“Mérito de Rio Branco foi não optar por saídas simplistas”, diz biógrafo

Nova biografia do Barão do Rio Branco, o patrono da diplomacia brasileira, revela a complexidade de lidar com questões internacionais

SÃO PAULO — A vida do diplomata e estadista José Maria da Silva Paranhos Júnior – ou simplesmente Juca Paranhos, o Barão do Rio Branco – esteve ligada a momentos decisivos da história do Brasil na virada do século 19 para o século 20. Considerado o patrono do Ministério das Relações Exteriores no país, o Rio Branco liderou a defesa do Brasil em uma série de arbitragens internacionais que definiram as fronteiras atuais do território brasileiro. A atuação de Paranhos foi fundamental para que o Brasil tivesse hoje os territórios que formam hoje o Acre, o Amapá e parte do Amazonas e também uma parte da fronteira com a Argentina. São áreas equivalentes a dos três estados da região Sul e mais o estado de Pernambuco.

As vitórias diplomáticas de Rio Branco ocorreram num momento de grande ebulição política no Brasil, logo no início da República. Era um momento em que ainda havia uma resistência muito forte de grupos políticos que apoiavam a monarquia, e o poder da República ainda não estava consolidado. A atuação do Barão do Rio Branco ajudou a unir esses dois principais campos opostos da política brasileira – uma polarização tão ou ainda mais forte como se tem visto atualmente, mais de 100 anos depois.

Por isso, vem em boa hora o lançamento da nova biografia Juca Paranhos, o Barão do Rio Branco, escrita por Luís Cláudio Villafañe G. Santos e publicada recentemente pela editora Companhia das Letras. Villafañe é diplomata de carreira e historiador e conhece como poucos a história da política externa brasileira. É autor de uma série de livros sobre o tema e tem outros dois livros publicados sobre o Barão do Rio Branco – O Evangelho do Barão: Rio Branco e a identidade brasileira, de 2012, e O Dia em que Adiaram o Carnaval: política externa e a construção do Brasil, de 2010.

No novo livro, Villafañe explora detalhes da vida pessoal de Juca Paranhos, nascido no Rio de Janeiro em 1845 e morto em 1912, aos 66 anos. O Barão era filho de José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco, que era uma importante figura política no Segundo Reinado e chegou a ser inclusive primeiro-ministro. Juca Paranhos cresceu neste ambiente e, como fica claro no livro, sua vida é muito moldada pelos costumes, pelos valores e pelo ambiente político da época do Império. A biografia escrita por Villafañe, mais do que contar a história de um dos personagens mais importantes da história brasileira, é uma janela para os meandros da vida pública e privada no Rio de Janeiro na segunda metade do século 19.

Um exemplo disto é o relacionamento de Juca Paranhos com a atriz belga Marie Philomène Stevens, que trabalhava num cabaré no Rio de Janeiro. O Barão e Marie Philomène tiveram cinco filhos, mas ele demorou anos para se casar com ela e assumi-la como esposa. O pai e a mãe de Rio Branco não aceitavam o relacionamento, porque desejavam que filho se casasse com uma pessoa de uma família rica e nobre. O Visconde do Rio Branco, o pai, era uma pessoa que tinha ascendido na vida. Ele vinha de uma família pobre e conseguiu chegar ao alto escalão do governo. Mas seu sucesso só estaria completo se conseguisse consolidar o sobrenome Paranhos como uma importante família do Império.

“Com o passar do tempo, o Barão desistiu da ideia e acabou se casando com a Marie Philomène”, disse Villafañe em entrevista a EXAME. “Isso é uma coisa que a minha biografia é diferente das demais. Mostro um Rio Branco que muda muito. Ele vai. Ele volta. Ele se arrepende. Ele se reinventa. Ele tenta se regenerar. Em todas as biografias, a imagem que se tem é daquele sujeito que está lá quietinho, no canto dele, escrevendo livros, recolhido, cuidando da vida dele. E aí, de repente, ele é chamado para defender o Brasil numa disputa territorial com a Argentina. É totalmente falsa esta figura do sujeito que está lá recolhido.”

