Europeus ditarão o modo de vida do futuro

Jeremy Rifkin, um dos pensadores mais respeitados da atualidade, afirma que as mudanças sociais e econômicas estão fortalecendo um outro modelo de vida ¿ o europeu

O sonho americano envelheceu, e seu lugar, como padrão mundial de desenvolvimento, vem sendo tomado por um novo sonho, o sonho europeu. Essa é a tese central de O Sonho Europeu (editora M.Books, 402 páginas) do economista americano Jeremy Rifkin, professor da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, e um dos pensadores mais respeitados da atualidade. Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista que Rifkin concedeu com exclusividade à EXAME.

EXAME Por que o senhor afirma que o sonho americano está enfraquecendo?
Jeremy Rifkin O sonho americano tem sido o padrão para todo o mundo por 200 anos. É um sonho muito simples. Independentemente da situação em que você nasce, se você tiver uma boa educação pública e trabalhar duro, você pode ser um sucesso individual, com reflexos na profissão e nos bens materiais. Esse sonho funcionou muito bem até 40 anos atrás, mas agora ele está sendo colocado em xeque. Os Estados Unidos estão entre os 24 países industrializados com a maior disparidade de renda entre pobres e ricos. Somente o México e a Rússia ficam abaixo de nós. Isso é uma vergonha.

EXAME Mas o senhor diria que o sonho americano é responsável por essa disparidade?
Rifkin Não acho que o sonho americano seja responsável em si, mas ele está se desintegrando porque a sociedade está mudando. O elemento essencial para esse enfraquecimento é que não conseguimos manter o equilíbrio entre capitalismo de mercado e responsabilidade social. O capitalismo de mercado é bom em vários aspectos e ruim em outros. Ele é bom para criar inovação, empreendedorismo, decisões de risco, novas idéias. Por outro lado, o capitalismo não consegue redistribuir os frutos equilibradamente. A lógica nas salas de reunião das empresas é sempre cortar custos para aumentar a lucratividade. Acontece que nesses cortes sempre ocorre o corte de custo de trabalho, e é aí que está a contradição.

EXAME Que contradição é essa?
Rifkin No coração do sistema, os trabalhadores são também os consumidores e se você corta sua renda, não há redistribuição suficiente para comprar toda produção que vem aumentando por causa dos ganhos de produtividade. Os trabalhadores também são os poupadores, os investidores em ações e títulos. Conclusão: se os frutos não forem distribuídos eqüanimemente, poucos enriquecem, muitos empobrecem, e, no longo prazo, toda a sociedade sofre. Você precisa ter uma sociedade que recompensa o mercado, que nutra o mercado, mas você tem de garantir que dentro da mesma sociedade haja uma cultura com fortes organizações sindicais, da sociedade civil ou políticas. Só assim os benefícios do capitalismo podem ser distribuídos de maneira equilibrada em termos de bons salários, programas sociais eficientes etc.

EXAME Mas não há mecanismos para equilibrar o mercado nos Estados Unidos?
Rifkin Nós minamos os sindicatos e, dessa forma, eles não conseguem mais reivindicar que os frutos sejam distribuídos. Depois começamos a eliminar os benefícios sociais. Ocorre que agora o capitalismo não tem essa força contrária para balancear os benefícios que ele gera. As sociedades mais bem-sucedidas são as que chamamos de economias sociais. Elas estimulam o mercado, mas se equilibram com fortes movimentos sindicais ou movimentos da sociedade civil, de modo que todos possam prosperar.

EXAME Mas é possível manter esse equilíbrio?
Rifkin O maior período de prosperidade nos Estados Unidos ocorreu entre os anos 50 e os 80. O mercado estava estimulado, mas os sindicatos também tinham muita força. Então, nós tínhamos um bom equilíbrio entre capitalistas e trabalhadores. Esse desequilíbrio começou nos anos 80 com Ronald Reagan, Margaret Thatcher e Helmut Kohl. Os empresários nunca dirão “vamos distribuir mais dinheiro para os trabalhadores”. Os economistas clássicos dirão que a oferta e procura resolve todos os problemas, mas isso não funciona. O sistema não se equilibra por conta própria.

