Morte de piloto jordaniano gera revolta no mundo islâmico

O diretor da faculdade islâmica sunita mais respeitada, a Universidade Al-Azhar, no Egito, afirmou que os militantes merecem a pena de morte prevista no Corão

Cairo – A mais nova execução divulgada pelo grupo extremista Estado Islâmico, que queimou vivo um piloto da Força Aérea Jordaniana, causou revolta entre líderes e políticos muçulmanos do Oriente Médio esta quarta-feira.

O diretor da faculdade islâmica sunita mais respeitada, a Universidade Al-Azhar, no Egito, afirmou que os militantes merecem a pena de morte prevista no Corão por serem inimigos de Deus e do profeta Maomé.

“O Islã proíbe tirar a vida de um inocente”, afirma Ahmed Al-Tayeb, acrescentando que a imolação do piloto Muath Al-Kaseasbeh é contra as regras da religião, mesmo em tempos de guerra.

A aplicação da pena de morte é comum no Oriente Médio muçulmano, sendo o enforcamento um dos métodos mais usados.

A decapitação é rotineiramente utilizada na Arábia Saudita, enquanto no Irã e no Paquistão, penas de apedrejamento, apesar de pouco utilizadas, estão previstas no código penal.

A imolação, entretanto, é um punição incomum. Segundo o clérigo saudita Sheik Salman Al-Oudah, a punição é proibida pelo Islã, uma vez que o próprio profeta Maomé afirmou que apenas Deus tem o direito de aplicá-la.

Youssef Al-Qaradawi, clérigo proeminente e respeitado pela Irmandade Muçulmana e outros islamistas, divulgou um documento de cinco páginas esta quarta-feira com citações do Corão em que mostra que não se deve tratar mau prisioneiros de guerra.

“A frouxidão da comunidade internacional em tratar com um presidente que mata seu povo (…) é o que criou esses grupos extremistas e deu a eles um ambiente fértil”, disse, em alusão ao presidente sírio Bashar Assad.

Certos teólogos disputam essa visão. Hussein Bin Mahmoud, que é ligado ao Estado Islâmico, afirmou via redes sociais que dois dos sucessores do profeta Maomé aprovavam a imolação como pena para renegados árabes no século VII.

Já o estudioso Bin Mahmoud escreveu que o livro sagrado dos muçulmanos os permite retribuir as ofensas feitas pelos inimigos na mesma moeda.

Uma vez que os ataques aéreos pelo Ocidente “queima” os muçulmanos, ele argumenta, o Estado Islâmico pode fazer o mesmo.

Essa interpretação, entretanto, não é aceita pela maioria dos muçulmanos. Líderes e representantes de países muçulmanos como os Emirados Árabes Unidos, a Jordânia, o Catar e a Turquia, assim como de organizações islâmicas como a Cooperação Islâmica condenaram o ocorrido.

O Irã, que ajuda tanto o Iraque quanto a Síria na luta contra o Estado Islâmico, afirmou que o incidente foi um ato “desumano” que violou os códigos do Islã, de acordo com um comunicado do porta-voz do ministério de Relações Exteriores, Marziyeh Afkham.

“Quantos (…) foram as pessoas assassinada pelo Estado Islâmico e seus irmãos?”, perguntava um artigo no jornal libanês Assafir.

“Quantos Al-Kaseasbehs sírios morreram nos últimos quatro dias (…) sem que isso chegassem às manchetes dos jornais?”

Fonte: Associated Press.