Itália assume diplomacia e Polônia o Conselho Europeu

Foram necessárias duas cúpulas europeias e um mês de contatos informais para que a União Europeia conseguisse alcançar uma definição de consenso

Bruxelas — A Itália conseguiu neste sábado situar a sua ministra das Relações Exteriores, Federica Mogherini, à frente da diplomacia comunitária, enquanto o primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, será o encarregado de orquestrar os encontros do mais alto nível político no Conselho Europeu.

Foram necessárias duas cúpulas europeias extraordinárias e um mês de contatos informais durante as férias de verão para que a União Europeia conseguisse alcançar uma definição de ‘pleno consenso’, a qual resultou na nomeação destes dois cargos.

No entanto, essas escolhas não chegaram a surpreender, já que ambos os candidatos apareciam como os favoritos em uma delicada repartição, na qual entraram em jogo questões como suas famílias políticas, o balanço de gênero e os equilíbrios geográficos.

O respaldo em bloco dos líderes sociais-democratas, liderados pelo italiano Matteo Renzi e pelo francês François Hollande, foi fundamental para a escolha da ministra para os próximos cinco anos. Mogherini tinha a favor sua juventude, embora sua experiência fosse limitada.

A escolha de Mogherini, que foi bloqueada na cúpula extraordinária de julho devido a sua postura moderada frente à Rússia, representa o primeiro triunfo de Renzi na esfera comunitária.

Em seu primeiro comparecimento público após a nomeação, Mogherini evidenciou sua prudência sobre o conflito da Ucrânia, ao assinalar que ‘temos que trabalhar sobre as sanções (contra a Rússia), mas deixando a via diplomática aberta, e conseguir uma combinação inteligente entre as duas’.

Mogherini também garante a presença de uma mulher na Comissão Europeia, tendo em vista que os altos representantes também ocupam uma vice-presidência no Executivo comunitário.

A escassez de mulheres entre os candidatos propostos pelas capitais como comissários – apenas quatro incluindo Mogherini – representa um problema para o presidente eleito da Comissão Europeia, o conservador Jean-Claude Juncker, que deseja alcançar uma maior paridade.

Juncker, que qualificou a ministra italiana como ‘competente e europeísta’, segundo um colaborador do político luxemburguês, deu seu sinal verde hoje à nomeação de Mogherini.

A eleição de Mogherini também facilitou a nomeação do primeiro-ministro polonês para um primeiro mandato de dois anos e meio.

Tusk, por sua parte, permite dotar a cúpula comunitária de um maior equilíbrio, dado que procede de um dos Estados-membros do leste e pertence a um partido liberal, frente à filiação social-democrata de Mogherini e à conservadora de Juncker.

Além disso, o primeiro-ministro polonês é o ‘membro mais veterano’ entre os chefes de governo e de Estado da UE, já que assumiu seu cargo em 2007, e conta com o aval de ter blindado seu país contra a recessão que abalou a maioria dos governos do bloco durante a crise.

Tusk, considerado um líder europeísta, se mostra a favor do diálogo e disposto a firmar compromissos em questões tão delicadas como o depósito compulsório do Reino Unido na União.

Para isso, não duvidou em anunciar que explorará a possibilidade de buscar uma ‘posição comum para eliminar o abuso no sistema de livre movimento de trabalhadores’, uma das pedras angulares da integração europeia.

Tusk também se mostrou disposto a buscar compromissos para aproveitar a flexibilidade nas regras de disciplina orçamentária a fim de fomentar o crescimento, como defendem Itália e França, mas sempre ‘dentro da responsabilidade’, em um flerte direcionado à Alemanha, mais estrita com a consolidação.

O primeiro-ministro polonês, visivelmente emocionado, prometeu fazer frente a um de seus maiores conflitos pessoais: sua falta de manejo em idiomas.

‘Prometo que polirei meu inglês’, disse Tusk, brincando com a polissemia da palavra ‘polish’, que, no inglês, significa tanto polir como polonês. EFE