Islândia: a salvação pelo turismo

Kimiko de Freytas-Tamura

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Reykjavik, Islândia – A Islândia descobriu o segredo de um florescente setor turístico: primeiro sofreu uma implosão financeira gigantesca, depois uma enorme erupção vulcânica.

O colapso da coroa islandesa após a crise financeira de 2008 transformou esta ilha ártica, com 35 vulcões ativos, em um destino muito desejado ao se tornar barata para os visitantes.

Dois anos depois, o Eyjafjallajokull entrou em erupção, cuspindo grossas nuvens de cinza para o céu europeu. Milhões de passageiros ficaram presos durante dias e as companhias aéreas sofreram perdas financeiras. Por outro lado, a explosão botou a Islândia no mapa. A imprensa estrangeira chegou à ilha, transmitindo para o mundo inteiro imagens de cenários espetaculares, enquanto os jornalistas sofriam para pronunciar o nome do vulcão.

“A Islândia foi salva pela quebra e pela erupção. Nunca vi nada deslanchar tão rapidamente”, diz Fridrik Palsson, proprietário do Hotel Ranga, resort de luxo a apenas 31 quilômetros das encostas do Eyjafjallajokull, o vulcão cujo nome de 16 letras costuma ser abreviado como E-16 pelos estrangeiros.

O efeito combinado das catástrofes foi uma invasão em uma escala possivelmente inédita desde que os vikings atacaram a ilha há centenas de anos. Os turistas devem superar a população local de 330 mil habitantes numa ordem de sete para um no ano que vem, segundo dados oficiais. Em comparação, os visitantes da França, em 2015, superaram os franceses numa ordem de dois para um.

Agora, o turismo é a principal atividade econômica da ilha, superando a pesca e a fundição de alumínio, da mesma maneira que foi o setor financeiro nos anos anteriores ao colapso.

O número pode ser ainda maior após a ascensão do Partido Pirata. Com sua bandeira pirata preta e inclinações anarquistas, ele ganhou ainda mais assentos no Parlamento e maior atenção, ajudando a marcar a imagem do país como bacana e alternativo.

O número de turistas cresceu cerca de 30 por cento por ano nos últimos quatro anos, segundo a Comissão Turística da Islândia. Eles geraram receitas de US$ 3,2 bilhões em 2015, um terço dos ganhos do país com exportação. O turismo é o maior empregador e muitos islandeses estão investindo em serviços e novas construções.

Palsson, que costumava apresentar a Islândia como um lugar para ver a aurora boreal, emprega um astrônomo em seu hotel. Ele também investiu em três telescópios caros, capazes de exibir os anéis de Saturno para os hóspedes ou o brilho difuso de uma estrela distante moribunda.

A Landsbref, empresa de gestão de fundos nascida de três bancos islandeses falidos, criou um fundo turístico de US$ 37 milhões.

Reykjavik lembra uma versão escandinava de Cingapura: compacta, limpa, organizada e rica. As ruas são orladas com casas coloridas e carros da Mercedes. Cafés chiques vendem sanduíches de couve e tâmara, e tocam jazz etíope. Os restaurantes oferecem cozinha nórdica inventiva utilizando ingredientes locais como papagaio-do-mar e tubarão. Um cozinheiro anunciou orgulhosamente que a Islândia agora produz pepino, ainda que em estufa.

O 101, hotel butique que já foi ponto de encontro exclusivo para banqueiros – 101 é o código postal da parte mais rica da cidade –, agora está cheio de turistas. Em uma possível alfinetada nos antigos frequentadores do hotel, uma escultura do que parece ser um banqueiro de terno cinza está pendurada na parede, com instruções enigmáticas, “desconecte a bateria, remova a tampa traseira e os suportes da dobradiça”, escritas embaixo.

Os turistas vêm até de Hong Kong. Eles procuram a aurora boreal, escalam geleiras, mergulham no Círculo Ártico com papagaios-do-mar, andam a cavalo ou fazem passeios de helicóptero ouvindo música etérea, que lembra o som das baleias, da banda islandesa Sigur Ros. Fãs da série “Game of Thrones” se aglomeram nas locações de filmagens ao redor da ilha, e alguns, aparentemente, procuram mesmo pelos “wildlings”.

Longe da capital, espessas nuvens brancas de vapor, que a Islândia aproveita para gerar energia, sobem ao céu, como se a terra estivesse fumando. Fontes termais estão em todo canto, mesmo no quintal das casas.

Bara Kristinsdottir/ The New York Times
Diddi Bardarson acredita que um colapso financeiro no país provocado pelo turismo se aproxima. Por conta disso, ele investe todo o seu dinheiro na criação do cavalo islandês

Mas existe o temor de o turismo descontrolado colocar muita pressão sobre a pequena ilha. O preço dos imóveis e dos aluguéis está subindo rapidamente, forçando os jovens a morar com os pais. O aluguel de veículos triplicou, entupindo o trânsito. Segundo muitos islandeses, o lixo e a poluição luminosa estão estragando a paisagem.

“Parece que a cidade não é mais minha. O centro parece a Disneylândia”, diz Birgitta Jonsdottir, líder do Partido Pirata.

Pesquisa realizada em outubro pela RUV, a televisão nacional, revelou que 87 por cento dos islandeses querem que o governo aumente os impostos para os turistas.

O aumento do turismo deixa alguns islandeses desconfortáveis. Outro colapso como o que atingiu os bancos é só uma questão de tempo, e muitos dizem estar economizando dinheiro ou investindo em ativos tangíveis.

Pessimistas dizem que para estourar a bolha turística basta uma queda repentina de visitantes, estimulada por algo como uma crise financeira no exterior ou os efeitos negativos da saída do Reino Unido da União Europeia.

“Tudo está voltando a acontecer”, diz Kristjan Asjaersson, 51, taxista. Durante o auge de curta duração da Islândia, ele se lembra de ter que atravessar o país para entregar peixe pescado por bilionários islandeses – eles haviam se esquecido de empacotar a pesca antes de decolarem em seus jatinhos particulares.

“Pessoas demais dependem do turismo. Quando cair o número de turistas, a economia vai quebrar novamente. Sei que isso vai ocorrer, mas estarei preparado.”