Merkel e sobreviventes do Holocausto relembram Auschwitz

Marian Turski e Eva Pusztai-Fahidi, sobreviventes do Holocausto, pronunciaram discursos baseados em suas lembranças pessoais e no destino de suas famílias

Berlim – A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, lembrou nesta segunda-feira, junto com sobreviventes do Holocausto, o 70º aniversário da libertação do campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia, um lugar que, segundo disse, segue enchendo os alemães de vergonha.

“O que ocorreu em Auschwitz é algo que enche os alemães de vergonha, foram os alemães que cometeram os crimes que representaram uma ruptura da civilização”, disse Merkel em um ato organizado em Berlim pelo Comitê Internacional de Auschwitz na véspera da cerimônia oficial, que será realizada na Polônia.

Merkel foi precedida no palco por dois sobreviventes do Holocausto, Marian Turski e Eva Pusztai-Fahidi, que pronunciaram discursos baseados em suas lembranças pessoais e no destino de suas famílias, nas quais quase todos os membros morreram nas câmaras de gás.

Pusztai-Fahidi comoveu o público, que a aplaudiu de pé depois que repassou sua biografia desde o momento em que chegou a Auschwitz, em 1944, até o dia de hoje quando, já em idade avançada, diz ter achado uma razão válida para estar viva e não ter morrido como seus pais e sua irmã mais nova.

“Como todos os sobreviventes, levei como um fardo a pergunta “por que eu não morri como os outros?” Com os anos acredito ter achado uma resposta: estou viva para dar testemunho do que aconteceu”, declarou.

No momento em que sua família foi deportada para Auschwitz, a irmã mais nova de Eva Pusztai-Fahidi tinha 11 anos, sua mãe, 39, e o pai era um pouco mais velho.

“Meu pai tentava nos animar dizendo que permaneceríamos juntos e que conseguiríamos superar os poucos dias que faltavam para o fim da guerra. Não conseguiu passar um dia quando já tinham nos separado e minha mãe e minha irmã foram levadas às câmaras de gás”, lembrou.

“Imagino a minha mãe na câmara de gás, com minha irmã tomada pelas mãos e com muitos outros, e ainda me pergunto qual foi a última coisa em que pensou”, acrescentou.

A busca de uma reconciliação continua sendo difícil apesar da passagem dos anos: “Aprendemos a deixar o ódio de lado, mas reconciliação? Reconciliemo-nos ou não, nossos mortos não voltarão”, salientou.

Por sua vez, Marian Turski centrou seu discurso na necessidade do diálogo com as gerações mais jovens sobre o Holocausto, a partir de uma experiência que teve há seis anos em um ato no antigo campo de concentração de Dachau.

Uma jovem bolsista alemã, após saber que ele tinha estado em Buchenwald e Auschwitz, lhe pediu que lhe falasse da vida cotidiana nos campos de extermínio.

“Contei coisas do horror, mas também coisas que refletem a grandeza humana e, no final, lhe perguntei se alguma vez tinha feito perguntas a seus pais ou a seus avôs sobre o Holocausto. Ela me disse que não tinha tido coragem”, relatou.

Anos depois, Turski recebeu uma carta na qual a jovem lhe pedia desculpas por ter lhe perguntado algo que não tinha se atrevido a perguntar a gente de sua família e na qual lhe agradecia as respostas reveladoras.

“A História é como uma corrida de revezamentos na qual uma geração entrega seu testemunho à seguinte. Nós somos velhos e estamos entregando o testemunho que agora levam outros, que têm que fazer seu percurso. Tomara que nossa experiência lhes sirva para que algo assim não volte a repetir-se”, comentou.

“O começo de Auschwitz foi a humilhação do outro. Hoje cada vez que um judeu, um israelense, um muçulmano ou um cristão é humilhado é como se Auschwitz começasse outra vez”, completou.