Líderes na guerra são exemplo de erros e acertos

Segunda guerra foi um conflito entre lideranças políticas

A Segunda Guerra Mundial, muito mais do que a primeira, foi um conflito entre líderes políticos. Todos eles carismáticos, e todos marcados por um traço comum de determinação que conferiu à luta travada entre 1939 e 1945 a sua feição mais marcante: foi uma guerra sem tréguas e sem armistícios. Até os soldados franceses, cujo governo assinou um tratado de paz com a Alemanha em 1940, continuaram a luta sob o comando do general Charles de Gaulle. Para o bem ou para o mal, Churchill, Stalin, Roosevelt e Hitler entraram para a história do século 20 como alguns de seus personagens mais conhecidos. Em sua personalidade, e na maneira como tomavam decisões, encontram-se várias explicações para os resultados do conflito.

Dois desses chefes eram ditadores. Os outros dois eram obrigados a dar conta de seus atos ao parlamento. Dois tinham alguma experiência militar. Winston Churchill havia servido no final do século 19 como oficial do exército e participado de combates em guerras coloniais. Na Primeira Guerra Mundial, era chefe do Almirantado. Apesar de ter sido demitido em 1915,nunca perdeu seu gosto por questões militares. Dizia que comer e lutar são as duas coisas mais estimulantes da vida.

Cabo Hitler

Adolf Hitler serviu como cabo durante toda a Primeira Guerra, sempre na linha de frente. Conhecia bem as aflições dos soldados e suas queixas em relação aos oficiais. Por isso, ao longo de toda a Segunda Guerra, salvo algumas exceções, tratou seus generais com desprezo e desconfiança.

Presidente americano

Franklin Roosevelt não tinha experiência militar digna de nota. O seu maior interesse estava nas grandes questões da diplomacia. Uma poliomielite na idade adulta o prendeu a uma cadeira de rodas, a partir de 1921. Morreu três semanas antes da rendição da Alemanha. Coube ao seu sucessor, Harry Truman, a decisão de ordenar o ataque nuclear a Hiroshima e Nagasaki.

Líder soviético

Joseph Stalin nunca foi soldado (recebeu dispensa do exército na Primeira Guerra Mundial por incapacidade física), embora gostasse de temas como tática e estratégia. Nos expurgos da década de 1930, desarticulou as forças armadas, executando ou aprisionando a maioria dos oficiais. Administrava uma burocracia caótica. Nunca se dirigia ao povo, mas ao Partido Comunista.

É interessante estudar como esses homens transformaram desvantagens em vantagens, como superaram suas dificuldades e preconceitos ou sucumbiram a eles. Tome-se o caso de Churchill. Quando se lê as biografias escritas sobre ele, ou as memórias dos que trabalharam em seu gabinete durante a guerra, é difícil imaginar que a Inglaterra tenha preponderado sobre o nazismo. Churchill era o arquétipo de inglês excêntrico. Era glutão, pintava quadros, escrevia livros de história, recitava poemas nas horas mais impróprias.

Bom líder político

O marechal Alan Brooke era um oficial experiente, que conhecia a profissão. Churchill, embora atormentasse oficiais como Brooke, sempre lhes deu a decisão final. Em termos operacionais, foi o seu maior acerto. Em termos políticos, Churchill merece toda a fama que tem.

Podia ser excêntrico, mas não era ingênuo como seu antecessor, o primeiro-ministro Neville Chamberlain. Chamberlain tolerou o rearmamento da Alemanha, nos anos 1930. Engoliu quebras de tratados internacionais por parte dos nazistas, como ocorreu com a anexação da Áustria e da Checoslováquia. Até que tornou-se tarde demais. Ao contrário, Churchill, desde o início, apelidou os nazistas de “hunos” e os apontou como um perigo a ser enfrentado mais cedo ou mais tarde. Mais cedo, de preferência. Sua postura impediu qualquer armistício com a Alemanha, e isto numa época em que a Inglaterra, parcialmente desarmada e sob bloqueio dos submarinos alemães, era o único país que se opounha a Hitler. Sua coragem pessoal, permanecendo em Londres durante os bombardeiros alemães, tornou-o um chefe em que os ingleses confiavam. Seus passeios entre as ruínas, suas visitas aos soldados no front, sua atenção para com as vítimas o transformaram numa pessoa querida.