Para Villafañe, a história de Rio Branco joga luz sobre um longo período não só da história do Brasil, como da própria história mundial. Sua vida adulta se confunde com o período que o historiador Eric Hobsbawn chama de “A Era dos Impérios”, quando o mundo era dominado por grandes potências imperiais europeias. Durante a vida de Rio Branco, esse mundo foi chegando ao fim à medida que crescia o papel dos Estados Unidos no cenário internacional e, portanto, é um período de grandes transformações. “O Barão Rio Branco é um sujeito que faz esta ligação entre o Brasil e esse mundo que está em transformação”, diz Villafañe, que concedeu a seguinte entrevista a EXAME, num encontro em São Paulo:

 

EXAME – O papel do Barão Rio Branco em negociações sobre a fronteira brasileira talvez seja uma das características que os brasileiros em geral mais conhecem sobre ele até hoje. Como esta imagem foi construída?

Quando o Barão do Rio Branco vence a sua primeira disputa com a Argentina em 1895, ele vira um sujeito muito importante da noite para o dia. Porque o Estado brasileiro neste momento estava passando por uma grande crise de legitimidade com a mudança do Império para a República. O Brasil enfrentava também uma grande crise financeira, e passava por um momento de grande desalento e de grande polarização. Esta crise vai se refletir na Revolução Federalista, em que morreram 10 mil pessoas, vai se refletir na Revolta da Armada, e depois vai se refletir em Canudos.

E o que acontece: o Rio Branco tem uma grande vitória sobre a Argentina, num assunto que todas as pessoas concordavam, que é o território, fossem elas monarquistas ou republicanas. Uma coisa que todo mundo podia festejar. E o território é um dos grandes mitos de formação da nacionalidade brasileira. Então isso inclusive vai fazer que o próprio Rio Branco tenha um certo papel como pai da pátria.

Na hora que o Rio Branco tem aquela vitória, o Brasil precisava desesperadamente de heróis. Nesse momento, ele passa da obscuridade total, para a glória.

Para se ter ideia, se somar todos os territórios que o Rio Branco ganhou nas arbitragens, isso equivaleria aos três estados da região Sul – Rio Grande do Sul, Santa Cataria e Paraná – mais a área de Pernambuco.

Era uma bandeira que podia unir todo mundo.

Exatamente. E o Rio Branco tinha esta coisa que ele não só realizava, mas ele produzia a narrativa das coisas que ele fez. Ele tinha uma atuação muito importante na imprensa e nos seus artigos ele criou interpretações sobre a política externa brasileira, sobre a questão de fronteiras, que não são desafiadas até hoje. E não só pela diplomacia. A academia também repete as interpretações dele de maneira acrítica até hoje.

O que o senhor acha que poderia ser contestado?

Dou um exemplo. Na questão da fronteira do Acre, o Rio Branco acaba fazendo o Tratado de Petrópolis, que é um tratado muito benéfico para o Brasil. Um tratado muito bom. Mas o problema é o seguinte: todo o território do Acre e mais uma parte do Estado do Amazonas eram disputados também pelo Peru, não só pela Bolívia. E a negociação com o Peru só seria concluída 5 anos mais tarde.  

Então, o Rio Branco assinou o Tratado de Petrópolis com a Bolívia, mas podia ter perdido tudo para o Peru. Teria dado à Bolívia 2 milhões de libras, partes do território brasileiro, teria prometido construir uma ferrovia, tudo isso para nada. No momento em que o Tratado de Petrópolis está para ser assinado, ele se assusta achando que o podia não ser aprovado. O que ele faz? Ele faz um tratado militar secreto com o Equador para a atacar o Peru ao mesmo tempo pelo Pacífico e pelo Amazonas, que é uma coisa que nenhum biógrafo cita.

A historiografia brasileira coloca este tratado com o Peru como uma coisa absolutamente burocrática. Não foi bem assim. Não se pode pensar a resolução do Acre sem a do Peru também.

E o que continha a o tratado militar com o Equador?

É um tratado de guerra contra o Peru. Continha que ele só seria apresentado aos congressos se fosse necessário, na iminência de um ataque militar. E esse tratado foi absolutamente esquecido, porque era secreto. Eu só achei registro dele na historiografia peruana. Porque o tratado era secreto, mas se os peruanos não soubessem, não tinha graça. Então os peruanos souberam e isso ficou registrado.

