Livro faz retrato poderoso do maior carrasco do apartheid

Autora queria conhecer prisão para construir uma passagem do livro de ficção que estava escrevendo, mas ficou impressionada por De Kock.

Johanesburgo, 12 jul (EFE).- Através de suas conversas na prisão com quem fora o mentor e, frequentemente, a mão executora do regime do apartheid, Anemari Jansen faz um poderoso retrato do carrasco e toca, em seu livro “Assassin for the State” (“Assassino do Estado”, em tradução livre) na parte mais incômoda de suas origens como sul-africana branca e africâner.

A entrada em 2011 do líder do esquadrão da morte do regime supremacista, Eugene De Kock, em sua plácida vida de classe média levou Jensen a lançar um olhar inquisitivo e documentado do passado que mudaria para sempre a percepção de sua própria identidade.

“Por um lado estão os valores africâneres do trabalho duro, do amor a terra. Mas também a rigidez das mentalidades, o calvinismo”, disse à Agência Efe Jansen, que reconhece ter vivido, como a maioria de seu povo, de costas para as atrocidades cometidas por gente como De Kock para defender seus privilégios.

A fingida amizade começou em 2011, quando o visitou pela primeira vez na prisão de Pretória junto a um amigo comum. De Kock cumpre desde 1996 duas penas de prisão perpétua e uma terceira pena de 212 anos pelo sequestro e assassinato de vários ativistas antiapartheid.

Jansen queria conhecer a prisão para construir uma passagem do livro de ficção que estava escrevendo, mas ficou impressionada pelo ar distinto, quase delicado, a conversa inteligente e a sensibilidade de De Kock.

“Não é o que se espera de alguém que fez coisas terríveis”, comentou Jansen, que em seguida começou a acompanhar suas marcas, repassando os documentos de seu julgamento e se reunindo com seus antigos amigos.

“Acabei sendo um menino a mais”, contou Jansen, sobre encontros nos quais afloravam lembranças que também foram repassadas durante a hora de conversa que “Eugene” – como chama a quem acabou se tornando um amigo – tinha atribuído para as visitas na prisão.

“Falava sem parar da guerra na Namíbia, mas era difícil que rememorasse os tempos em Vlakplaas”, a fazenda de Pretória que o esquadrão da morte que dirigiu nos anos 80 usava como base.

Jansen chegou a esse tema em sessões que a deixavam exausta -“a prisão é um espaço extremamente intenso” -, nas quais entreviu os motivos que levaram De Kock a ser um assassino às ordens de políticos e generais que o abandonariam depois.

“Há um elemento genético nestes jovens cheios de testosterona, que vão ao combate porque necessitam de adrenalina”, afirmou a escritora, que aponta também o ambiente fortemente politizado e dogmático, de reverência à polícia e ao exército, nas comunidades africâneres.

Devastado o mundo da ideologia supremacista e anticomunista pelo qual matou, os motivos pelos quais De Kock acreditou lutar para defender a cristandade e por seu povo deram passagem à suposição do que fez.

Escorada pelo perdão e a amizade que algumas vítimas ofereceram ao carrasco, uma ideia percorre o livro de Jansen: De Kock ganhou sua redenção através da honradez e da verdade nua.

O “assassino do apartheid” obteve liberdade condicional em maio, após um tempo na prisão no qual se manteve afastado dos grupos carcerários e não deixou de ler e nem de escutar a “Primavera” de Vivaldi, elogiou Jansen.

De Kock inicia sua nova vida em liberdade tendo que conviver ainda com as imagens de seus crimes, que o atormentam pela noite, e às quais só vencerá “se construir novas lembranças”, de acordo com a autora.

Embora Jansen considere De Kock capaz de começar essa nova vida buscando um trabalho, acredita que a prioridade dele é recuperar o contato com seus filhos, que fugiram quando os segregacionistas perderam “a guerra” – como De Kock se refere à queda do apartheid -, do monstro que foi seu pai e de um país que o batizou como “o mal absoluto”. EFE