Jarvis, de Cambridge: May, Tatcher e o futuro

Carol Oliveira

Aos 59 anos, a conservadora Theresa May foi escolhida primeira ministra do Reino Unido para resolver dois problemaços de uma vez: lidar com um país rachado ao meio e com um partido divido em diversas frentes. Ex-ministra do Interior, May deverá lidar ainda com temas que vão das negociações com a União Europeia às novas regras de imigração. Em entrevista a EXAME Hoje, David Jarvis, especialista em Partido Conservador pelo Pembroke College da Universidade Cambridge, na Inglaterra, falou sobre como May deve atacar todos os desafios à sua frente.

Theresa May será a segunda premiê mulher do Reino Unido após o governo de Margaret Thatcher na década de 1980, e por isso, vem sendo chamada de “a nova Dama de Ferro”. O que as duas líderes têm em comum?
Elas têm muitas coisas diferentes. Embora tenha se tornado essa figura dominante no Partido Conservador, Tatcher sempre foi guiada por um sentimento de que não pertencia àquele mundo, por conta de sua classe social, mas não de seu gênero. Durante sua ascensão, Thatcher foi frequentemente rechaçada por seus colegas do Partido Conservador. E é interessante como ela internalizou isso. Mas quando se trata da May, não há um sentimento de exclusão social desse tipo. Não estou dizendo que Thatcher não experimentou sexismo. As pessoas se referindo a ela como “bruxa”, por exemplo, já foi um reflexo de uma agenda muito sexista. Mas Thatcher fez muito pouco para promover outras mulheres no seu gabinete. Ela se cercou de colegas homens, enquanto Theresa May já apresentou algumas nomeações femininas – ainda que na mesma proporção de Cameron.  

May se posicionou a favor da permanência do Reino Unido na União Europeia. Ela pode sofrer algum tipo de represália do partido por ter sido contra o Brexit?
May foi muito inteligente durante o referendo ao fazer o mínimo de declarações possível. Naquela época, ela já estava se posicionando para uma futura liderança: ela sentiu que o partido precisaria ser liderado por alguém que não escolheu muito fortemente uma posição, alguém que, após o referendo, não iria antagonizar tanto com o outro lado. O membro típico do Partido Conservador tende a apoiar mais alguém como Boris Johnson [ex-prefeito de Londres, que chegou a concorrer ao cargo de primeiro-ministro]. Assim, poucas pessoas previam com certeza que May iria ganhar essa eleição. E ela já tem um histórico de criticar atitudes muito extremas do Partido Conservador – como quando disse que o partido precisava mudar suas atitudes ou os eleitores os enxergariam como o Partido Nazista.

E como é o apoio a May entre a população?
Ela não terá um grande apoio popular. Assim como Angela Merkel, por exemplo, ela não tem um carisma natural ou um estilo de discurso demagógico – o que pode ser bom em ambos os casos. De qualquer forma, não é claro para os britânicos qual seria a alternativa, mesmo fora do Partido Conservador. É difícil ver apoio ao rival, o Partido dos Trabalhadores, porque eles estão numa crise interna grande demais para conseguir ser uma oposição forte.

A equipe escolhida por ela inclui nomes como o ex-prefeito de Londres, Boris Johnson, um dos principais nomes a favor do Brexit. Ela buscou uma coalizão na escolha dos nomes?
A composição da equipe causou alguma surpresa – mas é uma escolha muito inteligente e que, no geral, reflete a dinâmica do Partido Conservador. É importante perceber que o Partido Conservador está bastante dividido no momento. Se tivéssemos um sistema de representação proporcional aqui no Reino Unido, o natural a acontecer nesse cenário seria que o partido se dividisse em dois, já que houve quase uma guerra civil sobre o Brexit. E é engraçado, porque se olharmos o que os britânicos consideravam importante três anos atrás, veríamos que a participação britânica na União Europeia não era, nem de longe, uma prioridade. Foi uma discussão que nasceu dentro do Partido Conservador e Cameron falhou espetacularmente ao tentar pará-la. Então, para liderar o partido nesse momento, May teve de fazer concessões aos favoráveis ao Brexit.

Como devem ser as conversas com a União Europeia? Que aspectos do dia-dia da população o Brexit afetará diretamente?
Quase todos os aspectos da vida britânica são direta ou indiretamente afetados pelo acesso do Reino Unido ao bloco europeu. O Brexit vai afetar mercado imobiliário, pensões… É quase impossível estimar quanto trabalho essa saída vai dar. O sistema universitário, por exemplo: há muita pesquisa nas universidades britânicas que são financiadas pela União Europeia ou com equipes de países europeus. Tememos que haja uma fuga de cérebros. Outro exemplo: praticamente toda a legislação ambiental existente hoje no Reino Unido é baseada em regulamentações da União Europeia – uso de água, nível de poluentes químicos no ar, preservação das praias. Qual é a situação se o Reino Unido não é mais membro? A legislação tem de ser reescrita, ou vamos apenas reproduzir as visões europeias que já existem? Você começa a pensar nisso e percebe que muitas leis feitas nos últimos dez anos talvez tenham de ser refeitas.

Passado quase um mês do referendo que decidiu pelo Brexit, qual a maior preocupação entre a população? A visão é de que as coisas começarão a se estabilizar?
Estamos nos tornando um país inacreditavelmente dividido. E quanto ao futuro pós-Brexit, há perspectivas muito diferentes. Eu, particularmente, sou um acadêmico, então venho de um núcleo onde prevalece o “remain” [posição favorável à permanência na UE]. Entre os “remainers” há, sem dúvida, algum desespero sobre as consequências econômicas e culturais, há temor de que o Reino Unido possa se tornar um país mais restritivo e preconceituoso. Mesmo pelo lado dos favoráveis ao Brexit, há alguma incerteza, mas também bastante otimismo de que as coisas vão se estabilizar rapidamente. Pessoalmente, minha visão é de que inevitavelmente vai haver uma contração econômica e perdas culturais. Enfim, as percepções podem ser maiores ou menores, mas não é certo dizer que não haverá problemas comerciais. Agora, será uma catástrofe? Ninguém sabe ainda. E seria um absurdo ser apocalíptico sobre isso.