Igreja Católica ficará sem Papa em uma semana

A decisão do Papa abre um precedente na história da Igreja católica moderna e ao mesmo tempo obriga seu sucessor a encarar desafios

Cidade do Vaticano – O Papa Bento XVI formalizará sua renúncia ao pontificado em uma semana, no dia 28 de fevereiro, uma decisão inédita, sentida como um banho de água fria por alguns católicos, embora, para outros, apareça como uma esperança de mudanças e renovação dentro da Igreja Católica.

Centenas de peregrinos de todo o mundo, mas, sobretudo, de Alemanha, França e Itália, se preparam para assistir no domingo na Praça de São Pedro ao último Ângelus do pontífice alemão, que anunciou que se esconderá do mundo na próxima quinta-feira às oito da noite, abrindo um curioso pedido de transição e negociações para a eleição de seu sucessor.

A decisão do Papa abre um precedente na história da Igreja católica moderna e ao mesmo tempo obriga seu sucessor a encarar os desafios que a instituição milenar exige para gerar um impulso modernizador e pesar no mundo globalizado, como representante de 1,2 bilhão de católicos.

Um gesto de ruptura

“É uma oportunidade para a mudança, um gesto de ruptura, que obriga a Igreja a fazer um exame de consciência para voltar a começar com o pé direito”, declarou à AFP o italiano Paolo Colonnetti, do movimento católico dos Focolares.

“Um gesto elevado, que põe um selo extraordinário em seu pontificado, mas que abre uma nova época na forma de entender e administrar o ministério do papado”, escreveu Piero Coda, reitor do Instituto Universitário Sophia, do mesmo movimento.

Pela surpresa e radicalidade da renúncia, seus efeitos reais sobre a instituição ainda são difíceis de prever.

Antes de ir embora, Bento XVI pronunciou vários discursos nos quais pediu uma “verdadeira renovação da Igreja”, o que foi interpretado como seu “testamento” espiritual e político ao convocar seus membros a superar hipocrisias e rivalidades, ações que marcaram seus difíceis oito anos de pontificado.

Por isso, muitos observadores se perguntam sobre a convivência com o novo Papa e inclusive se debate sobre como deverá ser chamado quando deixar o pontificado (ex-Papa?) e se receberá aposentadoria quando se instalar, em dois meses, no convento dos jardins do Vaticano que está sendo reformado.

“Será certamente discreto com seu sucessor, é uma pessoa com um forte sentido da Igreja. Não atrapalhará nem concederá entrevistas, e se aceitar serão verificadas milimetricamente”, comentou à AFP um cardeal veterano.

Para o padre Sérgio, superior-geral dos Missionários Oblatos de Maria Imaculada, a renúncia do Papa não gerou alegria, mas surpresa.

“Não sabemos as consequências que terá para a eleição do futuro Papa nem como irá se comportar envelhecendo. O que acredito é que servirá para renovar a Igreja”, assegura.

“Por isso queremos que seu sucessor seja da América Latina, da América do Norte, da Ásia. Sem dúvida nos enriqueceriam. O futuro da Igreja está lá”, sustenta.

Uma rendição diante dos escândalos

Encarada por clérigos e laicos como um gesto de valentia e dignidade, e inclusive de humildade, a renúncia constitui para outros um ato de rendição diante da complexa maquinaria de poder que é o Vaticano e, sobretudo, a Cúria Romana, alvo de críticas e polêmicas.

“Sai do Vaticano deixando intacto um sistema essencialmente corrupto”, escreveu em seu blog o teólogo basco José Arregi, que pede com irreverência ao Papa que conclua sua gestão com uma declaração solene: abolir o modelo monárquico do papado.

“A tiara e o trono, a terrível infabilidade, o tremendo poder absoluto, seguem intactos, esperando o candidato seguinte”, lamentou.

O futuro Papa deverá encarar um assunto ainda mais delicado, revela nesta quinta-feira o jornal italiano La Repubblica: a trama de corrupção, sexo e tráfico de influências que reinam no Vaticano.

Segundo o jornal, o Papa decidiu renunciar depois de receber um relatório de 300 páginas que trazia à tona as lutas pelo poder e pelo dinheiro, assim como suas fraquezas sexuais.

“Fantasias, invenções, opiniões”, afirmou o porta-voz do Vaticano, o padre Federico Lombardi, depois de advertir que não comentará o artigo.