Europa: todos juntos pela separação

Quando o Tratado de Lisboa foi assinado em 2007 pelos países membros da União Europeia, os europeus aprovaram as regras que definiram como seria o processo no caso de a saída de um país do bloco. O texto, uma espécie de Constituição europeia, previa que o primeiro passo seria fazer uma notificação oficial ao Conselho Europeu, o órgão máximo que reúne os chefes de Estado de cada país. Depois, haveria um prazo de dois anos para que se chegasse a um acordo para a saída definitiva.

Tudo o que poderia acontecer nesse intervalo era tão imprevisível que nenhuma outra recomendação foi incluída no tratado. Ninguém poderia imaginar, nove anos atrás, que um dos países membros deixaria o bloco em tão pouco tempo, interrompendo um processo de integração regional iniciado há 71 anos com o fim da Segunda Guerra Mundial. Não se previa também que o movimento fosse puxado pelo Reino Unido, justamente a segunda maior economia da União Europeia, responsável por 16% do PIB da região.

A decisão dos britânicos de sair do bloco é inédita, mas ocorre em um momento em que o sentimento contra a União Europeia cresce em uma série de países do continente. Uma pesquisa divulgada em junho, pouco antes do referendo no Reino Unido, mostra que o apoio à entidade nunca foi tão baixo agora quanto nos últimos 10 anos.

Quase metade (47%) das pessoas entrevistadas em 10 países do bloco têm uma visão desfavorável sobre a União Europeia. E 42% afirmam que gostariam que seu país voltasse a ter mais independência para tomar algumas decisões políticas e econômicas. “Vejo o voto no Reino Unido como um protesto daqueles que foram deixados para trás pela globalização: as vítimas de integração econômica internacional que perderam empregos e não receberam uma compensação adequada”, disse a EXAME Hoje Barry Eichengreen, professor de economia e ciências políticas da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

A culpa é dos imigrantes? 

Uma explicação frequentemente citada para o resultado do referendo é que a população do Reino Unido estaria insatisfeita com o grande número imigrantes do continente. No entanto, não há indicação de que uma política de imigração mais restrita deve reduzir o número de desempregados do país. Na avaliação de especialistas, as incertezas são tão grandes que a redução da atividade econômica pode diminuir o mercado de trabalho no curto prazo. “A economia do Reino Unido é diversa e deve se adaptar, mas existe um risco real de as empresas não encontrarem os talentos necessários que costumam vir do continente”, diz Jonathan Sampson, diretor no Brasil da empresa de recrutamento britânica Hays.

Apesar do temor, uma parte da população da Europa, não só no Reino Unido, vê a União Europeia como uma instituição distante, burocrática e incapaz de dar respostas eficientes para os principais problemas do bloco, como o desemprego e a imigração. Desde a crise financeira de 2008, a economia da Europa tem demorado mais do que a dos Estados Unidos para se recuperar. Países como Irlanda, Espanha, Portugal e Grécia tiveram de tomar empréstimos dos vizinhos ricos para conter suas crises fiscais.

Para completar, a onda de imigração e os recentes ataques terroristas só contribuíram para aumentar a instabilidade. O Parlamento Europeu, a entidade com mais influência direta do cidadão, tem pouco poder efetivo para dar soluções a esses problemas. As eleições para o braço legislativo em 2014 atraíram menos da metade dos eleitores, na mais baixa participação desde 1979, quando o órgão passou a ter eleições diretas.

Outra pesquisa de opinião, divulgada em maio, mediu o apoio em outros países a um possível referendo de permanência na União Europeia. De acordo com o estudo, feito pelo instituto Ipsos Mori em oito nações, 45% dos europeus acreditam que o próprio país também deveria realizar um referendo sobre a permanência na União Europeia. A Itália é o que tem o maior apoio à medida. Quase metade (48%) das pessoas disse que votaria pela saída do país da União Europeia, caso um referendo fosse realizado. Na França, a terceira maior economia, 41% desejam que o país deixasse o bloco.

