EUA e UE preparam-se para rever suas políticas de juros

Núcleo da inflação estável contrasta com tendência de alta geral dos preços, puxados pelo petróleo, e colocam as autoridades diante de um dilema

Em breve, os bancos centrais dos Estados Unidos e da União Européia precisarão decidir se alterarão sua política de juros devido à pressão das altas do petróleo, que contaminam os índices de preços, ou se mantêm o atual rumo, já que os núcleos de inflação permanecem estáveis.

No caso de americanos e europeus, o núcleo de inflação é apurado pela exclusão das variações de alimentos e energia. O problema, segundo a revista britânica The Economist, é que os preços mundiais do petróleo parecem longe de cair significativamente, diante da crescente demanda chinesa, da insegurança que ronda o suprimento proveniente do Golfo Pérsico, e dos furacões que danificaram instalações petrolíferas no Golfo do México.

Dada a importância do petróleo, um período prolongado de alta elevará as taxas de inflação, ao mesmo tempo em que reduzirá o ritmo de crescimento econômico mundial. Em casos extremos, como a crise do petróleo dos anos 70, essa conjuntura pode levar à estagflação, em que a inflação alta convive com crescimento econômico zero. Os efeitos já são sentidos pelos americanos, por exemplo. Em setembro, o país registrou uma inflação ao consumidor de 4,7% (taxa anualizada). Trata-se do pior resultado desde 1991. Em outubro, porém, houve ligeira queda para 4,3%.

No caso dos Estados Unidos, cujo Federal Reserve (Fed) já vem reajustando a taxa básica de juros desde junho do ano passado, a expectativa é de uma ligeira elevação do patamar em que o ciclo será interrompido. Inicialmente, os economistas apostavam que a taxa alcançaria 4% ao ano. Agora, já se fala em 4,5%.

Do outro lado do Atlântico, o Banco Central Europeu (BCE) deu mostras recentes de que pode iniciar um ciclo de altas de sua taxa básica de juros já a partir do próximo encontro, programado para 1º de dezembro. Os juros básicos da União Européia estão em 2% ao ano desde junho de 2003. A expectativa de alta na Europa, combinada com as avaliações sobre o Fed, levaram o mercado a desvalorizar o dólar frente ao euro. O presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, porém, apressou-se em acalmar os investidores, afirmando que a elevação de juros não significaria, necessariamente, uma tendência.

A decisão do BCE poderá prejudicar o crescimento ainda frágil de diversos países do bloco. Mas a autoridade monetária dá sinais de que prefere correr esse risco a criar uma espiral inflacionária, que poderia abalar a confiança dos investidores e forçar um ajuste ainda mais acentuado dos juros. Nos anos 80, por exemplo, o então presidente do Fed, Paul Volcker, elevou a taxa americana para perto de 20% ao ano, a fim de combater a inflação decorrente da crise do petróleo. Os preços pararam de subir, mas ao custo da pior recessão enfrentada pelo país desde a Segunda Guerra Mundial.