Capa do livro “Juca Paranhos, o Barão do Rio Branco”, de Luís Cláudio Villafañe Gomes Santos. Publicado pela Companhia das Letras em setembro de 2018.

Capa do livro “Juca Paranhos, o Barão do Rio Branco”, de Luís Cláudio Villafañe Gomes Santos. Publicado pela Companhia das Letras em setembro de 2018. (Companhia das Letras/Divulgação)

O embaixador Rubens Ricupero, no livro dele, fala muito sobre o papel da diplomacia na formação do Brasil. E o Rio Branco é um dos atores principais disso. Você concorda com esta tese?

Concordo absolutamente. Publiquei um outro livro em 2010, chamado O Dia que Adiaram o Carnaval, que trata justamente da relação entre a politica externa e a identidade brasileira, que é algo fundamental, em qualquer Estado. No Brasil, como a maioria dos Estados, o Estado precede a nação. A nação brasileira não existia, e é criado um Estado. E o Estado passa a ter um papel importante para legitimar a ideia de nação.

Isso não é uma exclusividade do Brasil?

Não. Ocorre na maioria dos casos. São poucas exceções. O Estado de Israel, por exemplo. Existia uma nação judia, e em algum momento se cria um Estado. Mas a regra é que o Estado precede a nação. E o Brasil não foi diferente. E aí cada pais terá os seus mitos de origem. No Brasil, um mito de origem que é fundamental é o mito do território, de que existiu um Brasil antes de os portugueses chegarem. Que é uma coisa absurda se pararmos para pensar. É uma coisa absolutamente ilógica.

E como se encaixa o papel do Barão do Rio Branco nisso?

Ele teve um papel importantíssimo na questão territorial e na questão da narrativa, porque ele também é um sujeito que vai criar as narrativas. Ele dá o tom do que está acontecendo.

A vida do Rio Branco também serve de uma grande janela para iluminar a relação entre poder e imprensa, do Império até o começo da República. Tem um capitulo que eu conto a briga dele com o jornal Correio da Manhã, que ameaça a investigar a vida pessoal dele. E ele também ataca de volta.

E tem uma outra coisa que decorre daí que é desmitificar essa ideia de unanimidade. O Rio Branco quando morre é uma pessoa imensamente popular, mas não havia uma unanimidade em relação a ele na vida política. Ele sofreu ataque o tempo todo. Ataques às vezes muito duros. Ele esteve para perder o Ministério das Relações Exteriores em algumas ocasiões.

Então como se criou este mito sobre esta unanimidade?

Ele mesmo criou este mito. E outro mito que ele criou é de que o Ministério das Relações Exteriores teria total autonomia. No que se faz ali, ninguém se mete. Não é verdade. Ele era um monarquista conhecido e chega no Itamaraty para trabalhar num governo republicano. Então ele sabe que está num mundo absolutamente desconhecido para ele. Ele tem muito medo, quando chega no Ministério, de encontrar essas pessoas que defendiam a República.

Apesar de ele ter chegado festejadíssimo, ele tem um medo de fracasso imenso naquele momento. E aí, para se livrar da luta política e das críticas dos republicanos, ele criou uma narrativa, que até hoje tem influência, de que a política externa é totalmente separada da política interna. Muita gente ainda diz isto: política externa é uma política de Estado e não tem nada a ver com a política interna.

Esta ideia ainda é muito forte.

Sim. É uma ideia que está no vocabulário político até hoje. E é uma ideia que ele vai criar. Ele não vai criar do nada. É uma defesa para ele. O primeiro discurso que ele faz como ministro no Rio de Janeiro, no dia 2 de dezembro de 1902, ele diz: “Olha, eu vim aqui para tratar de política externa. E política externa não tem nada a ver com política interna. Me afastei da política interna há 26 anos, não vamos mexer com política interna.” Então ele vai criar isso no discurso e depois o discurso é apropriado até pelo próprio Itamaraty.

Como avalia esta divisão que ele acabou criando entre política externa e política interna?

Foi uma coisa instrumental. Obviamente há mediações para que a política interna se transforme em política externa. Mas uma política externa totalmente desligada da política interna não dura duas semanas. A relação entre política interna e externa é absolutamente real. Mas ele conseguiu vender esta narrativa, que até hoje tem muito impacto.

Trazendo para o Brasil de hoje, o que acha que a história do Rio Branco traz de grande ensinamento?

