“I have a dream”, de Martin Luther King, completa 50 anos

A frase mais marcante do discurso mais famoso de Martin Luther King esteve a ponto de não sair do papel por medo de que fosse um termo muito "clichê"

Washington – “I have a dream” (“Eu tenho um sonho”), a frase mais marcante do discurso mais famoso de Martin Luther King, que amanhã completa 50 anos, esteve a ponto de não sair do papel por medo de que fosse um termo muito “clichê” e não um “momento de inspiração” do icônico reverendo.

O líder da luta pelos direitos civis já tinha utilizado a frase dezenas de vezes antes da famosa Marcha de Washington por Emprego e Liberdade, inclusive uma semana antes, durante um evento em Chicago.

Talvez por isso, na véspera daquele 28 de agosto de 1963, seu assessor Wyatt Walker tenha lhe dado um único conselho: “Não use a parte de “eu tenho um sonho”. Está batido e já se tornou um clichê. Você já falou isso muitas vezes”.

Walker, assim como o próprio King, sabia que o discurso era a apresentação do reverendo em escala nacional. Por isso, os dois editaram as falas inúmeras vezes, e minuciosamente, deixando de fora qualquer referência ao “sonho”.

“O discurso foi escrito para ser uma avaliação sobre a importância histórica da luta pela liberdade dos afro-americanos, e tinha como modelo o de Gettysburg, do presidente Abraham Lincoln”, explicou à Agência Efe o diretor do Instituto de Pesquisa Martin Luther King, Clayborne Carson.

No dia seguinte, atrás do icônico monumento a Lincoln e perante dezenas de milhares de pessoas, King começou a ler exatamente o que havia escrito, mas rapidamente compreendeu “que precisava de “algo mais” para uma ocasião tão extraordinária”, segundo Carson, que também é professor de história da Universidade de Stanford.


Para o especialista, que editou uma autobiografia de King, foram os “anos de desenvolvimento intelectual” que permitiram que o ativista “tivesse este repentino e oportuno “surto” de inspiração”.

Steve Klein, responsável pelo setor de comunicação do Centro King de Atlanta (Geórgia), aponta outro fator que talvez tenha influenciado na decisão: a insistência da cantora gospel Mahalia Jackson, que estava sentada perto do líder e pedia insistentemente que ele “falasse do sonho”.

“Talvez ela o tenha estimulado a pensar que a frase funcionaria bem no momento”, disse Klein.

Mas King “decidiu usar a fala porque realmente sentiu que queria compartilhar com o público a sua visão de um Estados Unidos melhor”, acrescentou.

A referência ao sonho não só mudou o discurso, mas também a forma de pronunciá-lo. King deixou o texto pronto de lado e não voltou a ler mais nenhuma parte dele.

“Quando lia, parecia um conferencista”, lembrou Clarence Jones, um dos assessores de King, no livro sobre a ocasião chamado “The Speech”, do jornalista britânico Gary Younge.

“Assim que deixou o texto de lado, ele voltou a se transformar em um pregador batista”, completou Jones.


Os imediatos aplausos que recebeu do público demonstraram que King tinha acertado ao fazer um apelo em prol da justiça, e ao compreender “que não era suficiente sustentar uma luta em massa pela liberdade a não ser que os participantes pudessem imaginar um futuro que fizesse com que os sacrifícios valessem a pena”, explicou Carson.

O resto do discurso de King era uma meticulosa análise da situação de milhões de afro-americanos, e continha poderosas metáforas, como a que descrevia um governo que “devia um pagamento aos seus cidadãos negros”, porque havia lhes dado “um cheque sem fundos”.

Segundo Klein, o discurso “provavelmente” não teria tido o mesmo impacto sem a menção ao “sonho”.

“Era o momento correto, diante do público certo, para utilizar a frase. Ele precisava de uma ideia grande”, ressaltou.

Graças à menção do sonho, os 16 minutos de discurso de King serviram para impulsionar definitivamente o movimento pelos direitos civis e conseguir que o FBI, que já o investigava por supostas ligações com o comunismo, o definisse como “o líder negro mais perigoso e influente do país”.