Glasgow, de reduto trabalhista a refúgio pró-independência

A maior cidade escocesa é um fervedouro de debates e atividades políticas na véspera do referendo que determinará o futuro da região

Glasgow – Glasgow, a maior cidade escocesa com quase 600 mil habitantes, é um fervedouro de debates e atividades políticas na véspera do referendo que determinará o futuro da Escócia.

Junto a Dundee, no leste, a urbe do arquiteto Charles Mackintosh, antigo reduto do Partido Trabalhista britânico, se mostra agora como um território propício à independência.

Uma pesquisa neste verão mostrou o apoio de mais de 53% da população à cisão.

A desilusão com os trabalhistas, apoiados pela população ininterruptamente desde os anos 30, criou um cenário de propagação para a campanha do “sim” à independência da Escócia.

Enquanto os partidários da união com o Reino Unido, respaldados pelos principais partidos britânicos, contaram com o apoio de famosos como a autora J. K. Rowling e David Beckham, os separatistas se organizaram localmente em múltiplas associações para promover sua causa.

“Independência radical”, “Mulheres pela independência”, “Empresas pela independência” e o grupo de artistas “Coletivo Nacional” têm suas raízes em Glasgow, onde não é preciso dar mais do que alguns passos para ver pedestres com placas de apoio ao “sim”, bandeiras escocesas, além de adesivos colados em portas e janelas.

Na rua Buchanan, principal artéria comercial da cidade, vários jovens que apoiam a independência ainda tentam convencer os indecisos com minuciosas explicações sobre os benefícios da cisão.

Sarah Gibbons, de 28 anos, pediu duas semanas de licença no trabalho para ajudar na campanha de rua, em um esforço para “compensar as informações tendenciosas e pró-união que aparecem na imprensa nacional”, declara.

Embora tenha sido reticente à princípio, Sarah agora apoia a independência porque ela “oferece a oportunidade de mudar as coisas e isso atrai muita gente jovem, decepcionada com os políticos tradicionais”. Em seu caso, os trabalhistas.

“A opção independentista encheu um buraco no mercado. As pessoas estão desesperadas por mudança”, define.

Por ela passam alguns meninos que repreendem os voluntários, mas ela diz que é pouco habitual.

“Inclusive torcedores dos Ranges, tradicionalmente associados ao unionismo norte-irlandês) formaram um grupo pró-independência”, assegura.

Assim como Sarah, Eliza Campbell, de 30 anos, votará pela independência mesmo não gostando do Partido Nacionalista Escocês (SNP, na sigla em inglês) de Alex Salmond.

A possibilidade de criar uma sociedade mais equilibrada, além do puro nacionalismo, empolga também o artista Dominic Currie, de 56 anos. Ele fez uma exposição sobre o referendo, chamada “Animated Scaatland”, monopolizando a atenção da mídia.

Inspirado em histórias em quadrinhos e na obra de Roy Lichtenstein, Currie criou uma série de acrílicos para a galeria Veneer tanto favoráveis como contrários à independência, “em uma tentativa de incentivar o debate e encorajar os indecisos”, explica.

Embora os quadros, vendidos rapidamente, tentassem ser neutros, o ex-trabalhista é partidário da separação, “porque dará à Escócia a oportunidade de tramitar seus recursos e investí-los da melhor maneira”.

Na Universidade de Glasgow, com seu imponente prédio vitoriano no oeste da cidade, os estudantes debatem até o último minuto sobre a independência.

Em uma tenda, várias associações estudantis reunidas na chamada “Geração Sim”, um grupo juvenil independentista, tentam convencer quem ainda não sabe como votar no referendo de amanhã.

Além deles, outros estudantes, principalmente residentes da comunidade europeia, temem que a separação dificulte a “a estadia ou os estudos na Escócia”, como é o caso da francesa Natacha Martin.

Outra radicalmente oposta à independência – embora confesse não se atrever a dizer isso em voz alta – é Helena Landamore, uma pesquisadora acadêmica, de 37 anos, nascida na Inglaterra.

“Penso que, se aprovar a independencia, a Escócia terá menos dinheiro para a pesquisa científica e isso será uma pena. Além disso, sou britânica, não quero ter um passaporte escocês. E não desejo que o povo seja dividido”, diz.

Parece claro que o debate em torno do referendo criou dois campos, em Glasgow e em toda Escócia. Resta ainda saber quanto tempo será necessário para curar as feridas depois da divulgação do resultado das urnas.