Isso é uma pergunta que fazem. E como historiador tenho grande dificuldade com esta pergunta. O que o Rio Branco acharia da política externa de hoje? Não acharia nada. Ele teria grande dificuldade. O Rio Branco de certa maneira é um estadista do século 19. A visão dele sobre política externa é uma visão mais do século 19 do que do século 20. Por exemplo: qual é a opinião do Rio Branco sobre aquecimento global? Ele não teria nenhuma.

Se o Rio Branco entrasse no Itamaraty hoje e se deparasse com diplomatas mulheres, negros, ele teria uma síncope. Porque um dos critérios para entrar no corpo diplomático na época que ele era chanceler era ser bonito. Ele recusou pessoas por serem feias.

Às vezes as pessoas fazem esta pergunta pensando em mitos. Por exemplo, o mito que o Rio Branco favorecia um alinhamento com os Estados Unidos. Isso é mentira. Quando o Rio Branco morre, quando acaba a gestão dele em 1912, a relação com os Estados Unidos está no pior momento em muitas décadas.

A minha pergunta não era tanto o que o Barão do Rio Branco pensaria hoje da política externa. É mais sobre o que a história dele traz de ensinamento para o que vivemos hoje na política, na economia, na política externa?

Acho que traz muita coisa. Primeiro, procurar entender o jogo da política interna e da política externa de uma maneira mais sofisticada. Ou seja, não existe esta ideia de que se um determinado candidato à Presidência ganhar, ele vai fazer tal coisa ou outra e que não existe nenhuma mediação. Entender os jogos de política interna, no contexto internacional, é um grande ganho.

E o Rio Branco tinha uma visão muito sofisticada. Ele conseguiu manejar bem. Porque, a questão do Acre, por exemplo, era um problema de política externa, mas era um problema de política interna também. Porque o Estado do Amazonas é que tinha promovido a ida dos seringueiros para a Bolívia. O Estado do Amazonas era o maior interessado, porque naquele momento o imposto de importação ia para o cofre estadual. Então o Amazonas queria que o Acre virasse parte do seu território porque ia ficar rico. Quando o Acre passa a ser parte do Brasil, o governo o transforma em território federal e a arrecadação vai para o governo federal.

Além disso, é importante para entender como o cenário internacional também influi sobre o contexto interno. E isso é fundamental no Brasil de hoje, num Brasil em que a gente está cada vez mais polarizado, às vezes com visões cada vez mais simplistas. Recuperar a riqueza e a sofisticação desse jogo talvez seja a maior coisa que se pode trazer para esta releitura da obra do Rio Branco.

O senhor quer dizer que a radicalização tem que se evitada?

Sim. É preciso recuperar o diálogo. E as simplificações a que a nossa política hoje está levando é muito prejudicial. Acho que o grande mérito do Rio Branco foi não ter seguido esta simplificação. Normalmente, as soluções simples não vão funcionam. Elas levarão a problemas maiores.

Por exemplo, na disputa territorial do Acre. Tinha uma imensa população brasileira vivendo num estado estrangeiro. Tinha uma tropa boliviana que estava indo para lá para brigar com eles. O Peru também tinha invadido parte do Acre. Imagina o quão complicado era isso. Imagina se o Brasil partisse para uma solução simplista.

Uma solução fácil teria sido ir à guerra com a Bolívia e depois ter ido à guerra com o Peru. Imagina que tragédia? O Chile e a Bolívia optaram pelo conflito e até hoje estão disputando território. No fundo é uma coisa irresolvida até hoje.

O custo para o Brasil também seria imenso…

E não só isso. Até hoje a gente estaria discutindo com a Bolívia – além de ter morrido um monte de gente ali. A grande lição é esta. Os problemas são complexos. É preciso ter calma, tem que saber jogar. E não foi fácil para o Rio Branco. Ele foi muito combatido. Ele foi atacado pela imprensa. Ou seja, enfrentou um problema complicadíssimo de política interna também.

E a atuação do Rio Branco, sofisticada, sutil, inteligente, conseguiu uma solução sensacional. Portanto, acho que esta é uma lição que a gente precisa sempre e, talvez, precisamos dela hoje mais do que nunca. A gente tem que procurar soluções que perdurem e que não criem outros problemas.