Negociação para entrada da Turquia na UE continuará tensa

Desemprego em países-membros da União Européia é o principal insumo político daqueles que se opõem ao ingresso do país, de maioria muçulmana, no bloco

Angela Merkel, candidata conservadora à liderança do governo alemão, é contra. Nicolas Sarkozy, forte candidato à presidência da França em 2007, também. A Áustria deixou claro nos últimos dias que detesta a idéia. Mesmo assim, começaram oficialmente nesta segunda-feira as negociações para o ingresso da Turquia na União Européia (UE), depois de um festival de idas e vindas nos bastidores diplomáticos do Velho Continente.

A nova etapa do processo está longe de representar uma pacificação dos ânimos. Segundo reportagem da revista britânica The Economist, recente pesquisa do instituto Eurobarometer indicou que apenas 35% dos cidadãos europeus apóiam a entrada dos turcos na UE. Os outros dois terços estão desconfortáveis com a idéia de receber um país-membro com população de 72 milhões de pessoas (muita gente para padrões europeus) e forte maioria muçulmana. Acima de tudo, têm pesadelos com “hordas de turcos à procura de emprego”, esmagando mercados de trabalho já bastante combalidos.

Depois de negociar a retomada das negociações para a admissão da Croácia, sua aliada, a Áustria deixou de insistir na proposta de que a Turquia seja apenas um parceiro especial, e não um membro pleno da UE. Mas em janeiro de 2006 é a vez dos austríacos assumirem a presidência rotativa do bloco europeu, por seis meses. “A Áustria pode usar essa posição para tentar ressuscitar a idéia de parceria”, diz a Economist.

Não se deve imaginar que do lado turco não há problemas. Militares e nacionalistas, com tradicional influência nos rumos políticos do país, temem que o acordo de adesão os impeça de vetar a entrada de Chipre, um inimigo histórico, na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Além desse detalhe potencialmente explosivo, não se deve minimizar as resistências da sociedade turca contra novas concessões às exigências européias. Para atendê-las, a Turquia já aboliu a pena de morte, aceitou o ensino do idioma da etnia curda nas escolas, desmantelou os tribunais de segurança nacional, revisou o código penal e aumentou o controle civil sobre os militares. “Ainda assim, há muita coisa a se fazer no campo dos direitos e da democracia para atender aos padrões da UE”, escreve a Economist. Essa lista aparentemente interminável de pré-requisitos já cansou os nacionalistas turcos, cuja influência política vem crescendo desde o ano passado.