Hillary promete unir os EUA

Sérgio Teixeira Jr., de Nova York

Hillary Clinton fez seu discurso de aceitação da indicação do Partido Democrata na noite de quinta-feira, falando em unir os Estados Unidos e rebatendo a afirmação de Donald Trump que “eu sozinho consigo consertar” os problemas do país. “Forças poderosas estão ameaçando nos separar, laços de confiança e de respeito estão desfiando”, disse Hillary. “Não há garantias. Temos de decidir se vamos trabalhar juntos para progredir juntos. O lema do nosso país é e pluribus unum, entre muitos, somos um. Vamos nos manter fieis a esse lema?”

Hillary afirmou que Trump quer que os americanos “tenham medo do futuro e tenham medo uns dos outros”. “Não deixem que ninguém lhes diga que nosso país é fraco. Não somos. Não deixem que ninguém lhes diga que não temos o que é necessário. Nós temos. E, acima de tudo, não acreditem em que diz: ‘Eu sozinho consigo consertar’.”

O discurso de ontem reforçou o abismo que separa Donald Trump e Hillary Clinton e marca uma das maiores polarizações políticas da história do país. Os Estados Unidos de Trump estão acuados pela ameaça do extremismo islâmico, e uma das medidas que ele propõe é proibir a entrada de muçulmanos vindos de países “comprometidos pelo terrorismo”. Hillary disse que não vai “proibir uma religião”.

Trump também promete construir um muro na fronteira com o México. Hillary falou em “construir um caminho para a cidadania para milhões de imigrantes que já contribuem com a nossa economia”. Trump, apoiado pelo lobby dos fabricantes de armas de fogo, falou em ser o “presidente da lei e da ordem”. Hillary disse que não vai proibir o comércio de armas, mas que vai estabelecer controles mais severos para que elas não caiam nas mãos de criminosos e terroristas.

A convenção democrata teve como um dos temas centrais as próprias palavras de Trump – uma vantagem pois os republicanos realizaram sua convenção na semana anterior. Durante os intervalos, os telões mostraram declarações do republicano sobre a proibição da entrada de muçulmanos nos Estados Unidos e as ofensas contra mexicanos e portadores de deficiência física. Vários dos oradores fizeram o mesmo em seus discursos. “Meu pai não é criminoso nem estuprador. Na verdade, ele é veterano [das Forças Armadas]”, disse a atriz Eva Longoria, famosa por sua participação na série de TV Desperate Housewives e filha de imigrantes mexicanos. Jogar Trump contra Trump deve ser uma das estratégias da campanha democrata daqui até novembro.

Parece inevitável, dada a quantidade de declarações ultrajantes feitas pelo republicano até aqui. Mas foi isso o que tentaram os 16 adversários do empresário durante as primárias republicanas – naturalmente sem sucesso. Nas pesquisas realizadas antes da convenção democrata, Trump aparecia empatado ou muito próximo de Hillary. O tom negativo e sombrio da campanha de Trump, aparentemente, encontrou eco junto a seus eleitores, e as sondagens dos próximos dias vão indicar se a estratégia está surtindo efeito.

A campanha eleitoral começa para valer agora. Além de vender ideias, os dois candidatos terão de vender a si mesmos daqui até 8 de novembro. Numa pesquisa do instituto Gallup realizada entre 18 e 25 de julho, 58% dos entrevistados afirmaram ter uma opinião desfavorável tanto de Trump quanto de Hillary. Ele é considerado um homem pouco preparado para assumir a Presidência; ela é vista como uma integrante da elite política e uma candidata pouco confiável.

As respectivas campanhas agora vão concentrar todas as atenções nos estados chamados “campos de batalha”, ou seja, aqueles que têm peso no colégio eleitoral e podem pender tanto para os democratas quanto para os republicanos. O primeiro dos três embates diretos entre os dois está marcado para 26 de setembro.