França nega pedido de asilo a Julian Assange

Fundador do Wikileaks se diz vítima de "uma perseguição política de uma envergadura inédita"

Paris – A França negou nesta sexta-feira ao fundador do Wikileaks, Julian Assange, o pedido de asilo feito em carta dirigida ao presidente da França, François Hollande, informou o Palácio do Eliseu.

“A França recebeu a carta do senhor Assange. Um exame em profundidade revela que, levando em conta os elementos jurídicos e a situação de Assange, a França não pode satisfazer sua reivindicação”, apontou a presidência francesa em comunicado.

Segundo o Eliseu, a atual situação de Assange, refugiado na Embaixada do Equador em Londres, “não representa um perigo imediato” e lembra, além disso, que sobre ele pesa uma ordem europeia de detenção.

O australiano, de 44 anos, se apresenta na carta como um “jornalista (…) perseguido e ameaçado de morte pelos Estados Unidos” por suas atividades profissionais e lembra que não é acusado de nenhum “crime em nenhum lugar do mundo”, incluído na Suécia e no Reino Unido”.

Assange se diz vítima de “uma perseguição política de uma envergadura inédita” que inclui ameaças de assassinato, de sequestro, de encarceramento, campanhas de difamação e assédio que afetam a ele mesmo, seu entorno e sua organização.

“Foram lançadas essas ações contra mim porque um dia decidi não me calar e revelar provas de crimes de guerra contra a humanidade”, ressaltou.

A carta, que foi publicada pelo jornal “Le Monde”, foi enviada ao Eliseu após a recente publicação, através do Wikileaks, de vários documentos secretos da Agência de Segurança Nacional americana (NSA) que demonstram que Washington espionou os três últimos presidentes franceses pelo menos entre 2006 e 2009.

Essa circunstância, assim como as chamadas para que a França revise sua legislação sobre os filtros de informação e o apoio à liberdade de imprensa feitos pelas autoridades francesas após o atentado terrorista de janeiro contra a revista satírica “Charlie Hebdo”, motivam que tenha feito do pedido de asilo agora.

Assange apoia-se, além disso, no fato da ministra francesa de Justiça, Christiane Taubira, se mostrar propícia de que seja concedido asilo na França, ideia rejeitada pelo primeiro- ministro, Manuel Valls.

O fundador do Wikileaks lembra que essa organização recebeu “dezenas de prêmios jornalísticos”, entre eles um da Anistia Internacional (AI), e que o site foi indicado “em cinco ocasiões consecutivas” ao Nobel da paz, assim como ao Prêmio Mandela das Nações Unidas.

Assange, sobre quem pesa uma ordem de detenção por parte da Justiça sueca para processá-lo em seu território por supostos delitos sexuais, descreve também as condições nas quais vive na embaixada do Equador em Londres desde 2012 para “evitar uma extradição aos EUA que cada vez parece mais provável”.

“Disponho de 5,5 metros quadrados para meu uso privado. As autoridades britânicas me proibiram o acesso à luz solar e ao ar livre, assim como qualquer possibilidade de ir ao hospital”, comenta Assange, segundo o qual a embaixada, fortemente vigiada, o impediu de ter “a mínima vida familiar ou íntima”.

“A França faria um gesto humanitário mas também simbólico, enviando ânimo a todos os jornalistas que arriscam sua vida para permitir aos cidadãos ter acesso à verdade”.