Gordon Brown, o artesão inesperado da vitória do “não”

O ex-primeiro-ministro britânico deixou o posto em 2010, mas foi considerado decisivo nas últimas horas pela campanha pelo "não" à independência da Escócia

Londres – Gordon Brown deixou Downing street em 2010 com um recorde de impopularidade.

Considerado decisivo nas últimas horas de campanha pelo “Não” à independência da Escócia, o ex-primeiro-ministro trabalhista agora é visto como o salvador da nação.

A cena se passa na quarta-feira em um comício político em Glasgow, na véspera do referendo histórico para decidir o futuro da Escócia.

Terno preto e camisa branca, Gordon Brown, originário de um subúrbio da cidade, sobe na tribuna e toma a palavra, sem anotações.

Diante de militantes agitando cartazes “Vote não, pelo amor da Escócia”, o ex-primeiro-ministro, por vezes, em lágrimas, fez um discurso apaixonado de dez minutos para defender a manutenção da integridade do Reino Unido.

O líder dirigiu-se “aos indecisos, aqueles que hesitam, aqueles que não têm certeza” para explicar que a união das nações do Reino Unido é muito mais do que uma assembleia política heterogênea.

“Deixe-me lembrar o que realizamos juntos. Lutamos juntos durante duas guerras mundiais. E não há um cemitério na Europa, onde não estejam, repousando lado a lado, escoceses, ingleses, galeses e irlandeses”.

Com uma audiência atenta, a intervenção foi transmitida por todos os canais de notícias. “O melhor discurso da campanha”, foi a manchete do jornal Daily Mail, enquanto o Financial Times se referiu “ao renascimento de um político”.

A súbita popularidade de Gordon Brown é surpreendente.

De origem humilde, tornou-se deputado em 1983. Em Westminster, conheceu Tony Blair, seu “irmão-inimigo”, com quem modernizou o antigo Partido Trabalhista, transformando-o em uma máquina formidável de guerra eleitoral, antes de a rivalidade azedar suas relações.

Entrou em Downing Street em 2007. Atingido pela crise econômica de 2008, lançou um ambicioso programa de salvamento bancário, elogiado no exterior, mas rejeitado pelos sindicatos e a oposição, que o acusaram de negligenciar o déficit.

Flash Gordon

Sua popularidade desmoronou e a campanha eleitoral de 2010 só confirmou sua falta de desenvoltura na frente das câmeras, especialmente contra seus jovens e animados rivais, o conservador David Cameron e o liberal-democrata Nick Clegg.

Excluído após 13 anos de governo trabalhista, Gordon Brown retornou para sua Escócia, onde vive de forma discreta, ocupando-se de projetos de caridade e mantendo um mandato parlamentar.

Isso até sua irrupção estrondosa no debate sobre o referendo.

Gordon Brown, diz o site especializado The Conversation, tornou-se “a figura central do campo do “Não”, conseguindo injetar paixão, energia e novos argumentos em uma campanha que, antes de suas intervenções, deixaja muito a desejar”.

De fato, mesmo entre as fileiras dos separatistas, era Gordon Brown quem assustava.

“Que David Cameron, Ed Milband (líder da oposição) e Nick Clegg (líder do Partido Liberal-Democrata) venham a Escócia não nos perturba nenhum pouco. Eles são tão impopulares que só vão aumentar as chances do “Sim”. Mas a vinda de Gordon Brown nos incomoda mais. As pessoas o respeitam por aqui”, destacou Gary Cocker, membro do Partido Nacional Escocês (SNP).

No Twitter, alguns notavam com ironia nesta sexta-feira que, intervindo na campanha, Gordon Brown, comparado com o super-herói “Flash Gordon”, pode ter impedido a separação do Reino Unido, mas também salvado a cabeça de seu ex-rival David Cameron.

“David Cameron deveria agradecer a Gordon Brown por salvar a união”, twittou Edward Adoo, artista e consultor musical de Londres.

“Gordon Brown parece de repente ter ganhado ares de um político cheio de futuro, enquanto que sua carreira parecia estar enterrada”, observou o Financial Times. “Um futuro primeiro-ministro da Escócia?”.