A constatação só aumenta as incertezas sobre o futuro do projeto político de integração europeia, embora os líderes da região tenham saído em defesa do bloco para reafirmar o compromisso de união. “Não podemos tirar conclusões simplistas dessa situação, pois só criaria uma divisão maior”, disse a chanceler alemã, Angela Merkel, uma das maiores defensoras do bloco. Já o primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, que preside o Conselho Europeu atualmente, complementou: “A decisão do Reino Unido foi totalmente irresponsável”. O maior risco é que o referendo estimule os países a realizar outros plebiscitos semelhantes pela saída do bloco, elevando ainda mais a instabilidade política e econômica na região.

Se depender dos partidos chamados de “eurocéticos”, aqueles que são críticos à integração, o futuro da Europa será cada vez mais distante de Bruxelas. Esses partidos, tanto de ultradireita quanto de extrema-esquerda, ganharam participação em eleições. De acordo com um levantamento do Conselho Europeu de Relações Internacionais, um centro de pesquisas independente, partidos de 10 países defendem a realização de um referendo sobre a permanência na União Europeia. Um deles é o AfD, da Alemanha, que ganhou espaço nas eleições regionais de março com uma bandeira anti-imigração. Outro é o francês Frente Nacional, da líder Marine Le Pen, que saudou o referendo britânico como uma “vitória da liberdade” e pediu que a França faça o mesmo.

Mas um dos maiores riscos, segundo especialistas, vem da Holanda, onde já se fala em até um “Nexit” (sigla para as palavras “Países Baixos” e “saída”, em inglês). Em abril, o país realizou um referendo sobre um acordo de associação da Ucrânia com a União Europeia. A votação teve o apoio da extrema-direita do país e foi visto como uma tentativa de confrontar a União Europeia. Em um artigo recente, o economista espanhol, Fernando Méndez, da escola de negócios IE, diz que a integração regional era uma das poucas coisas que permaneceram imutáveis ao longo das últimas décadas. Para ele, os países europeus agora entram em um território desconhecido. “Após o referendo britânico, a integração agora é um processo reversível, que pode ser mudado à vontade do momento”, escreveu.

E a economia?

As consequências econômicas de uma instabilidade política na União Europeia desse calibre são imprevisíveis. A primeira reação de analistas do setor financeiro é prever que a desaceleração da economia mundial deverá ser maior e mais demorada daqui para frente. Os países emergentes, como o Brasil, podem sofrer as consequências por causa de uma queda no preço de commodities e uma fuga de capitais para mercados mais seguros.

Com uma atividade baixa, os Bancos Centrais de países desenvolvidos precisariam alongar ainda mais suas políticas monetárias expansionistas, como forma de estimular a economia. “O aumento da taxa de juros nos Estados Unidos se torna ainda mais remoto nesse cenário, e especialmente se outros países, como a França, decidirem fazer o mesmo. Neste caso, significaria também uma saída da moeda comum”, diz o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor de assuntos internacionais do Banco Central.

Se num primeiro momento os partidos nacionalistas se sentem fortalecidos para pedir a separação da União Europeia, por outro lado, o ajuste financeiro na economia do Reino Unido pode ser tão pesado e traumático que ajudará a conter uma divisão disseminada na União Europeia. “Minha hipótese é que o Brexit vai acabar sendo visto como uma lição de moral para outros países sobre o que não fazer e vez de um modelo a ser seguido”, disse Barry Eichengreen.

Após o resultado da votação no Reino Unido, a apresentadora Victoria Derbyshire, da emissora BBC, questionou um eleitor britânico sobre as razões que o levaram a votar pela saída do bloco europeu. Ele respondeu dizendo que estava chocado com a reação ao resultado, porque esperava que a permanência do bloco venceria, e disse estar arrependido. “Não achei que o meu voto fosse importar”, afirmou. Outros eleitores demonstraram o mesmo arrependimento em mensagens nas redes sociais. Voltar atrás, ao menos para o Reino Unido, não é uma opção. Já os outros 27 países ainda podem refletir sobre que destino vão seguir. Agora, sem os ingleses.

(André Lopes, Anna Carolina Oliveira, Filipe Serrano e Flávia Furlan)

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