Fuga de prisão mostra falhas na luta contra crime no México

Especialista em direito penal, Julio Hernández Barros disse que no México há ''uma crise nos presídios há muito tempo'', o que provocou várias fugas

Cidade do México – A fuga de 129 detentos de uma penitenciária no norte do México pôs em evidência as falhas da estratégia contra o crime organizado lançada pelo governo de Felipe Calderón, que deixará questões de política de segurança pendentes para seu sucessor, Enrique Peña Nieto.

Em declarações à Agência Efe, o especialista em direito penal, Julio Hernández Barros disse que no México há ”uma crise nos presídios há muito tempo”, o que provocou várias fugas.

O próprio Calderón classificou nesta terça-feira como ”deplorável a fuga da penitenciária estadual de Piedras Negras”, localizada no estado de Coahuila, e afirmou que ”é preciso corrigir a vulnerabilidade das instituições de justiça estaduais”.

O comentário do presidente foi publicado no Twitter um dia depois que os 129 detentos fugiram da prisão em Piedras Negras através de um túnel de 30 metros de comprimento e três metros de profundidade.

O diretor da penitenciária, o chefe do turno e o responsável dos guardas ficarão sob prisão preventiva até o fim das investigações, para averiguar suas supostas responsabilidades na fuga.

Trata-se da segunda maior fuga durante o governo de Calderón, superada apenas pelos 141 detentos que fugiram no dia 17 de dezembro de 2010 em Nuevo Laredo, em Tamaulipas, e preocupa principalmente por haver entre os foragidos 86 presos federais, pessoas relacionadas com o tráfico de drogas e o crime organizado.

As autoridades estaduais iniciaram uma operação de busca na tarde de ontem e alertou os Estados Unidos, em especial a localidade de Eagle Pass, próxima da região de Piedras Negras.

O secretário de Segurança Pública de Coahuila, Jorge Luis Morán, informou que três mulheres e dois homens que estavam presos e que inicialmente constavam na lista de fugidos, apareceram hoje dentro da penitenciária, escondidos em uma oficina de carpintaria, onde se refugiaram após serem ameaçados pelos detentos que escaparam.


Ele também informou que se presume que a operação foi montada pelos Zetas, um dos maiores grupos do crime organizado do México.

Hernández considera que há no país ”uma péssima política criminal, com penitenciárias infestadas de pessoas que talvez nem deveriam estar ali, enquanto a impunidade faz com que os que deveriam estar presos estejam foragidos”.

O especialista em direito penal sustentou que devem ser intensificadas as medidas de segurança nas prisões mexicanas, além de isolar os detentos federais, que ”contaminam o sistema penal e o transforma em uma universidade do crime”.

Junto deles, que costumam ser ”muito mais violentos” e têm ”uma conduta antissocial muito mais evidente”, há outras pessoas que poderiam ser reabilitadas e reincorporadas à sociedade.

Em relação aos indícios da suposta ”cumplicidade” entre os funcionários da prisão e os fugitivos, Hernández disse ser comum a existência de presídios com ”um autogoverno dos próprios detentos”, diante dos quais as autoridades ”ficam mudas e cobram um salário que não tem direito”.

”A corrupção no México está infiltrada em todos os lugares, especialmente na administração da Justiça”, ressaltou.

Sobre a estratégia de Calderón, o especialista disse que ao pôr a responsabilidade nos estados, o governo federal está ”lavando as mãos”.

Além disso, salientou que com os fatos recentes fica provado que, no México, ”a luta contra a delinquência organizada é um fracasso”. Em sua opinião, ela ”é um fiasco, deixa cerca de 70 mil mortos e falhas graves nos presídios”.

”Acredito que toda a estratégia contra o crime organizado de Calderón foi um fracasso. O presidente deixa o país com um saldo negativo e em condição de emergência nacional. Ele deixa um grande ”presente” para o seu sucessor e um país manchado de sangue”, concluiu.

Calderón entrega o poder no dia 1º de dezembro para Enrique Peña Nieto, representando o retorno do Partido Revolucionario Institucional (PRI) à presidência, após dois mandatos nas mãos do conservador Partido Acción Nacional (PAN).