Mediação entre Colômbia e Venezuela é oportunidade para Brasil

Para professor da USP, interesses comerciais afastam a possibilidade de conflito armado. Risco maior para o Brasil é sobrecarregar sua pauta diplomática

O confronto entre Colômbia e Venezuela em torno da prisão de um membro das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) é sobretudo uma oportunidade para reforçar o papel do Brasil, caso o país tenha sucesso como mediador. “Os dois países vêem a mediação brasileira como bem-vinda”, diz Rafael Villa, professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo (USP) . O novo desafio para a diplomacia brasileira ocorre na região de maior interesse brasileiro, a sul-americana, mais especificamente na sub-região andina, em que o país tem investido política e economicamente desde o governo Fernando Henrique Cardoso.

Do ponto de vista da liderança regional, afirma o professor, é importante demarcar uma posição diferente da americana. “Os Estados Unidos, com seu apoio precipitado ao ato colombiano [que seqüestrou o militante Rodrigo Granda em território venezuelano] novamente estão errando”, diz Villa. Estaria configurada, assim, uma chance para o Brasil suprir a paralisia da Organização dos Estados Americanos (OEA, no momento sem secretário-geral, pois o indicado foi acusado de corrupção). “O Brasil hoje é o único ator em condições de fazer isso.”

Mas a missão não é tão simples. Há riscos, e o primeiro deles decorre da própria personalidade dos governantes em atrito. Tanto Álvaro Uribe, presidente colombiano, quanto Hugo Chávez, da Venezuela, “têm convicções bastante fortes”, diz Villa. Mas, tirando o imponderável dos temperamentos, a lógica e a história afastam a possibilidade de uma guerra latino-americana, como articulistas chegaram a anunciar em jornais americanos. A dependência comercial mútua é grande, e há nada menos que 2 200 quilômetros de fronteira entre os países. Além disso, cerca de 2 milhões de colombianos vivem na Venezuela, e remetem recursos para seu país. “Quem fala em guerra latino-americana ainda está refém das obsessões da Guerra Fria”, afirma Villa.

Mesmo sem complicações resultantes da personalidade dos dirigentes em disputa, o Brasil está se arriscando a sobrecarregar a pauta diplomática. “É preciso saber se o Brasil tem condições de assumir tantos encargos”, diz o professor, “pois já tem bastante compromisso”. De fato, o Brasil comanda a força de paz da ONU no Haiti ao mesmo tempo em que se esforça para reanimar o Mercosul, onde as relações com o principal sócio, a Argentina, não têm sido nada fáceis. Além disso, diz Villa, a Bolívia parece viver um momento de nova instabilidade política. “E o Brasil tem interesses importantes ali.”