Jornalistas franceses foram assassinados friamente no Mali

Ghislaine Dupont, de 57 anos, e Claude Verlon, 55 anos, jornalista e técnico de reportagem acostumados a missões difíceis, foram sequestrados e mortos

Paris – Os dois jornalistas da Radio France Internationale (RFI) sequestrados e mortos no sábado em Kidal, norte do Mali, “foram friamente assassinados” a tiros, segundo Paris, mas as causas e circunstâncias do crime continuam sem explicações.

Ghislaine Dupont, de 57 anos, e Claude Verlon, 55 anos, jornalista e técnico de reportagem acostumados a missões difíceis, foram sequestrados à tarde por homens armados diante da residência de Ambéry Ag Rhissa, um representante do Movimento Nacional para a Libertação do Azawad (PMNLA, rebelião tuareg), a quem haviam entrevistado pouco antes.

Seus corpos foram encontrados menos de duas horas depois por uma patrulha francesa alertada do sequestro, cerca de 12 km a leste de Kidal.

Segundo o chanceler francês Laurent Fabius, “os dois foram assassinados friamente. Um recebeu duas balas, o outro três balas”, declarou após uma reunião de crise no palácio do Eliseu.

Os corpos das vítimas devem ser levados neste domingo a Bamako pelo Exército francês. Segundo a direção da RFI, cuja delegação é esperada no Mali, eles serão “repatriados o mais rápido possível” e irão passar por necrópsia na França.

“Os assassinos são aqueles que nós combatemos, grupos terroristas que rejeitam eleições”, declarou Fabius, antes de anunciar um reforço nas medidas de segurança na região.

Quase um ano após o início da intervenção militar francesa, em janeiro de 2013, para expulsar os grupos islamitas que ocupavam o norte do país, esta região continua instável.


Os atentados e ataques de extremistas aumentaram nas últimas semanas com a aproximação das eleições legislativas, previstas para 24 de novembro.

A presidência francesa realizou uma reunião de emergência na manhã deste domingo a fim de tentar estabelecer as circunstâncias do assassinato que continuam obscuras.

Expressando sua indignação com este “ato hediondo”, o presidente Hollande anunciou no sábado esta reunião “para determinar precisamente, em conjunto com as autoridades do Mali e as forças da ONU, as circunstâncias desses assassinatos”.

Hollande e o presidente do Mali, Ibrahim Boubacar Keïta, mantiveram uma conversa por telefone na qual afirmaram sua determinação de prosseguir com o “combate comum contra o terrorismo”.

As questões em torno das mortes ainda não foram esclarecidas. Segundo Ambéry Ag Rhissa, os sequestradores falavam tamachek, a língua dos tuaregues.

Kidal, localizada a mais de 1.500 km de Bamako, é o berço da comunidade tuareg e do PMNLA, que condenou sábado à noite as mortes e prometeu “todos os esforços para identificar os culpados”.

Sobre as razões para esses assassinatos, a imprensa francesa evocava neste domingo a hipótese de uma disputa financeira relativa ao resgate pago – 20 milhões segundo algumas fontes – para a libertação de quatro reféns franceses detidos pela Al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI) por mais de três anos no Sahel, e que retornaram para a França na quarta-feira.


Desde então, Paris reitera que a França não paga o resgate de reféns, mas sem explicitamente excluir que o dinheiro privado pode ser pago.

A pista da AQMI, muito presente na região apesar da presença francesa, continua a ser “a mais provável”, considera Pierre Boilley, diretor do Centro de Estudos Africanos (CEMAF), que não “vê nenhum interesse” para o PMNLA em sequestrar ou matar jornalistas.

França, Mali e a Minusma, a força de paz da ONU no Mali, colocaram em andamento uma operação conjunta no país há uma semana para evitar um ressurgimento dos movimentos terroristas.

À espera de respostas, as reações de comoção e indignação se multiplicam desde sábado.

O Conselho de Segurança da ONU “condenou energicamente” o sequestro e assassinato dos jornalistas em um comunicado divulgado sábado à noite.

Os membros do conselho expressaram “condolências às famílias das vítimas” e ao governo francês, ressaltando que “em consonância com o direito humanitário internacional, os jornalistas e profissionais da área médica que realizam missões em zonas perigosas de conflito armado devem ser considerados civis e ser protegidos e respeitados como tais”.