França abrirá arquivos sobre genocídio de Ruanda em 1994

A divulgação pode lançar luz sobre a controvertida política francesa durante o período do massacre

Kigali – Ruanda elogiou nesta quarta-feira o fato de que a França, acusada por Kigali de cumplicidade no genocídio de 1994, tenha retirado o sigilo sobre os arquivos da presidência que podem lançar luz sobre essa matança.

A decisão francesa de desclassificar esses arquivos, adotada na véspera, inclui documentos do palácio do Eliseu relativos a Ruanda nos anos de 1990 a 1995, período que abrange o genocídio que deixou ao menos 800.000 mortos.

O controvertido papel da França antes, durante e depois do massacre envenena há anos as relações entre os dois países, o que terminou com uma ruptura total entre 2006 e 2009.

“As relações políticas, diplomáticas e militares entre a França e Ruanda durante o período 1990-1995 foram mantidas em sigilo”, declarou à AFP o ministro ruandês da Justiça, Johnston Busingye. “Talvez isso permita saber o que acontecia na época e esclarecer inúmeros pontos obscuros que até agora seguem sem resposta”, acrescentou.

A associação de sobreviventes do genocídio, Ibuka, também saudou a decisão francesa de desclassificar os documentos e pediu para que Paris faça isso rapidamente. “Teremos acesso a alguns documentos”, comemorou seu presidente, Jean-Pierre Dusinguzemungu.

Mas o ex-secretário-geral da Comissão Nacional de Luta contra o Genocídio, Jean de Dieu Mucyo, hoje presidente da comissão Mucyo que publicou, em 2008, um controvertido relatório sobre o papel da França, foi menos entusiasta. “É um passo, mas é preciso conhecer o conteúdo dos documentos. É preciso ter tudo, e não apenas uma parte”, enfatizou.

O relatório Mucyo acusa a França de ter participado ativamente na preparação do genocídio e participação de seus soldados nas matanças e estupros.

Primeira etapa

A divulgação desses arquivos pode lançar luz sobre a controvertida política francesa durante um período de vai do ano da ofensiva da rebelde Frente Patriótica Ruandesa (FPR), repelida graças ao apoio da França, até o primeiro ano posterior ao genocídio, que se deteve com a conquista do poder por esta rebelião dirigida por Paul Kagame.

Em 6 de abril de 1994, o avião do presidente hutu Juvenal Habyarimana, apoiado pela França, é derrubado em Kigali, matando o chefe de Estado. A partir do dia seguinte, começam as matanças sistemáticas dos tutsis. Entre abril e julho – quando a FPR se apodera de Kigali -, cerca de 800.000 pessoas, principalmente da minoria tutsi, são assassinadas em apenas cem dias, segundo a ONU.

O FPR, convertido em partido hegemônico no poder, e o presidente Kagame acusam a França de ter contribuído para o genocídio, o que Paris desmente.

Em abril de 2014, em entrevista divulgada no 20º aniversário do genocídio, Kagame acusou a França de ter desempenhado um papel direto na preparação da matança e ter participado em sua execução.

Os documentos desclassificados – notas de conselheiros diplomáticos e militares, relatórios da Defesa ou de reuniões ministeriais – serão colocados à disposição de vítimas e da sociedade civil.

Seu verdadeiro alcance ainda deve ser determinado. Além disso, como indicam várias ONGs francesas, os arquivos da presidência não são, sem dúvida, os mais sensíveis.

Paris prometeu que os da Assembleia Nacional e os dos ministérios das Relações Exteriores e da Defesa também serão abertos, em datas ainda não reveladas.

Nem a ministra ruandesa das Relações Exteriores, Louise Mushikiwabo, nem o próprio presidente, Paul Kagame, que ignorou ostensivamente os dirigentes franceses durante uma visita à Unesco, em Paris, em fevereiro passado, reagiram à decisão de abertura desses arquivos.