Líbia enfrenta encruzilhada no 3º aniversário da revolução

O levante popular armado líbio que acabou com a ditadura de Muammar Kadafi completa hoje seu terceiro aniversário

Trípoli – O levante popular armado líbio que acabou com a ditadura de Muammar Kadafi completa nesta segunda-feira seu terceiro aniversário com o país imerso em uma profunda crise política, econômica e de segurança.

“A Líbia está em um cruzamento de caminhos entre a estabilidade, já que todos os elementos para o sucesso estão presentes, e a explosão, já que também todos os fatores para uma explosão estão aí”, disse à Agência Efe o antigo vice-ministro de Informação Khaled Nayem.

Nos últimos meses, no vasto país norte-africano, os confrontos parecem se acumular.

Em 10 de novembro, o primeiro-ministro Ali Zidan foi sequestrado durante várias horas por um grupo armado, deixando mais uma vez ao descoberto o déficit de segurança que sofre o país.

Em janeiro, o exército foi posto em estado de alerta máxima após a explosão de uns intensos enfrentamentos na cidade meridional de Sebha, nos quais cerca de 100 pessoas perderam a vida.

O último sobressalto político foi registrado em 14 de fevereiro, quando as autoridades ordenaram a detenção do general reformado, Jalifa Hafter, por planejar supostamente um golpe de Estado.

Hafter, antigo dirigente militar da revolução havia pedido em um vídeo divulgado pela internet o início de um novo roteiro para dirigir a transição prescindindo das atuais instituições políticas.

Sua convocação, na qual aparentemente também estão envolvidos vários oficiais em atividade do exército, aconteceu em um momento de grande tensão, devido à decisão do Congresso Nacional (Parlamento) de prolongar seu mandato, que deveria ter concluído em 7 de fevereiro.

Os deputados líbios acordaram no início de mês um novo roteiro com o compromisso de concluir a Constituição antes de agosto e realizar eleições no fim do ano.

No entanto, conscientes das possibilidades de que a nova agenda pode não ir adiante, decidiram dar sinal verde à redação de uma Constituição transitória alternativa, assim como à possibilidade de eleições antecipadas para setembro e de prolongar o período transitório por outros 18 meses.


Algumas medidas rejeitadas por várias personalidades e forças políticas como o principal partido líbio, Aliança Força Nacional, que acusou os deputados de ter tomado a decisão sem o consenso de todos os grupos políticos.

Para Nayem, que também dirige o canal de TV líbio “Benghazi”, o problema agora está no fato de que depois que se atingiu o principal objetivo da revolução, “acabar com mais de 40 anos de ditadura”, entraram em jogo “diferentes interesses ideológicos, territoriais, tribais e personalistas, antes que o povo conseguisse impor suas condições”.

A Líbia se transformou em “uma trincheira na qual cada grupo se protegeu com as armas que tinha a seu alcance, fosse a informação, a etnia, a região ou a ideologia”, acrescentou Nayem.

Nesse contexto de desencontros políticos, várias vozes pedem também a renúncia do primeiro-ministro, como o partido islamita Justiça e Construção que, em janeiro passado, após apoiar sem sucesso uma moção para forçar a renúncia de Zidán, decidiu retirar os cinco ministros que seu partido mantinha no governo.

Uns e outros atribuem a Zidán sua incapacidade de estabilizar o país, de dar fim à proliferação de armas, de integrar às milícias nos corpos de segurança do Estado e de criar uma polícia e um exército incapazes de evitar ou sufocar as contínuas explosões de violência no país.

Além disso, outras instituições como as que dividem justiça se viram superadas pela situação incapazes de realizar investigações apropriadas diante da onda de assassinatos que atingiu o país, especialmente a cidade oriental de Benghazi, ou de reunir sob seu controle o grande número de centros de detenção administrados por milícias.

A isso se somou a drástica queda da produção de petróleo, principal riqueza do país e elemento-chave para garantir sua estabilidade em médio e longo prazos.

No verão passado, os principais portos petroleiros líbios, situados no golfo de Sirte, foram bloqueados pelos guardas de segurança encarregados de sua vigilância, que exigem reformas políticas tanto para garantir uma distribuição melhor das riquezas como para avançar rumo a uma Líbia federal.

A produção baixou para 390 mil barris diários, muito abaixo de sua capacidade atual, situada em 1,4 milhão de barris, o que há minguando ostensivamente a capacidade das autoridades de acometer a reconstrução do país.