Estagflação atual será mais suave que a dos anos 70

Embora as taxas de inflação e a desaceleração econômica sejam mais favoráveis, os desafios estão no desequilíbrio da economia mundial

O mundo parece caminhar para uma nova fase de estagflação, um misto de estagnação e inflação, segundo a revista britânica The Economist. A economia global tem registrado uma aceleração da inflação e o aumento do preço do petróleo e do desemprego. Mas, ao contrário dos anos 70, quando os países enfrentaram uma situação semelhante, a estagflação atual tende a apresentar sintomas mais suaves, embora o cenário não esteja isento de desafios.

Em 1979, por exemplo, o núcleo da inflação americana (que exclui os combustíveis e os alimentos) ficou acima de 7% ao ano, enquanto a economia cresceu pouco mais de 1%. Os últimos números dos Estados Unidos mostram que, hoje, a taxa anualizada de inflação está em 2,2%, ligeiramente acima do que o Federal Reserve (o banco central americano) considera como seguro, e o Produto Interno Bruto mantém-se próximo de taxas sustentáveis, de acordo com a revista britânica The Economist. Já a zona do euro apresenta sinais mais fortes de estagnação econômica, embora a inflação pareça estar sob controle.

A força com que o cenário atual irá repetir o dos anos 70 dependerá, ainda, de dois outros fatores. O primeiro é a determinação com que os bancos centrais tentarão preservar sua imagem de combatentes da inflação. Grande parte da estagflação de 30 anos atrás deveu-se à política monetária frouxa que, durante um bom tempo, tentou acomodar o choque do petróleo por meio da emissão de moeda. Mas a atual obsessão do Banco Central Europeu em conter a inflação do bloco, segundo The Economist, é um exemplo de esses países não querem repetir o mesmo erro.

Os diretores do Fed, porém, estão apostando num jogo mais arriscado, ao manter a política monetária mais flexível do que o desejável. Mesmo após o último aumento da taxa básica de juros dos Estados Unidos, a taxa real de inflação está apenas timidamente positiva. Mas, graças à credibilidade do Fed junto ao mercado, as expectativas de longo prazo para a inflação mudaram pouco. A questão, segundo os economista, é por quanto tempo o banco central americano gozará dessa confiança entre os investidores.

Os outros pontos preocupantes são os custos da mão-de-obra e a produtividade. Na década de 70, o crescimento da produtividade desacelerou fortemente. A força dos sindicatos de trabalhadores, a pequena competitividade internacional entre as empresas e o comodismo dos bancos centrais criaram uma perniciosa espiral de salários e preços. Segundo a revista britânica, há poucos vestígios dessa combinação no cenário atual.

Os principais desafios para a condução de uma política monetária pelos bancos centrais, atualmente, estão no desequilíbrio econômico mundial. A expansão mundial depende, em grande parte, do aumento do consumo americano. Em um determinado momento, porém, os consumidores dos Estados Unidos precisarão cortar seus gastos, já que o seu nível de endividamento está elevado.

Quando isto acontecer, os demais países precisarão investir mais para fomentar seu próprio consumo, a fim de reequilibrar a economia. Para The Economist, o maior risco para o mundo, atualmente, é Fed exagerar em suas preocupações sobre uma estagnação americana e, do outro lado, os europeus temam demais os riscos de um descontrole inflacionário.