Hu Jintao, a ascensão e a decadência de um ‘homem do regime’

Hu Jintao abandonará o cargo em um momento de turbulências dentro do Partido Comunista

Pequim – Em contraste com sua nomeação discreta como presidente da China há dez anos, Hu Jintao abandonará o cargo em um momento de turbulências dentro do Partido Comunista (PCCh), ao qual sempre se manteve fiel.

O homem ‘opaco e misterioso’ que lidera a China desde a década passada, na qual o país se consolidou como a segunda economia mundial, deixará a presidência com um sabor amargo, apesar de ter conseguido vencer, com brilho, os últimos escândalos que sacudiram a cena política chinesa.

Secretário-geral do partido desde 2002 e presidente em 2003, não se tem muitas informações sobre Hu Jintao desde então, quando chegou ao poder da China como um homem tranquilo, sensato e, sobretudo, leal aos valores do PCCh.

Com estilo calmo, o presidente não se envolveu publicamente com a expulsão do ex-dirigente Bo Xilai e não despertou o interesse da imprensa internacional com relação a seu patrimônio, ao contrário do primeiro-ministro do país, Wen Jiabao, ou do futuro presidente, Xi Jinping, que foram questionados por conta de algumas reportagens sobre a enorme riqueza de suas famílias.


Talvez seu grande fracasso tenha sido ser incapaz de impedir que seu último ano no comando tenha ficado manchado por escândalos e rupturas dentro do PCCh, um legado do qual tinha tentando se desprender ao assumir o cargo de seu antecessor, Jiang Zemin.

Hu adquiriu fama de ser um ‘homem de consenso’ por substituir Jiang – cabeça do poderoso ‘Grupo de Xangai’ – sem fazer barulho, uma ‘transição pacífica’ que foi manchada pela falta de unidade questionada no escândalo em torno de Bo.

O líder ficou conhecido por seu ‘pulso firme’ enquanto ostentava cargos no poder em algumas províncias mais pobres do oeste da China (Gansu, Guizhou) nos anos 80, e não duvidou em decretar a ‘lei marcial’ quando governava no Tibete e os separatistas iniciaram uma onda de protestos.

Alguns especialistas dizem que a firmeza inicial e a falta de ego são as grandes qualidades que ajudaram Hu Jintao a escalar posições dentro do regime.

Em 1992, se tornou um dos nove membros do Comitê Permanente – principal órgão de poder -, onde começou supervisionando o ‘treinamento ideológico’ dos melhores oficiais.

Hu ainda mantém esse papel de ‘mentor’ e não duvidou em apadrinhar a nomeação de Li Keqiang como primeiro-ministro. Li, assim como Hu, se formou na Liga de Juventudes Comunistas.

Essa identificação de Hu com o partido foi boa e ruim para sua carreira política, já que, enquanto surgiu como o líder máximo do país, agora foi posta em evidência sua falta de personalidade, já que é praticamente um desconhecido também para a população chinesa.

Apesar de liderar o país por dez anos, os cidadãos pouco sabem da vida pessoal do presidente, que conheceu sua esposa, Liu Yongqing, quando estudavam na prestigiada Universidade de Tsinghua (onde ele se formou em Engenharia Hidráulica) e que é um grande fã de ping-pong e de dança de salão.

Outro tropeço do líder, familiarizado com a pobreza por ser da província Anhui e após seus cargos no oeste, é não ter conseguido consolidar uma ‘sociedade em harmonia’, como era seu desejo, e manter mais de 150 milhões de pessoas vivendo em absoluta pobreza enquanto os indicadores macroeconômicos transformaram o país em potência mundial.

Também não cumpriu as expectativas dos intelectuais que esperavam que impulsionasse mais reformas políticas que seu antecessor. Ao contrário disso, Hu se revelou um político conservador que cuidou de seus aliados cubanos e norte-coreanos, além de perseguir a dissidência e a imprensa.

Tudo isso faz com que Hu deixe o poder sem a glória com a qual entrou, embora os especialistas afirmem que, com seus 69 anos, ainda terá uma longa vida política, como o octogenário Jiang, que ainda mantém uma ampla influência nas grandes decisões do partido. EFE