Goenka, o mestre da meditação que divide opiniões

Legado do mestre da meditação Satya Narayan Goenka continua em vários continentes, embora sua figura não esteja livre de críticas

Bangcoc – O legado do mestre da meditação Satya Narayan Goenka, cujo corpo descansa em Mianmar (antiga Birmânia) após sua recente morte na Índia, continua por meio de seus mais de 170 centros em vários continentes, embora sua figura não esteja livre de críticas.

O corpo do mestre birmanês de origem indiana foi levado em procissão pelas ruas de Yangun em um carro enfeitado com flores e uma grande imagem sua acompanhada por um numeroso grupo de seguidores.

O desejo final de Goenka, que morreu aos 89 anos em 29 de setembro deste ano, e que queria que espalhassem suas cinzas pelo rio Irrawaddy, era que sua doutrina continuasse através de seus centros de meditação espalhados em 30 países.

No Brasil, por exemplo, há centros no Rio de Janeiro, em São Paulo e no Paraná. Argentina, Colômbia, México, Espanha, França, Itália, Índia, Tailândia e África do Sul também possuem esses locais de meditação.

O carisma do mestre era tanto que, anualmente, milhares de pessoas participam dos cursos de meditação, com duração de dez dias, organizados pelos centros Vipassana. A maioria das pessoas relata boas experiências, embora também haja críticas à filosofia e às rígidas normas.

Goenka nasceu em 30 de junho de 1924 em Mandalay, a segunda maior cidade de Mianmar e se tornou um próspero homem de negócios. Aos 31 anos, começou a ter fortes dores de cabeça que só passaram depois de praticar meditação vipassana, de origem budista, com o mestre U Ba Khin. Vendo a eficácia do “tratamento”, abandonou seus negócios e passou a se dedicar a ensinar a prática oriental.

Com incontáveis seguidores e diversos centros no mundo todo, Goenka se transformou, mais tarde, em um líder espiritual e chegou a discursar na ONU em 2000.

No entanto, o mestre birmanês sempre fugiu do estereótipo do guru oriental e defendia que sua técnica vipassana não estava vinculada a qualquer religião e não requeria rituais, somente prática e perseverança.

“Um mestre não deveria se transformar em um ídolo, como um deus. É um mestre. Pratica o que ensina. E isso é tudo”, disse Goenka durante uma entrevista a um jornal indiano em 2010.


Durante os dez dias de retiro, os estudantes se comprometem a cumprir uma série de normas severas, que incluem evitar a comunicação gestual, manter silêncio em quase todo momento e se livrar de livros, celulares, computador, e até mesmo de pulseiras e medalhas.

Vestidos com roupas simples, preferencialmente de cor branca, a maioria dos alunos pratica o ensinamento por mais de oito horas diárias nas quais aperfeiçoam a meditação anapana, baseada na respiração consciente; e a vipassana, na observação das sensações corporais.

Como no budismo, o objetivo da técnica é acabar com o sofrimento evitando as reações negativas mediante a introspecção consciente e equânime das sensações, praticado no âmbito de uma vida moral e saudável.

Goenka dizia que a essência da realidade é um contínuo suceder ou “anicca” (constante mutação de todas as coisas que compõem o universo) que devemos observar sem nos deixarmos arrastar, o que permite viver de forma feliz e livre da ira e da luxúria.

O cineasta espanhol Joan Planas definiu sua experiência em um curso de Goenka em Barcelona como “os dias mais bem investidos” de sua vida, quando progrediu como pessoa, embora também tenha encontrado aspectos menos positivos.

“Não gostei do fato de ficar sentado dez horas escutando palestras morais sobre o que é o bem e o mal, segundo Goenka, sem poder debater. Se pudesse argumentar certamente ficaria 100% conquistado, pois ele foi um homem de extrema bondade em seus argumentos”, explicou à Agência Efe por e-mail.

Enquanto há autores que admiram Goenka, como o psiquiatra americano Paul R. Fleischman, outros como Harmanjit Singh acusam o mestre birmanês de interpretar mal os discursos de Buda e de ter criado, sem perceber, um “culto” em torno de sua pessoa, e “rituais” repetidos nos cursos.

Harmanjit inclusive classifica de “sectária” a forma como os centros se financiam através das doações, já que os cursos, incluindo o alojamento e a comida são gratuitos.

“Eles são programados de forma sutil para ter um sentimento de culpa se não fazem (uma doação), e de se sentir bem se fazem”, afirma o autor em artigo, no qual também classifica a técnica de Goenka como uma forma de “ilusão mental”.