Gallagher, de Michigan: EUA x China

Thiago Lavado

Ao longo de seus 100 dias à frente dos Estados Unidos, Donald Trump causou os previsíveis embates domésticos, mas surpreendeu mesmo na política internacional. Nesse período, contradisse promessas de campanha: chegou a afirmar que a Otan é necessária no atual cenário político e bombardeou a Síria e o Afeganistão. Mas nenhuma surpresa foi tão grande quanto a aproximação com a China. Trump se converteu em mudou sua dura postura sobre o país após poucos minutos de conversa com o presidente chinês, Xi Jinping, e até deixou de lado o discurso sobre taxar severamente os importados chineses.

A mudança na postura do presidente deixou muita gente com uma pulga atrás da orelha. Fica no ar como os Estados Unidos lidarão com a China de agora em diante. Para Mary Gallagher, professora da Universidade de Michigan, onde é diretora do Centro Lieberthal-Rogel de Estudos Chineses, ainda é difícil saber a verdadeira estabilidade da abordagem política do presidente.

Antes de o presidente Trump se reunir o presidente Xi Jinping, havia um temor de que esse encontro jogaria as relações China-Estados Unidos em um limbo, que, no limite, poderia colocar ambos os países em uma guerra comercial. Nada disso aconteceu. O que esperar daqui para a frente?
A política internacional de Trump é de uma natureza imprevisível e forçou a mão de Pequim neste caso. Agora, a China se move na direção de ampliar sanções à Coreia do Norte de maneira mais agressiva do que antes. Pequim também tem ido diretamente ao ponto sobre seus interesses na península da Coreia. De uma maneira interessante, a abordagem de “homem louco” de Trump serviu para impressionar a China, mostrando que é de interesse do país manter a paz e a estabilidade no leste da Ásia.

Trump afirmou que saiu de tal reunião com sua visão sobre a China e a Coreia de Norte mudada. Trump terá uma postura mais rígida a partir de agora?
Ele continuará a mudar de ideia bem rapidamente, o que será desconcertante para a maioria dos líderes do mundo, que terão de tomar decisões internacionais mais cautelosas. Apesar disso, Trump pode ser aconselhado por experts e assessores que são muito ajuizados e experientes. Até agora, os eventos têm mostrado que ele muda de ideia muito facilmente, sem qualquer análise ou informação mais profunda sobre o assunto.

O que significaria uma guerra comercial entre a China e os Estados Unidos?
Uma guerra comercial ameaçaria o suporte doméstico dos eleitores a Trump. Consumidores irão se rebelar contra os preços que irão subir; estados agrícolas, que tendem a ser mais republicanos, irão sofrer perdas nas exportações em seus principais mercados; estados com forte indústria manufatureira, como Michigan e Ohio [que votaram em Trump], irão perder o investimento chinês e irão se rebelar contra isso.

A política de Trump é baseada em uma filosofia de “América primeiro”, que demanda que os Estados Unidos tomem conta de si antes de interferir no mundo. Diante disso, pode-se esperar que a China aumente sua influência política na Ásia?
No discurso no Fórum Econômico Mundial de Davos este ano, Xi Jinping se posicionou como um novo líder da globalização, enquanto os Estados Unidos se entrincheiram e focam em “fazer a América incrível novamente”. É claramente do interesse da China fazer isto, mas é incerto qual é a capacidade do país em alcançar esse objetivo. A China já alienou os vizinhos mais próximos depois de ter imposto uma política agressiva no Mar do Sul da China. A Coreia do Sul, por exemplo, se afastou do país após o boicote a produtos sul-coreanos, que veio quando aconteceu instalação do sistema de mísseis de defesa em área de alta altitude (THAAD). A China também tem uma grave crise de governo em Hong Kong, e o relacionamento com a administração recém-eleita em Taiwan não é nada bom. Será uma grande batalha para a China convencer seus vizinhos de que uma saída da influência dos Estados Unidos e uma entrada da influência chinesa serão boas para a estabilidade da região.

Os chineses estão agindo de forma a colocar um fim nas tensões entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos, para que não haja uma escalada dos conflitos na península. Como o governo da China pode fazer isso?
O governo chinês tem mais capacidade do que os americanos de colocar pressão sobre a Coreia do Norte. O problema central é que o governo da China não partilha dos mesmos interesses fundamentais que os Estados Unidos. É de interesse da China que o regime norte-coreano sobreviva; os Estados Unidos gostariam de ver o governo de Kim Jong-un entrar em colapso. Há pouco espaço para cooperação entre os dois países até que os interesses estejam mais alinhados em torno de um objetivo comum. Para isso, há a necessidade de conversas sobre o que fazer na Península da Coreia caso o regime entre em colapso na República Popular da Coreia do Norte.

O que a China ganha investindo e protegendo a Coreia?
O apoio da China é uma consequência da Guerra Fria e da manutenção de seus próprios interesses. O suporte é, em grande parte, ligado ao auxílio que a China deu aos norte-coreanos durante a Guerra da Coreia. No entanto, não se trata apenas de história. A China teme que a instabilidade na Península da Coreia culmine em uma crise de refugiados no nordeste do país e também em uma eventual permanência de tropas americanas na fronteira chinesa por um grande período de tempo.

Quais mudanças o 19º Congresso Nacional do Partido Comunista da China irá trazer para a política do país? Podemos esperar que Xi Jinping mantenha seu posto como líder do parlamento?
Por enquanto, a expectativa é de que Xi mantenha o cargo, mas a questão mais importante é se ele conseguirá se manter na presidência mesmo depois da norma de aposentadoria, que será alcançada em 2023 quando Xi completa 10 anos no poder. Agora, é esperado que o congresso do partido revele a verdadeira extensão dos poderes de Xi Jinping e em que grau a China saiu de uma liderança coletiva para uma autocracia de um homem só.