Oposto alemão

Do outro lado do fenômeno Churchill está Adolf Hitler. Os historiadores militares podem discordar neste ou naquele ponto, mas o exército alemão, seus recursos materiais, e seus oficiais, formavam a melhor máquina de guerra existente nos primeiros anos da década de 1940. Todo esse potencial perdeu-se com uma liderança ruim. Hitler não bebia; não fumava; era vegetariano. Tratava com delicadeza suas secretárias e todo o pessoal do baixo escalão. Divertia-se assistindo filmes produzidos em Hollywood. Abominava o esporte da caça por julgar que o sofrimento proposital de animais era contrário à essência da alma ariana. Perdia horas em brincadeiras com crianças pequenas, filhas de seus assessores. Era preguiçoso. Nunca acordava antes das 11 da manhã, e encerrava o expediente muito cedo. Ao contrário do que dizem muitas lendas, era, no início do III Reich, um homem fisicamente saudável, em que pesem sua miopia e alguns problemas dentários.

Pela perspectiva atual, a Alemanha não poderia vencer. Tinha os piores aliados, como é o caso de vários dos caóticos países dos Bálcãs. Apoiou-se em Mussolini, apenas para perder milhares de soldados, tanques e aviões em seu socorro. Um de seus pontos de apoio estava Japão, com quem qualquer colaboração física era impossível. Seus portos estavam bloqueados por navios e aviões ingleses. O fato principal, no entanto, é que a Alemanha nazista teve a pretensão de lutar em três ou quatro frentes, ignorando tudo o que a experiência e a teoria militar haviam ensinado. Repetindo: estas são conclusões a que se pode rapidamente chegar nos dias de hoje. Há pouco mais de 60 anos, não era assim tão fácil.

Bom senso

Josef Stalin cometeu o mesmo erro, mas teve o bom senso de corrigi-lo. No primeiro ano da guerra com a Alemanha, pretendeu comandar diretamente o exército soviético. O resultado foi a perda de metade das áreas cultivadas, e de metade da indústria. Em 1942, mudou seu comportamento. Trabalhava 14 horas por dia e exigia o mesmo de seus comandantes. Ao contrário de Hitler, permitia que os generais falassem livremente, e os ouvia. Estabeleceu um sistema de distribuição de privilégios aos oficiais que tomavam decisões acertadas. Ao lado dos privilégios, existiam ameaças. À mercê de Stalin, preso em seus gulags, havia pelo menos um parente próximo de cada general.

Aconteceram outras modificações na União Soviética. A Igreja ganhou alguma liberdade e os padres passaram a abençoar os tanques que saíam das fábricas. O ditador recluso, que só se dirigia aos membros do partido comunista, passou a fazer transmissões patrióticas pelo rádio, em que tratava todos, comunistas ou não, de “irmãos e irmãs”. Uma propaganda intensa mostrava a devastação das cidades e aldeias russas e as brutalidades cometidas pelos alemães. Tudo isto teve êxito. Se no começo da guerra o soldado russo estava desmotivado, entre outras razões pelo sistema autoritário em que vivia, no fim tinha orgulho de seu
uniforme.

Com os aliados, Stalin foi um negociador inflexível. As necessidades de alimentos e equipamentos militares eram enormes na União Soviética, e só poderiam ser supridas com empréstimos ou doações dos aliados. Todo o material foi entregue, sem que Stalin desse nada em troca. A equação montada pelo ditador era simples. Pelos tanques, aviões e carne enlatada que chegavam aos portos soviéticos, o Kremlin pagava com o sangue de seus soldados.

Fora da questão militar

De todos os grandes líderes da Segunda Guerra, Franklin Roosevelt foi o que menos se envolveu em questões militares. Apenas mostrou as grandes linhas de ação para os seus generais e para seus aliados. Foram decisões que marcaram todo o curso da guerra. A primeira: a derrota de nazistas e fascistas seria o objetivo principal; o Japão vinha em segundo lugar. A segunda: não haveria armistício. Só a rendição incondicional da Alemanha terminaria a guerra na Europa. O efeito dessa orientação foi o seguinte. Enquanto os alemães lutavam como baratas tontas, segundo os caprichos de seu chefe, os generais aliados conseguiam o máximo de objetividade em seu planejamento.

Roosevelt era um homem tranqüilo, que sabia esperar. Em 1939 e 1940, quando a guerra já fervia na Europa, Roosevelt estava quieto. Entendeu que seria impossível levar o seu país à luta sem que houvesse consenso a este respeito por parte da maioria do povo americano. O consenso se formou como ataque japonês a Pearl Harbor.