Hillary vence o primeiro debate

Sérgio Teixeira Jr., de Nova York

Diante da maior audiência de sua vida, com dezenas de milhões de americanos acompanhando o primeiro debate da eleição presidencial de 2016, Donald Trump foi apenas Donald Trump. O candidato do Partido Republicano não ofendeu nem fez comentários deselegantes em relação à adversária, é verdade. Mas Trump tampouco apresentou algo novo que o ajudasse a credenciá-lo para a Casa Branca ou a conquistar eleitores indecisos. Depois de um começo seguro, falando sobre exportação de empregos e comércio internacional, Trump pareceu pagar o preço da falta de preparo. A opinião dos analistas foi unânime: Hillary Clinton venceu este primeiro confronto, com folga.

A candidata democrata à sucessão de Barack Obama jogou isca atrás de isca, e Trump mordeu quase todas, interrompendo a adversária, elevando o tom de voz, se enrolando nas respostas ou simplesmente fugindo do assunto. A grande questão agora é se o debate da noite desta segunda-feira terá algum impacto nas pesquisas. Trump vem dizendo essencialmente as mesmas coisas – e evitando as mesmas perguntas – há mais de um ano. Apesar disso, as sondagens mais recentes indicam que ele está praticamente empatado com Hillary Clinton, e a disputa em estados críticos no Colégio Eleitoral, que no fim das contas são os votos mais cobiçados pelos dois candidatos, está extremamente acirrada. A eleição presidencial americana acontece em 6 de novembro.

O debate começou com emprego, um dos temas centrais da campanha do republicano. Hillary Clinton tentou explorar as complexidades da globalização e a importância do comércio internacional. Falou sobre o equilíbrio entre trabalho e vida familiar e sobre distribuição de lucros. Trump foi direto ao seus inimigos prediletos, China e México. “Os empregos estão fugindo do nosso país”, disse Trump. Ele repetiu sua crítica ao Nafta, o acordo de livre comércio da América do Norte, ou “o pior acordo comercial da história dos Estados Unidos”. “Se você acha que vai produzir ar-condicionado fora e trazer de volta para os Estados Unidos sem pagar impostos, está errado”, disse Trump, em referência ao fechamento de uma fábrica da Carrier. Segundo

Trump, a companhia estaria levando 1 400 empregos para o México. A base mais sólida de apoio a Trump é composta por eleitores brancos desencantados com a globalização, e o empresário certamente não perdeu nenhum eleitor com mais uma diatribe protecionista.

Mas logo depois vieram as perguntas sobre impostos, e a situação de Trump começou a se complicar. Não por causa de suas propostas de cortes generalizados para todos os americanos, mas sim porque o assunto logo se voltou contra ele. Hillary Clinton aproveitou o momento para introduzir um dos flancos mais vulneráveis de Trump. Até agora ele vem se recusando a divulgar sua declaração de impostos, pois estaria passando por uma auditoria de rotina. Pressionado, Trump disse que publicaria sua declaração de rendimentos se a adversária trouxesse a público os 33 000 emails apagados da conta privada que ela usou quando estava à frente do Departamento de Estado.

Hillary insistiu: “Há 40 anos os candidatos divulgam suas declarações de rendimentos. Por que [Trump] não o faz? Talvez porque ele não quer que a população americana, todos vocês assistindo hoje, saiba que ele não paga nada de impostos federais”. Ao que Trump respondeu: “O que significa que sou inteligente”. Instantes depois, quando Hillary afirmava que Trump não estaria contribuindo com o Orçamento do país, ele fez outra intervenção: “[O dinheiro] provavelmente seria desperdiçado”. O comentário não foi explorado, mas algumas analistas interpretaram a frase como uma admissão de que Trump de fato não pagou nada ao fisco.

