Maduro ordena expulsão de funcionários consulares americanos

Maduro afirmou que a desculpa para as reuniões com os estudantes de universidades privadas era oferecer vistos para os Estados Unidos

Caracas – Uma nova crise explodiu neste domingo entre Venezuela e Estados Unidos, depois que o presidente Nicolás Maduro ordenou a expulsão de três funcionários consulares não identificados, acusados de participação em reuniões com universitários, ao mesmo tempo em que prosseguiam os protestos de estudantes.

“Dei a ordem ao chanceler da República de proceder a declarar ‘persona non grata’ e expulsar do país estes três funcionários consulares da embaixada dos Estados Unidos da América. Que vão a conspirar em Washington!”, disse Maduro em rede nacional de rádio e televisão.

Maduro afirmou que a desculpa para as reuniões com os estudantes de universidades privadas era oferecer vistos para os Estados Unidos.

No fim de setembro, Maduro determinou a expulsão de três diplomatas americanos, entre eles a encarregada de negócios Kelly Keiderling, acusados pelo governo de conspirar em reuniões com opositores. Os dois países não contam com embaixadores desde 2010.

Pouco antes do anúncio da expulsão, o governo venezuelano acusou Washington de tentar “legitimar tentativas de desestabilização”, em referência a um comunicado do secretário de Estado, John Kerry.

A Venezuela “rejeita contundentemente” as declarações de Kerry “enquanto constituem mais uma manobra do governo de Washington por promover e legitimar as tentativas de desestabilização da democracia venezuelana efetuadas por grupos violentos nos últimos dias”, destaca um comunicado oficial.

No sábado, Kerry destacou que o governo dos Estados Unidos estava “profundamente preocupado” com as “crescentes tensões e a violência” na Venezuela, cenário de quase duas semanas de protestos da oposição e onde os distúrbios deixaram três mortos e dezenas de feridos na quarta-feira passada.


Durante quase duas semanas, milhares de estudantes de todo o país têm protestado nas ruas contra a insegurança, a inflação, a falta de produtos básicos e a detenção de estudantes.

Mas desde quarta-feira, os protestos ficaram mais violentos.

No domingo à noite, grupos de manifestantes atacaram com pedras a sede do canal de televisão estatal VTV, denunciou Maduro.

Quase três mil estudantes protestaram em Caracas no domingo. O governo venezuelano afirma que as manifestações são parte de um “golpe de estado fascista em marcha” e acusa grupos de ultradireita.

Milhares de estudantes opositores voltaram a sair às ruas neste domingo em Caracas para denunciar a violência que grupos de encapuzados desataram após as manifestações nos últimos dias, com saldo de três mortos e que atribuem a grupos de infiltrados.

Mais de 3.000 pessoas, em sua maioria jovem, se encontraram no setor leste de Caracas para repudiar a violência registrada em Caracas e outras cidades do país, que desatou autênticas batalhas entre forças da segurança e encapuzados.

“Vamos continuar na rua, em paz, sem violência. Exigimos de Nicolás Maduro o desarmamento dos ‘coletivos’, até que não os desarmem, não deixaremos as ruas!”, disse diante da multidão Gabriela Arellano, estudante da Universidade dos Andes (leste) e uma das líderes do movimento.

Os estudantes que pediram mobilizações há 15 dias em diferentes localidades da Venezuela responsabilizam os denominados “coletivos”, simpatizantes do chavismo, de estarem armados e serem os responsáveis pela violência.


©afp.com / LEO RAMIREZ

O presidente da Venezuela, Nicolas Maduro

Na reunião foi decidida uma nova manifestação para segunda-feira que partirá do município de Chacao, cenário de confrontos nas últimas quatro noites, até o centro de Caracas para exigir o desarmamento desses grupos.

Na quarta-feira passada, em Caracas, foi registrada a maior manifestação contra Maduro desde que assumiu o poder em abril de 2013, no final da qual aconteceram distúrbios e ataques à bala que se prolongaram até a noite com saldo de três mortos, mais de 60 feridos e uma centena de detidos.

As mobilizações se iniciaram no começo de fevereiro nos estados de Táchira e Mérida (leste) para denunciar a insegurança nos campi estudantis e o protesto se estendeu em todo o país se somando às demandas de liberdade para estudantes detidos e melhores condições de vida.

A Venezuela, que conta com as maiores reservas mundiais de petróleo, registra uma inflação de 56,3% e uma aguda escassez de alimentos e produtos básicos.