Exército sírio entra em zona do norte após pedido de ajuda dos curdos

Ancara, que ameaçou com uma ofensiva contra os curdos nesta região, reagiu afirmando que as forças curdas não têm "direito" de pedir ajuda a Damasco

O Exército de Bashar al-Assad entrou nesta sexta-feira, 28, na região de Manbij, no norte da Síria, depois de as forças curdas pedirem ajuda, o que supõe uma mudança de alianças na guerra como consequência do anúncio de retirada das tropas americanas.

Ancara, que ameaçou com uma ofensiva contra os curdos nesta região, reagiu afirmando que as forças curdas não têm “direito” de pedir ajuda a Damasco e lançou uma advertência ante qualquer “provocação”.

O anúncio do regime chega em um momento em que este multiplica suas vitórias militares e parece estar a ponto de romper seu isolamento diplomático, após a reabertura, na quinta-feira em Damasco, da embaixada dos Emirados Árabes Unidos (EAU).

O regresso das tropas do regime à região de Manbij, pela primeira vez em seis anos, ocorre em um momento em que as forças curdas, ameaçadas pela ofensiva de Ancara, foram surpreendidas pelo anúncio de seu aliado americano da retirada de seus soldados mobilizados na Síria.

“Unidades do Exército árabe-sírio entraram em Manbij”, anunciou um porta-voz do Exército, lendo um comunicado na televisão oficial.

Segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), o Exército e as milícias aliadas se mobilizaram em setores do norte e do leste da cidade, criando uma “zona de separação” entre os territórios rebeldes pró-Ancara e a cidade, precisou a ONG.

Mais de 300 combatentes das forças pró-regime foram mobilizados na região, segundo esta ONG, que conta com uma vasta rede de informação na Síria.

“Sincronizar as ações”

Pouco antes, as Unidades de Proteção Popular (YPGs), principal milícia curda da Síria, pediram ao regime o envio de tropas para Manbij, após afirmarem que tinham se retirado de lá.

“Pedimos ao Estado sírio que envie suas forças armadas para recuperar [nossas] posições e proteger a região de Manbij ante as ameaças turcas”, anunciaram as YPGs em um comunicado.

A coalizão internacional liderada por Washington, que apoia as forças curdas na luta contra os jihadistas do grupo Estado Islâmico (EI), tem tropas no setor, especialmente americanas e francesas, segundo o OSDH. Esta não anunciou a retirada de seus efetivos.

“Não podemos dizer onde estão mobilizadas nossas forças na Síria”, indicou a coalizão em um comunicado, em resposta a uma pergunta da AFP.

Apoiado militarmente por seus aliados, Irã e Rússia, o regime de Assad multiplicou suas vitórias sobre os rebeldes e os jihadistas. Recuperou o controle de quase dois terços do território, país dividido por esta guerra que deixou mais de 360.000 mortos desde 2011.

O Kremlin considerou “positiva” a entrada do Exército sírio em Manbij e disse que isto contribuiria para “estabilizar a situação”.

O tema será abordado no sábado durante uma visita a Moscou dos ministros turcos das Relações Exteriores e da Defesa, que deve “fornecer clareza” e permitir “sincronizar as ações” entre Rússia e Turquia, segundo o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.

Diplomacia regional

Desde meados de dezembro, a Turquia ameaça lançar uma ofensiva junto a seus aliados rebeldes contra as forças curdas, enviando reforços para a fronteira e para o norte da Síria.

Essas ameaças são especialmente preocupantes para os curdos, depois de que o presidente Donald Trump anunciou, em 19 de dezembro, a retirada de cerca de 2.000 militares americanos mobilizados na Síria.

A entrada do regime sírio em Manbij supõe também uma mudança das relações entre as forças curdas e o poder de Damasco, que chegou a qualificá-las de “traidoras”.

A minoria curda, oprimida durante décadas por Damasco, aproveitou o conflito para ganhar uma autonomia efetiva em regiões do norte e do nordeste, quase 30% do território do país.

No plano diplomático, Damasco parece estar no caminho certo para romper seu isolamento. Na quinta-feira, os Emirados Árabes Unidos anunciaram a reabertura de sua embaixada na capital, após sete anos.

Horas depois, outro país do Golfo, o Bahrein, anunciou a “continuação” das obras em sua embaixada na Síria, o que indica sua intenção de reabri-la.