Trump também tropeçou quando o assunto foram as relações raciais nos Estados Unidos, um tópico em destaque este ano com as mortes de negros desarmados pelas mãos da polícia. Em vez de falar sobre o assunto, o republicano falou em “lei e ordem” e defendeu uma política conhecida como “stop and frisk” (parar e revistar), adotada pelo ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani nos anos 1990. Quando o moderador do debate, o jornalista Lester Holt, interrompeu Trump afirmando que essa prática foi considerada inconstitucional pela Justiça, Trump se irritou e repetiu variadas vezes que aquilo não era verdade (de fato, esse tipo de prática foi declarado ilegal por visar negros e hispânicos em sua maioria). Depois, questionado sobre a alegação feita em 2011 de que Barack Obama não teria nascido nos Estados Unidos – uma afirmação falsa –, Trump mais uma vez se enrolou e tentou jogar a culpa do escândalo em Clinton, quando ela disputou as primárias contra Obama. Questionado sobre o processo que a empresa de seu pai (na qual ele trabalhava) sofreu por discriminação racial no aluguel de apartamentos, Trump não negou a acusação essencial e respondeu apenas que o processo foi objeto de acordo sem admissão de culpa.

Mas o momento mais embaraçoso para Trump aconteceria nos momentos finais do debate, na discussão sobre segurança nacional. O republicano afirmou mais uma vez que o ISIS só emergiu graças ao vácuo de poder deixado por Obama e Hillary no Iraque. Mas a frase abriu o caminho para outra vulnerabilidade de Trump. O moderador Holt mencionou que ele inicialmente não se manifestou contra a Guerra do Iraque, mas Trump passou alguns minutos tentando provar que sim, fora contra o conflito desde a primeira hora. Trump mencionou conversas com um âncora da rede de TV Fox News e uma entrevista dada a um famoso apresentador de rádio, mas simplesmente não conseguiu convencer – e não há registros de declarações do empresário contra a invasão antes de 2002.

Trump também voltou a reclamar que os Estados Unidos pagam a maior parte das contas da aliança militar ocidental, mas política internacional não é seu ponto forte.

Hillary Clinton, ex-secretária de Estado e ex-senadora com vasta experiência em diplomacia global, defendeu a permanência dos Estados Unidos na Otan e procurou assegurar aliados tradicionais do país, como Coreia do Sul e Japão, de que o país vai manter sua palavra e continuará lhes oferecendo sua proteção. “Palavras são importantes quando você se candidata e são realmente importantes quando você é presidente”, disse a democrata. “Deixe-me dizer, nossos amigos Japão e Coréia do Sul: ‘nós mantemos nossas promessas’.”

Na última interação do debate, Hillary Clinton aproveitou para lembrar as declarações misóginas feitas por Trump ao longo do último ano. “Este é um homem que chamou mulheres de porcas, desleixadas e cachorras, uma pessoa que disse que a gravidez é uma inconveniência para os empregadores, que disse que as mulheres não merecem salários iguais se não trabalharem tão bem quanto os homens”, disse a candidata. Trump afirmou apenas que os comentários tinham sido dirigidos a Rosie O’Donnell, uma comediante com quem ele travou discussões públicas. Mas Trump também afirmou que tinha algo “extremamente duro” para dizer sobre Hillary, mas na sequência disse: “Não posso, não posso”. Falando a jornalistas na saída do debate, ele disse estar orgulhoso de ter-se contido porque Bill Clinton e Chelsea, a filha do casal, estavam na plateia.

Há quase quatro meses, quando ficou claro que Trump levaria a indicação para disputar a Presidência pelo Partido Republicano, espera-se o momento em que o empresário vá mudar o tom e passar a falar com um candidato tradicional – ou pelo menos um pouco. Não foi o que aconteceu na convenção do partido, e também não foi o que se viu no primeiro debate. Trump pode não ter perdido eleitores, mas é duvidoso que ele tenha conquistado os votos de mulheres, negros e latinos – todos segmentos essenciais para chegar à Casa Branca. Restam seis semanas de campanha e outros dois debates.