Futuro segue incerto para israelenses e palestinos

O futuro é incerto para ambos os lados e, para confundir ainda mais, no final do ano a complexa coalizão do governo de Israel ruiu e foram convocadas eleições

Jerusalém/Gaza – Mais um fracasso do diálogo de paz, a dura ofensiva bélica israelense em Gaza e a decisão dos palestinos de internacionalizar a disputa política e buscar o reconhecimento de seu Estado na ONU alteraram a dinâmica do conflito entre Israel e Palestina e abriram um novo horizonte na região.

O futuro é incerto para ambos os lados e, para confundir ainda mais, no final do ano a complexa coalizão do governo de Israel ruiu e foram convocadas eleições para 17 de março de 2015.

Além disso, será crucial a resposta que a comunidade internacional – Estados Unidos e União Europeia (UE) em particular – darão para o pedido de reconhecimento do Estado palestino no Conselho de Segurança da ONU.

A crise de confiança começou a se evidenciar no começo do ano, quando o esforço negociador realizado em julho de 2013 pelo secretário de Estado americano, John Kerry, começou a descarrilar.

Em março, os palestinos exigiram a libertação da quarta rodada de prisioneiros, como tinha sido pactuado, mas o governo do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, respondeu com uma velha exigência: que os palestinos reconhecessem antes “a natureza judaica do Estado de Israel”.

Presos em um beco sem saída, os palestinos avançaram rumo à antiga proposta de reconciliação entre o movimento nacionalista Fatah e o islamita Hamas, criticada por Israel e que teve como desenlace a formação de um governo de transição nacional.

Enquanto isso, no interior da coalizão de governo de Israel, a direita ultranacionalista e vinculada ao movimento colono ganhou mais peso, até transformar o atual Executivo no principal promotor de assentamentos ilegais da história do país.

O conflito bélico explodiu em julho, um mês depois de dois ex-prisioneiros, membros do Hamas, matarem três estudantes israelenses – dois deles menores de idade – que pediam carona perto do bloco de colônias de Gush Etzion, na Cisjordânia ocupada.

A operação militar israelense em Gaza, denominada Limite Protetor e que se prolongou de 8 de julho a 26 de agosto, causou a morte de mais de 2.100 pessoas do lado palestino – a grande maioria civis.

Além disso, 65 soldados e quatro civis israelenses também morreram. A operação devastou uma já empobrecida Faixa de Gaza pelo bloqueio israelense.

A retirada do bloqueio militar e econômico, em vigor desde 2007, foi uma das condições para o cessar-fogo estipulado em 26 de agosto.

Outras condições foram a abertura das passagens fronteiriças de Erez e de Rafah, fechadas por Israel e Egito, respectivamente, a construção de um porto e um aeroporto na Faixa de Gaza e a entrada de materiais para a reconstrução das cerca de 20 mil casas destruídas ou seriamente danificadas pelos bombardeios.

Quatro meses depois, e com o inverno se aproximando, os materiais quase não entraram e a reconstrução é apenas um sonho, apesar dos US$ 5,4 bilhões que países doadores se comprometeram a destinar para a região.

Com o passar do tempo, os seis meses que o governo de reconciliação palestino se deu para convocar eleições terminaram sem uma data definida para a votação e em meio a grandes divergências entre o Hamas e o presidente palestino e líder do Fatah, Mahmoud Abbas.

Por sua parte, o governo israelense veio abaixo, vítima do enfrentamento entre a centro-direita e a extrema-direita nacionalista, as ambições de reeleição do primeiro-ministro e as aspirações de poder do ministro das Relações Exteriores, o ultranacionalista Avigdor Lieberman.

Tudo isso salpicado de tensão e uma onda de violência com tons racistas e religiosos, que foi crescendo desde que no início de julho três ultranacionalistas israelenses queimaram vivo um jovem palestino em Jerusalém como vingança pelo assassinato dos três estudantes perto de Gush Etzion.

Desde então, os protestos de jovens radicais palestinos se repetiram e mergulharam a cidade santa em um irrespirável ambiente de tensão e desconfiança.

Para esta atmosfera de medo contribuíram a contundente resposta das forças de segurança israelenses – 50 palestinos morreram neste ano por disparos e em ações da polícia israelense, entre eles o ministro palestino Zid Abu Ein – e os ataques perpetrados por “lobos solitários” palestinos em Jerusalém.

Pelo menos nove pessoas – oito civis israelenses e uma cidadã equatoriana – morreram nos últimos meses em dois supostos atropelamentos propositais e em um ataque a tiros contra uma sinagoga de Jerusalém Oeste.

Além disso, um pistoleiro palestino deixou gravemente ferido nesta parte da cidade o rabino Yehuda Glick, um dos principais defensores da mudança de status na Esplanada das Mesquitas (conhecida como Monte do Templo pelos muçulmanos).

Os rumores sobre esta possibilidade, as contínuas visitas de judeus para orar no local, apesar da proibição rabínica, e as restrições de acesso impostas pelas forças israelenses aos palestinos foram outro fatores que alimentaram a crise.

Até mesmo a Jordânia – que mantém desde 1967 a autoridade e a gestão sobre este espaço sagrado para muçulmanos e judeus – retirou seu embaixador de Tel Aviv e advertiu Israel das consequências de uma mudança sobre o status de Jerusalém.