que não governaram nesse período tenham uma chance.”

Em geral, a disposição para experiências tem beneficiado candidaturas de esquerda, deixadas de escanteio durante os anos 90. Um grupo de líderes com esse perfil está se aglutinando em torno de Hugo Chávez, presidente venezuelano e franco favorito à reeleição em dezembro. Um deles, o líder indígena boliviano Evo Morales, está ligeiramente à frente de dois empresários que disputam as eleições de 18 de dezembro. Outro aliado, o ex-presidente da Nicarágua e líder sandinista Daniel Ortega, concorre às eleições em novembro do próximo ano.

No México, Andrés Manuel López Obrador, líder de esquerda e prefeito da Cidade do México, vai enfrentar dura campanha até a eleição de julho, onde o principal tema deve ser a abertura do setor petrolífero ao investimento estrangeiro. No Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva venceu as desconfianças dos mercados financeiros com sua “liderança econômica pragmática”, mas ainda não está claro se os eleitores vão deixar passar a avalanche de denúncias de corrupção e conceder-lhe um segundo mandato em outubro do ano que vem.