Mundo caminha para aquecimento global catastrófico. E agora?

Emissões de CO2 subirão 2,7% em 2018, alerta estudo. Ou seja: estamos indo na direção oposta aos cortes urgentemente necessários para evitar o pior

São Paulo – Apesar de milhares de pesquisas científicas pintarem um futuro sombrio para a vida em um Planeta aquecido  com perdas de safras de alimento, escassez de água potável, avanço de epidemias e desaparecimento de espécies —, e do consenso de que o ser humano é o maior responsável pelas emissões de gases perigosos que contribuem para as mudanças climáticas, com crescentes custos ambientais, humanos e materiais associados (como o mortal incêndio florestal na  Califórnia), o mundo continua na rota para um aquecimento global catastrófico até o final do século.

Segundo nova estimativa do Projeto Global de Carbono (Global Carbon Project), as emissões de CO2 subirão 2,7% em 2018, seguindo tendência de alta já observada em 2017, quando as emissões de carbono cresceram 1,6% após um hiato de três anos. A alta consecutiva deve-se principalmente ao crescimento sustentado do uso de petróleo e gás, aponta a estudo científico, que foi publicado nos periódicos Nature, Environmental Research Letters e Earth System Science Data.

A notícia brutal foi anunciada durante a decisiva reunião do clima da ONU, COP24, que reúne na Polônia quase 200 nações com a missão de definir um “livro de regras” para transformar em realidade as metas do Acordo Climático de Paris. Pelo acordo histórico, precisamos limitar o aquecimento do Planeta a no máximo 2 graus Celsius (ºC) até o final do século, acima do níveis pré-industriais, ou no cenário ideal, a 1,5 ºC, a fim de evitar alguns dos piores impactos de um planeta aquecido, como secas e enchentes severas, tufões e furacões violentos, entre outros fenômenos climáticos furiosos.

Essa alta nas emissões de gases efeito estufa ameaça as metas estabelecidas no Acordo de Paris. Para reverter a tendência negativa, o mundo vai precisar agir rápido e com mais empenho. Limitar o aquecimento a 2ºC exigirá que o países tripliquem seus esforços de combate ao aquecimento global até 2030, ou quintupliquem as ações para garantir um aumento da temperatura abaixo de 1,5° C, pelos cálculos da ONU.

De acordo com o IPCC, para limitar o aquecimento bem abaixo de 2 ° C, as emissões de CO2 devem cair cerca de 20% até 2030 e chegar a zero em torno de 2075. Para limitar o aquecimento abaixo de 1,5 ° C, as emissões de CO2 devem diminuir em 50% até 2030 e chegar ao zero líquido por volta de 2050.

Reversão de tendência

Cientistas receberam com preocupação a notícia de aumento de emissões para o ano. Afinal, não foi um simples ponto fora da curva, mas um salto superior ao aumento observado no ano passado, um sinal de reversão de tendência e de que o mundo está falhando em seu dever de combater as mudanças climáticas.

As emissões globais de gases efeito estuga associadas à queima de combustíveis fósseis, indústria e setor de cimento cresceram mais de 3% ao ano nos anos 2000, mas o crescimento desacelerou desde 2010, e de 2014 a 2016 as emissões permaneceram relativamente estáveis, com apenas um leve aumento.

Mas o que o estudo mostra é que o crescimento da energia global, intensa em petróleo, gás e carvão, está efetivamente superando os esforços de descarbonização, impulsionado especialmente pela demanda por transporte pessoal e de cargas, aviação e transporte marítimo.  

“O aumento de emissões de CO2 em 2018 nos coloca em uma trajetória de aquecimento que atualmente está além dos 1,5 ° C”, alerta em nota à imprensa a pesquisadora Corinne Le Quéré, diretora do Centro Tyndall de Pesquisa sobre Mudança Climática da Universidade de East Anglia. “Não é suficiente apoiar as energias renováveis. A energia fóssil precisa ser eliminada e os esforços para descarbonizar precisam ser expandidos em toda a economia”.

Embora o uso global de carvão ainda seja 3% menor do que seu pico histórico, espera-se uma elevação em 2018, impulsionada pelo crescimento do consumo de energia na China e na Índia. O uso de petróleo e gás cresceu quase inabalável na última década. O consumo de gás foi impulsionado por quedas no uso de carvão e aumento da demanda por gás na indústria. O petróleo é usado principalmente para abastecer o transporte pessoal e de cargas, aviação e transporte marítimo, e para produzir produtos petroquímicos.

Maiores emissores

A China se mantém como o país que mais emite gases de efeito estufa no mundo, responsável por 27 por cento das emissões globais. Até o final do ano, as emissões chinesas devem crescer cerca de 4,7 por cento ante 2017, atingindo um novo pico histórico, intimamente ligado às atividade de construção e ao estímulo econômico.

Em segundo lugar, aparecem os EUA, responsáveis por 15 por cento das emissões globais, com alta estimada em 2,5 por cento em 2018, após vários anos de redução.

Juntos, os 28 países da União Europeia, em terceiro, são responsáveis por 10% das emissões globais, e devem ter um sutil  declínio de -0,7% este ano. 

As emissões indianas, responsáveis por 7% das emissões globais, devem continuar com seu forte crescimento, com cerca de 6,3% em 2018, com crescimento em todos os combustíveis.

A lista de maiores emissores traz ainda Rússia, Japão, Alemanha, Irã,  Arábia Saudita, Coreia do Sul e Canadá, com os 28 países da União Europeia em terceiro lugar (detalhes completos para os 20 maiores emissores na tabela abaixo).

O estudo foi produzido por 76 cientistas de 57 instituições de pesquisa em 15 países que trabalham sob o guarda-chuva do Global Carbon Project (GCP). 

E agora?

Pelo Acordo de Paris, os países devem reforçar seus planos de ação climática a cada cinco anos. Estamos no meio do primeiro desses ciclos de cinco anos e a expectativa é que os governos sinalizem esforços mais enérgicos em sintonia com o que há de mais recente em produção científica sobre o tema.

Segundo o painel de especialistas em clima da ONU, se os países não apresentassem metas nacionais mais fortes antes de 2020, será “muito difícil” cumprir os objetivos do Acordo de Paris de limitar o aquecimento a níveis mais seguros.

Cortes mais profundos precisam ser feitos nas emissões dos setores de transportes, indústria e agricultura, destaca o estudo. 

As cartas estão dadas. Nós já temos conhecimento técnico científico suficiente para saber onde estamos, aonde queremos ir e como chegaremos lá. O que falta é maior ambição dos compromissos nacionais de redução de emissões e, mais importante: ação.

Como lembrou de forma contundente Petteri Taalas, secretário-geral da OMM (ao anunciar que os 20 anos mais quentes já registrados ocorreram nos últimos 22 anos, com os “quatro mais quentes” ocorrendo nos últimos quatro anos): “Somos a primeira geração que entende totalmente as mudanças climáticas e a última geração que pode fazer algo a respeito”. Falhar aqui não é uma opção.