EXAME O senhor acha que a Europa conseguiu fazer isso?
Rifkin Sim. Essa é a diferença entre a sociedade americana e a européia. Nós somos totalmente voltados ao mercado, enquanto a Europa tem economias sociais. Mas agora, alguns tentam fazer a Europa migrar para o modelo americano. O sonho americano é um sonho muito individual. Se você perguntar a um americano qual é o sonho dele, ele responderá que é fazer da sua vida um sucesso. Se você perguntar a um europeu qual é o seu sonho ele responderá que é ser capaz de dar uma boa qualidade de vida à sua família.

EXAME Qual é exatamente o sonho europeu?
Rifkin Se você pergunta a um europeu qual é a sua visão se futuro a resposta é inclusão. A sociedade tem obrigação de cuidar dos menos afortunados. Não é possível deixar que o mercado resolva tudo. É preciso ter algum tipo de rede social. Dois: europeus dizem que acreditam em diversidade cultural. Três: eles têm um profundo respeito por desenvolvimento sustentável e transformam essas preocupações em leis. Quatro: eles acreditam em qualidade de vida. Cinco: eles colocam mais ênfase em direitos sociais e direitos humanos. Nos Estados Unidos colocamos mais ênfase no direito de propriedade. Seis: na Europa, eles são muito focados em equilibrar trabalho e diversão. E, finalmente, eles se esforçam mais para manter a paz. Não investem tanto em armamentos militares. Colocam mais dinheiro em programas humanitários e de assistência econômica. Não estou dizendo que isso é o que os europeus são efetivamente. Isso é o que eles dizem que eles gostariam de ser, não o que eles são, por isso são sonhos.

EXAME Por que o sonho europeu é tão diferente do sonho americano?
Rifkin O sonho americano é um transplante europeu. Duzentos anos atrás, nossos fundadores vieram da Europa. Isso ocorreu no último estágio da reforma protestante. Eram os primeiros anos do Iluminismo e da criação de uma moeda forte. O fundadores dos Estados Unidos congelaram essas duas idéias por 200 anos. A América é a mais protestante, reformista e cristã das sociedades industriais. Muitos europeus se perguntam: como os americanos podem ser tão religiosos e tão materialistas? Isso não parece fazer sentido, mas faz, sim, para os americanos. Existe um elo que une o protestantismo e o a filosofia iluminista. Esse elo é o indivíduo, que é o núcleo de ambas as idéias. Quando um pai americano ensina ao seu filho o significado de liberdade, o que ele tem em mente é um conceito muito diferente do de um pai europeu. O americano ensina que a criança tem se der autônoma e móvel. O governo não vai tomar conta dela; a sociedade não vai tomar conta dela. Ela é responsável pela sua própria vida.

EXAME E os europeus?
Rifkin Os europeus ensinam que o núcleo de seu sonho é a qualidade de suas relações, o acesso às comunidades. Se você tiver boas relações, você florescerá. A velha Europa tem uma tradição paternalista, hierárquica, comunitária muito forte. É como se todos tivessem responsabilidade por todos. Hoje, a Europa tem economias de mercado, mas também tem uma maneira de distribuir os frutos mais equilibrada.

EXAME Mas como dizer que o sonho europeu prevalecerá sobre o americano se a economia européia vem desaquecendo?
Rifkin A imagem difundida no mundo inteiro é que a economia americana é a grande estrela mundial. Entretanto, a verdade é que, em 2003, os 25 países membros da União Européia tiveram um PIB maior que o dos Estados Unidos. A União Européia é o maior exportador do mundo e o maior mercado comercial interno, não os Estados Unidos. Sessenta e uma das 140 maiores corporações mundiais são européias. Cinqüenta são americanas. O segundo ponto é que se medirmos a economia pelo salário das pessoas, nós, americanos, somos 28% mais ricos que os europeus. Mas se você mede a economia pela qualidade de vida e indicadores sociais, a Europa nos passou 10 anos atrás. Na educação fundamental e a secundária européia, os alunos de 18 países europeus tiveram notas melhores que os americanos em matemática e linguagem neste ano. Na saúde, a América é um desastre. Nós estamos entre os dois únicos países industrializados o outro é a África do Sul que não têm saúde pública para sua população. Quarenta milhões de pessoas não têm plano de saúde. Quinze dos países europeus têm mais médicos por habitante que os Estados Unidos. Então, se medirmos a saúde de uma economia pela qualidade de vida de sua população, podemos dizer que a Europa está indo muito bem.