Divergências internas dificultam relação da UE com a China

França e Alemanha, principais líderes do bloco econômico, não conseguem chegar a um consenso sobre a política externa comum

As divergências entre o presidente francês Jacques Chirac e o chanceler alemão Gerhard Schröder são o principal entrave à formulação de uma política externa comum para a União Européia (UE). Com isso, as relações do bloco econômica com os Estados Unidos, Rússia e China estão ficando cada vez mais comprometidas.

Segundo artigo assinado por Chris Patten, ex-comissário europeu de relações exteriores, publicado pelo jornal britânico Financial Times, o caso mais significativo é o da China. Durante anos, os europeus apoiaram o desenvolvimento chinês, porque não o viam como uma ameaça. O primeiro motivo era de que a China foi a maior economia do mundo em 18 dos 20 séculos passados. Depois, porque o país ainda está muito atrás de europeus e americanos, em termos de renda per capita. Além disso, os europeus entendem que uma China unida e próspera é muito melhor, para o mundo, que um país dividido e pobre. O quarto motivo é que os gastos militares chineses ainda são pequenos representam um oitavo do que os Estados Unidos investem anualmente.

Por isso, a Europa adotou a estratégia de induzir a China a se tornar uma liderança mundial responsável, como quando apoiou a entrada do país na Organização Mundial de Comércio. Neste fórum, os europeus pretendiam negociar certas concessões comerciais, como cotas de importação de produtos têxteis, em troca do respeito aos direitos humanos na China.

Essa estratégia, porém, foi atropelada por dois acontecimentos. O primeiro foi a incompetência européia de sustentar seu embargo de venda de armas à China, após o país reprimir com violência os protestos pró-democracia em 1989, na Praça da Paz Celestial. A posição corrente dos europeus era de que o embargo seria flexibilizado se os chineses melhorassem sua política de direitos humanos, principalmente assinando e ratificando a Convenção da ONU sobre o assunto. Chirac e Schröder, porém, deram sinais de que poderiam rever essa posição durante a primeira visita do presidente chinês, Hu Jintao, aos países.

Os americanos, então, interferiram, declarando que qualquer movimento deveria ter sido, pelo menos, comunicado a Washington como uma mudança na política externa européia. Além disso, como a maior parte da indústria de armamentos da Europa depende da tecnologia e das vendas para os Estados Unidos, após vários meses, os europeus recuaram e voltaram à sua posição inicial, perdendo credibilidade junto a Pequim e ao governo americano.

Outro episódio que expõe as dificuldades da construção de uma posição sólida em relação à China são as negociações no setor têxtil. A França, em oposição aos interesses alemães, levou a UE a rever sua política de proteção às importações dos têxteis chineses.

Para Patten, esses episódios mostram como a Europa se encontra em um “momento miserável”. Segundo o ex-comissário, os europeus se desmoralizaram perante os demais parceiros comerciais, quando abandonaram unilateralmente acordos negociados com os chineses, pelo fato de que prejudicaram setores ineficientes da economia européia. “Então, a Europa se encontrou na humilhante posição de tomar altas de livre comércio de um regime totalitário [o chinês]”.