‘Estamos contemplando planeta com 4ºC a mais’, diz Fonseca

Confira a entrevista com Gustavo Fonseca, cujo papel em Doha é dar suporte técnico aos negociadores quando o assunto é financiamento das propostas em discussão

São Paulo – “Estamos contemplando um planeta com 4ºC a mais, pois a meta de limitar o aquecimento global a 2ºC já parece inviável. Nesse cenário, as atenções se voltarão para a adaptação de ecossistemas e para o desmatamento evitado como mitigação.”

Assim pensa o brasileiro Gustavo Fonseca, que acompanha o andamento das negociações na 18ª Conferência das Partes da Convenção de Mudanças Climáticas (COP18), no Qatar. Ele é chefe da Divisão de Recursos Naturais do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e concedeu esta entrevista ao Planeta Sustentável, via internet. Seu papel em Doha é dar suporte técnico aos negociadores quando o assunto é financiamento das propostas em discussão.

Como chefe da Divisão de Recursos Naturais, mais voltada para a conservação ambiental, qual sua interface com a COP18 de Mudanças Climáticas?

Gustavo Fonseca: Sou chamado por grupos de negociadores para opinar sobre as recomendações da convenção quanto às iniciativas a serem financiadas pelo GEF. É um apoio técnico para assegurar que tais recomendações sejam implementáveis. Às vezes as ideias são tão fora de propósito que não vale nem a pena negociar.

Qual sua avaliação sobre as negociações até agora?

Gustavo Fonseca: Talvez saiamos daqui com decisões para serem efetivadas apenas na próxima reunião ou em 2015. Ainda não há nenhum entendimento e muitos negociadores se limitam a manter o atual status: nem passos para trás, nem passos para frente. A exceção pode ser o Mecanismo de Tecnologia.

Quem vai sediar o Centro e Rede de Tecnologia do Clima (CTCN) que será o coração do Mecanismo de Tecnologia?

Gustavo Fonseca: Isso está definido, já foi escolhido o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e futuramente o GEF poderá apoiar com recursos financeiros as atividades de transferência de tecnologia nos países em desenvolvimento.


Agora, como tudo que tem a ver com esta convenção, a questão é político-administrativa. Antes de saber o que vão fazer no centro de tecnologia, toda a discussão gira em torno da nomeação do comitê responsável pela supervisão do funcionamento, quem vai contratar, quais são os nomes indicados pelas partes, a montagem da estrutura burocrática, a identidade legal. Acontece mais ou menos a mesma coisa com o Fundo Verde do Clima: só trabalho administrativo até agora, isto é, a decisão sobre a sede, quantos funcionários o fundo terá. Toda a parte da estratégia, dos investimentos, do desenho, do componente setor privado, tudo está esperando a definição administrativa.

Mas o GEF tem recursos para destinar ao Mecanismo de Tecnologia, que a seu ver talvez seja o resultado mais concreto da COP18?

Gustavo Fonseca: No GEF já investimos num componente desse futuro centro: o núcleo de tecnologia do Banco de Desenvolvimento da Ásia. São US$ 50 milhões para traçar caminhos estratégicos de transição para energias renováveis. A Ásia se desenvolveu tão rápido que é possível investir em alternativas de energia num patamar de baixa densidade de carbono. Os recursos são para eletrificação, distribuição de energia, infraestrutura de menor impacto e programas de eficiência energética. A aprovação é recente, cerca de um ano.

O Banco de Desenvolvimento da África está desenhando um núcleo similar, assim como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a América Latina. Os três bancos trabalham dentro do contexto regional, com um tipo de tecnologia acessível para pequenos produtores.

Então esses bancos não esperaram as decisões dessa COP para iniciar seus núcleos de transferência de tecnologia?

Gustavo Fonseca: A ironia é isso tudo acontecer fora da COP. A lentidão das negociações é superada pela necessidade de tomar certas decisões. A Convenção (sobre Mudanças Climáticas) está sendo atropelada pela realidade e pela liderança de alguns setores e alguns países. As decisões são tomadas fora do arcabouço de regras e diretrizes da convenção.


Há outros casos? Talvez o movimento das cidades pelo clima, governos locais com compromissos mais efetivos de redução de emissões?

Gustavo Fonseca: O movimento das cidades certamente vai neste sentido. Na China, por exemplo, financiamos pelo GEF um projeto-piloto em oito cidades de porte médio, concebidas de acordo com o conceito de ecocidades, ou seja, com espaços urbanos mais compactos e maior eficiência energética. Agora o projeto está na segunda fase, com mais escala (20 cidades) e outra proposta de financiamento pelo GEF, cujos termos começamos a discutir em Doha. E o governo chinês já avalia a ampliação para 80 cidades. Vale lembrar que as cidades médias na China correspondem, em população, às maiores capitais europeias.

Isso também acontece em outros setores, na China: se o projeto piloto dá bons resultados, o governo central cria incentivos e amplia a experiência. Os chineses são bastante conscientes do custo do desenvolvimento e da poluição para a saúde, o meio ambiente, a qualidade da água. A China é o maior receptor de recursos GEF relacionados a mudanças climáticas e é o segundo receptor de recursos para a biodiversidade. Os dois tipos de recursos somam mais de US$ 200 milhões. É muito, mas ao mesmo tempo é pouquíssimo para a China. A diferença em relação a outros países é a capacidade de potencializar ideias dos chineses, quando os projetos se demonstram viáveis. Eles dão valor aos recursos.

Na linha da adaptação aos efeitos das mudanças climáticas, que peso pode ter o investimento em conservação de recursos naturais – que é sua divisão no GEF? A conservação de ecossistemas pode aumentar a resiliência de uma região?

Gustavo Fonseca: Participei há três ou quatro anos de um estudo do Grupo de Trabalho de Economia da Adaptação Climática que produziu um relatório chamado Shaping Climate-Resilient Development (Formatando o Desenvolvimento Climático-Resiliente, em tradução livre). No estudo verificamos que o investimento em adaptação às mudanças climáticas por meio da recuperação de ecossistemas tem melhor custo-benefício do que opções de engenharia pesada, comparativamente muito mais caras. São investimentos dos quais ninguém vai se arrepender, mesmo que não tivessem impactos econômicos diretos, pois eles reduzem riscos. Investir em conservação é a maneira mais fácil e menos cara de tratar de adaptação climática.

Veja o caso de New York com o furacão Sandy. A ilha de Manhattan era cercada por enormes colônias de ostras que protegiam a linha costeira de eventos violentos, como o Sandy. Essas colônias desapareceram com a instalação de marinas, a poluição, o tráfego, etc. Agora há investimentos na recuperação dessas colônias para funcionar como barreira física.

Estamos contemplando um Planeta com 4oC a mais, pois a meta de limitar o aquecimento global a 2oC já parece inviável. Nesse cenário, as atenções se voltarão para a adaptação de ecossistemas e para o desmatamento evitado como mitigação.