Crendices atrapalham combate ao ebola, diz médico brasileiro

Resistência da população, agressividade, calor excessivo e desinformação são desafios diários para Paulo Reis, da organização Médicos Sem Fronteiras

Rio – O médico carioca Paulo Sergio Reis viu mais de 70 pacientes morrerem em decorrência de ebola na África Ocidental, onde trabalhou por três meses, em centros de tratamento dos Médicos Sem Fronteiras (MsF).

Ainda assim, não hesitou em aceitar voltar para lá – o que fará nos próximos dias, para nova missão.

“Não sinto medo. Quando você tem conhecimento e toma todas as precauções, não tem por quê. Não considero que seja mais arriscado do que andar no trânsito do Rio”, disse Reis em entrevista nesta quinta-feira, 21 na sede da ONG, no Rio. 

De folga na cidade há 20 dias, o clínico de 42 anos, nos MsF há nove, prepara-se para mais uma temporada difícil, com carga horária de trabalho de até 13 horas diárias. Da família e dos amigos, ouviu piadas.

“As pessoas brincam, mas entendem. Falam “você é maluco, vou te amarrar no pé da cama”. Mas não tem por que ficar mais preocupado do que em qualquer outra missão dos MsF. Meus pais estão acostumados e apoiam.”

Desde que chegou da África, afere sua temperatura três vezes ao dia, para ter certeza de que se mantém saudável. Ele não acredita na possibilidade de o ebola se disseminar no Brasil caso um doente desembarque no país, pelo fato de os rituais fúnebres que constituem importante forma de contágio não serem seguidos aqui. Lá, morriam sete em cada dez pacientes que chegaram à unidade médica onde trabalhava.

Reis contou que um dos inúmeros desafios do trabalho que desenvolveu de março a agosto em Serra Leoa e em Guiné foi vencer a resistência da população saudável.

“Quem não teve contato com a doença tem muita suspeita, crendice, pode ser agressivo, jogar pedra no nosso carro. Você vê criança se escondendo. Há todo tipo de história que se possa imaginar, muita gente não acredita que a doença exista. Já quem tem informação nos trata muito bem.”

Outra dificuldade é o calor sob a vestimenta especial usada para lidar diretamente com os doentes em isolamento, semelhante à de um astronauta: a roupa, o capuz, os dois pares de luva e a máscara são incinerados depois de cada uso; as botas de borracha, o avental de borracha e os óculos de segurança são desinfetados em seguida com cloro.

“Nenhuma parte do corpo fica exposta. Nos dias de calor, que pode chegar a 40 graus, termino todo molhado de suor, como se tivesse saído do chuveiro, porque a roupa não permite a transpiração. Os óculos ficam embaçados com o suor. Não consigo ficar mais de 40 minutos com a roupa, fico exausto.”

Quando deixou Serra Leoa, no último dia 1º, o centro de tratamento em que trabalhava era o único do país inteiro, e a ronda dos médicos incluía até 18 pacientes por dia. Nos poucos momentos de lazer, churrasco e exibição de filmes divertem as equipes estrangeiras hospedadas em hotéis.

Experiência

Reis decidiu entrar para os MsF aos 17 anos, ao ver reportagem sobre o grupo. Formado em medicina pela Universidade Federal do Estado do Rio (Uni-Rio), participou da primeira seleção da organização no Brasil.

Hoje é considerado um dos mais experientes brasileiros nas missões – já participou de 17, em países da África, na Indonésia, na Colômbia e no Complexo do Alemão, no Rio. Em 2012, já havia lidado com o ebola.