Farc acusam governo de não cumprir acordo de paz

Em um inédito congresso em Bogotá, guerrilha cobra a libertação de prisioneiros e mostra receio sobre avanço do processo de paz

Bogotá A direção das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) acusou nesta segunda-feira o governo colombiano de não cumprir sua parte no acordo de paz, no que se refere à libertação dos presos políticos. Na primeira entrevista coletiva em Bogotá da história do movimento fundado em 1967, Carlos Antonio Lozada, comandante dos comandos urbanos e membro do Estado Maior das Farc, disse que além dos guerrilheiros há “mais de 8.000 presos de consciência” no país, que pelo acordo firmado em novembro deviam ter sido libertados.

Um repórter da Agência de Imprensa Alternativa (APA), de esquerda, perguntou quantos prisioneiros das Farc ainda havia. Lozada não sabia o número, mas um militante no auditório gritou que eram 1.423. Lozada, sobre cuja cabeça pesa uma recompensa de 2,5 milhões de dólares do governo americano, acrescentou que os que já foram soltos ainda estão sob liberdade vigiada, e segundo o acordo já deveriam estar circulando livremente pelo país.

O comandante afirmou que essa será uma das reivindicações que as Farc apresentarão, em manifestações que começarão no sábado, e depois seguirão por todo o país. As outras citadas por ele são: “apagar as enormes diferenças econômicas, políticas e sociais; criar uma nova cultura sobre o marco da democracia e dos direitos humanos e acabar com o paramilitarismo”.

Embora os paramilitares, inimigos da guerrilha financiados por empresários e pelo narcotráfico (assim como as Farc), tenham supostamente se desarmado, em um programa do governo, há mais de dez anos, setores de esquerda afirmam que eles continuam atuando. E estariam até ocupando territórios deixados pela guerrilha.

A Câmara dos Deputados debatia na noite desta segunda-feira uma proposta de emenda apresentada por organizações de defesa dos direitos humanos, que inclui na Constituição a proibição do paramilitarismo, já prevista em lei. O Conselho Gremial, que representa os empresários, mandou uma carta à Câmara rejeitando enfaticamente a proibição.

As Farc têm apresentado como objetivo de seu abandono da luta armada e ingresso no jogo democrático a formação de um “governo de transição”, que segundo Lozada “tem que garantir mudanças estruturais para um novo nível de desenvolvimento”, e para o estabelecimento de uma “paz democrática”.

A organização está realizando um congresso em um centro de convenções no centro de Bogotá, que culminará no lançamento de seu partido. A Colômbia realiza eleições parlamentares em março e presidenciais em maio. Na abertura do congresso, no domingo, o principal dirigente, Rodrigo Londoño, afirmou que o novo partido não deve lançar candidato próprio a presidente, mas aliar-se a outras legendas de esquerda que sigam linhas políticas parecidas com as das Farc.

Durante o congresso, que termina nessa sexta-feira, serão definidos os candidatos que preencherão as cinco cadeiras na Câmara dos Deputados e cinco no Senado, garantidas pelo acordo independentemente da votação que o novo partido tiver. Enfatizando que a escolha dos candidatos será secreta e pelo voto direto de todos os delegados do congresso, numa espécie de primárias partidárias, Lozada se vangloriou: “É a democracia que queremos para o nosso país”.

O dirigente se queixou no entanto de que o prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, não autorizou o ato de lançamento do partido na Praça Bolívar, no centro histórico de Bogotá, em frente ao palácio presidencial e ao Congresso. “Recordamos que a origem deste movimento se deu justamente por causa da intolerância e da exclusão”, advertiu Lozada, que afirmou que as Farc não têm um plano B, pois não admitem a possibilidade de não poderem realizar o seu ato na principal praça do país. Ele enumerou todos os artistas de esquerda que se apresentariam no palanque, e perguntou: “Como eles podem ser uma ameaça à segurança de Bogotá?”

Lozada reafirmou que as Farc não têm bens no exterior, embora o Ministério Público afirma que têm, e ameaça com a retirada dos benefícios da Justiça Especial para a Paz, que prevê as punições brandas, se a guerrilha não declarar a verdade. O dirigente pediu que o procurador-geral da República, Néstor Humberto Martínez, divulgue a lista de bens entregue pelas Farc, e o acusou de querer “criar uma cortina de fumaça com esse tema, para esconder o escândalo que assombra o país”. Foi uma referência às investigações das delações da Odebrecht, que desde dezembro já levaram à prisão de 12 empresários e funcionários do governo.

O hino das Farc em Bogotá 

Em uma cerimônia carregada de simbolismo, o congresso foi aberto no domingo com o hino nacional da Colômbia e, em seguida, o hino das Farc. O casal de mestres de cerimônia, ele vestido de terno e ela de tailleur, ressaltaram que era a primeira vez que o hino da guerrilha era cantado, em público, em Bogotá. As Farc antes realizavam seus congressos clandestinamente, na selva colombiana.

Depois do hino, dezenas de guerrilheiros gritaram os nomes dos comandantes de suas frentes mortos, e a multidão respondia: “Presente”.

Em seu discurso de abertura, Londoño, que conduziu os quatro anos de negociações com o governo em Havana, afirmou: “Vamos precisar de cabeça fria e de massas que nos respaldem em todos os espaços. Nossa missão fundamental será ganhá-las. Sem elas, o adversário fará o que quiser de nós, não conseguiremos mudar nada”.

A advertência do dirigente exprime o receio das Farc de caírem na irrelevância, ao trocar “as armas pelas palavras”, segundo a expressão que eles usam. Não é para menos. No plebiscito do dia 2 de outubro, sobre o acordo de paz, o “não” venceu, ainda que por estreita margem, de 50,21% a 49,78%, numa manifestação do desacordo de boa parte da população com a troca de prisão por trabalhos comunitários pelos crimes de guerra cometidos pela guerrilha, e também com a oferta das cadeiras no Congresso sem os votos correspondentes, por duas legislaturas.

A maioria do governo no Congresso acabou passando por cima do plebiscito e das promessas do presidente Juan Manuel Santos de acatá-lo, e referendou o acordo mesmo assim. Pesquisa Gallup realizada em junho mostrou que apenas 15% dos colombianos nutrem uma imagem favorável às Farc. Mas, até aí, as Farc ainda estão no lucro: os partidos, em conjunto, têm 8%. Pior que isso, só a guerrilha do Exército de Libertação Nacional (ELN), que também negocia um acordo com o governo, e obteve 4% de imagem favorável, e a vizinha Venezuela, com 3%. Não está fácil para os políticos.