Esquerda sul-americana surpreende pelo pragmatismo econômico

A eleição de Tabare Vazquez para a presidência do Uruguai confirma o surgimento de uma nova esquerda na região, segundo o americano The Wall Street Journal

Com a vitória de Tabare Vazques nas eleições presidenciais do Uruguai, seis dos 13 países sul-americanos passam a ser conduzidos por governos de esquerda: Venezuela, Equador, Brasil, Uruguai, Chile e Argentina. O que antes seria um motivo de grande preocupação para empresários e investidores, hoje é visto com cada vez menos desconfiança. E o motivo é a surpreendente guinada dessa nova esquerda em direção aos princípios do livre mercado e ao pragmatismo na condução da economia.

De acordo com o americano The Wall Street Journal, Vazquez representa um novo tipo de liderança de esquerda em ascensão na América do Sul, capaz de combinar os tradicionais princípios de igualdade social com uma fria condução da economia. Os novos esquerdistas sabem que, para combater a pobreza, não é possível abrir os cofres, gastar dinheiro e comprometer a austeridade fiscal.

“Estamos assistindo à mesma transformação por que passaram vários partidos de esquerda na Europa, em direção ao respeito a alguns princípios do mercado. Eu chamo isso de populismo financeiramente sustentado”, afirma Mohamed El-Erian, um dos maiores investidores em papéis de mercados emergentes, com uma carteira de 14 bilhões de dólares (se você é assinante, leia ainda reportagem de EXAME com a análise de El-Erian sobre a economia brasileira).

Segundo The Wall Street Journal, a hiperinflação que assolou a região nos anos 80 e meados de 90 convenceu a esquerda sul-americana da importância da austeridade fiscal e da abertura do mercado. O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, é citado pelo jornal como um dos mais fervorosos defensores do livre comércio e da austeridade fiscal na região “o que deixou muitos de seus partidários perplexos”.

Com exceção do presidente venezuelano Hugo Chávez, os Estados Unidos tendem a ver a nova esquerda como um fato positivo. Muitos analistas acreditam que George W. Bush deveria apoiar mais os governantes locais, ajudando-os a reduzir a pobreza e a alavancar sua economia. “Washington deveria ver essa nova classe de políticos pragmáticos como parte da solução para os problemas da região, já que as fórmulas pregadas nos anos 90 não deram resultado”, afirma Michael Shifter, analista político da Inter-American Dialogue, um centro de estudos políticos sobre temas do continente americano.