Furacão faz petróleo atingir sua maior cotação em 20 anos

Barril bateu em 70,85 dólares. Para secretário interino da Opep, não há fundamentos objetivos para as altas

Os preços internacionais do petróleo bateram novo recorde nesta terça-feira (30/8) devido à passagem do Furacão Katrina pelo Golfo do México. A região concentra quase metade da capacidade de refino de óleo cru dos Estados Unidos. Os contratos para entrega futura de petróleo chegaram a 70,85 dólares por barril. O valor superou o recorde anterior, registrado na segunda-feira (29/8), de 70,80 dólares. Trata-se da cotação mais alta dos últimos 20 anos. Já os contratos futuros de gás natural atingiram 12,07 dólares por milhão de BTU (unidade de referência para o combustível). No fechamento da Bolsa de Nova York, porém, a cotação do barril já havia recuado para 69,8 dólares.

Em uma conferência em Oslo, hoje, Anan Shihab-Eldin, secretário interno da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) criticou a atenção excessiva do mercado a fatores de curto prazo para determinar os preços do óleo cru. Segundo Shihab-Eldin, se apenas os fundamentos econômicos mundiais fossem considerados, não haveria tanta volatilidade nas cotações do insumo. “Os fundamentos econômicos não justificam os preços correntes. Queremos assegurar ao mercado que os níveis dos estoques de petróleo estão crescendo”, disse. O representante da Opep observou que seria difícil que os preços caíssem abaixo de 40 dólares por barril, mas disse que seria possível que a cotação se estabilizasse ao redor de 50 a 55 dólares.

De acordo com o jornal britânico Financial Times, outra medida para amenizar os efeitos do Katrina sobre a produção de petróleo foi anunciada pela Arábia Saudita. O país informou que está preparado para aumento sua produção diária de petróleo para 11 milhões de barris.

Sem choques

Diante dos recorrentes recordes de preço, muitos economistas afirmam que o mundo enfrenta um novo choque do petróleo, que poderia arrastá-lo para uma recessão. Mas, para a revista britânica The Economist, classificar os atuais aumentos desta forma é um equívoco. Segundo a publicação, os preços elevados do óleo cru não ameaçam a expansão da economia porque as baixas taxas de juros ainda sustentam a expansão das linhas de crédito. Esse crédito está alimentando, ainda, a bolha imobiliária em muitos países notadamente, nos Estados Unidos.

Para The Economist, os dois custos mais importantes do mundo, atualmente, são o do petróleo e o do capital. Quando os juros estão muito baixos (seja na forma da remuneração de títulos públicos, seja para financiamento de curto prazo), a demanda mundial responde com maior expansão econômica. O ritmo acelerado estimula o aumento do petróleo, sobretudo quando a capacidade produtiva está próxima de seu limite, como se verifica atualmente.

Uma prova de que custos de petróleo e de capital estão atrelados são os resultados da economia mundial, no ano passado. Tanto a taxa média de crescimento global, quando o consumo de petróleo, apresentaram a maior alta dos últimos 30 anos.

Segundo a revista britânica, o único modo de conter a cotação do óleo cru seria elevar as taxas de juros. Mas a medida ameaçaria os negócios imobiliários e do mercado financeiro, despertando riscos de recessão. Assim, The Economist termina com uma conclusão paradoxal: a alta do petróleo, no fundo, pode estar desempenhando um papel positivo, ao conter um eventual superaquecimento da economia mundial, já que os juros outro mecanismo que se prestaria a esse papel continuam baixos.