“Indignados” voltam às ruas um ano depois do 15 de maio

O 15M planeja voltar a ocupar as ruas a partir de sábado até o dia 15 de maio, dia de seu aniversário, no momento em que a Espanha está em recessão

Madri – No aniversário de um ano do surgimento dos enormes protestos dos “indignados”, que simbolizaram a revolta social com a a crise na Espanha, o movimento, sobre um fundo de divisão, tenta manter seu impulso e volta a se mobilizar.

Planeja voltar a ocupar as ruas a partir de sábado até o dia 15 de maio, dia de seu aniversário, no momento em que a Espanha está em recessão, o desemprego atinge uma taxa recorde de 24,44% e o governo realiza uma dura política de ajuste para reduzir o déficit.

“Sempre foi um movimento dependente da crise, um movimento que nasce com o desemprego dos jovens, nasce das redes sociais”, explica à AFP o sociólogo Fermín Bouza.

“Continua existindo um movimento grande das pessoas”, assegura Noelia Moreno, de 30 anos, que há um ano chegou de Pamplona (norte) para participar do acampamento que durante um mês foi o símbolo deste protesto na Porta do Sol de Madri.

Ela reconhece, no entanto, que “diante da opinião pública, o movimento se diluiu por não ter uma cabeça visível”. “O movimento segue aí, mas o que acontece é que não está nas ruas, está na internet, nas redes sociais”, afirma.

Para o sábado foram convocadas mobilizações em 80 cidades espanholas e em outras de todo o mundo, como Paris, Atenas, Nova York e Rio de Janeiro.


Em Madri, as autoridades permitirão que os membros do movimento se manifestem na Porta do Sol durante cinco horas no sábado e dez no domingo, na segunda e na terça-feira. No entanto, já advertiram que não deixarão que acampem e pretendem mobilizar entre 1.500 e 2.000 policiais.

No dia 15 de maio de 2011, o que seria uma pequena manifestação para protestar contra a crise, os políticos e os abusos do capitalismo acabou se convertendo em um grande movimento, que teve sua imagem mais internacional no acampamento do Sol.

“Sabíamos que ia vir gente, mas não tanta”, lembra Jon Aguirre Such, de 27 anos, membro da associação Democracia Real Já, responsável por convocar o protesto.

Desde então, “a organização foi insuficiente: o resultado, múltiplos grupos relativamente desconectados entre si”, explica Antonio Alaminos, catedrático de Aociologia da Universidade de Alicante.

Seu principal ponto fraco, segundo Alaminos, é “a dificuldade de organizar ou vertebrar um protesto sem ideologia concreta e produto apenas do mal-estar econômico e social”, cujas principais conquistas foram ações como as campanhas contra os desalojamentos ou ações para evitar a prisão de imigrantes irregulares.

“Em algum momento este movimento vai se desgastar, talvez porque tenha posições excessivamente utópicas. Passa de posições muito realistas, muito próximas ao senso comum das pessoas, para posições bastante utópicas”, explica Bouza.

Horizontal e apartidário, o movimento começou a mostrar suas limitações na tomada de decisões com assembleias onde qualquer iniciativa deveria ser aprovada por consenso, dificultando sua ação.


A tentativa de um grupo de seus fundadores de criar uma associação acabou com uma divisão interna entre os mais “práticos” e os mais “utópicos”.

“Uma estrutura totalmente horizontal não era operacional, mas uma associação não é mais vertical, é mais prática”, considera Fabio Gándara, um dos fundadores do Democracia Real Já e impulsionador da ideia de transformar o movimento em associação.

“Talvez o setor mais radical do 15M não esteja de acordo”, afirma Noelia, para quem “é algo que teria que ter sido feito há tempos”.

“Precisam buscar uma linha central, de um lado, os utópicos, mais próximos da extrema esquerda, portanto mais limitados, porque o reduzem o alcance do movimento, de outro os práticos, aqueles que o concretizam em ações do tipo antidespejo”, explica Bouza.

“Estes dois extremos, o ideológico e o prático, devem obter um pacto e encontrar um ponto em comum para desenvolver um movimento sólido que possa reconquistar a popularidade e ser útil a todos”, acrescenta o sociólogo, para quem o movimento precisa de um novo impulso.

“Não acredito que tenha desaparecido. Está esperando que alguém o ressuscite com critérios mais possíveis, mas tão forte como era antes. Isso não pode desaparecer”, sentencia.