Especialistas em armas químicas da ONU chegam a Damasco

No terreno, a rebelião que combate o regime de Bashar al-Assad há mais de dois anos, mostrou novas divisões

Os especialistas da ONU retornaram nesta quarta-feira a Damasco para investigar a possível utilização de armas químicas no conflito, em meio as negociações entre ocidentais e russos sobre uma resolução para o desarmamento químico sírio.

No terreno, a rebelião que combate o regime de Bashar al-Assad há mais de dois anos, mostrou novas divisões. Os principais grupos islâmicos romperam com a oposição política e anunciaram uma nova aliança com um grupo ligado à Al-Qaeda.

“A Coalizão Nacional e o governo de Ahmad Tomeh (eleito no exílio) não são nossos representantes e não os reconhecemos”, declararam 13 dos grupos islâmicos rebeldes mais fortes da Síria.

Entre os signatários do texto estão alguns grupos que se uniram ao Exército Sírio Livre (ESL), como a brigada Al-Tawhid, principal força rebelde na província de Aleppo (norte), e os ‘jihadistas’ da Frente Al-Nosra.

Nesta quarta-feira, a equipe de especialistas da ONU, liderada pelo sueco Aake Sellstrom, chegou a Damasco em um comboio de três veículos das Nações Unidas. Ela deve verificar “13 ou 14” acusações das duas partes sobre o uso de armas químicas nos combates em todo o país.

Sellström disse que a equipe “talvez” apresente o relatório final sobre todas as acusações em outubro.

A equipe da ONU viajou à Síria no mês passado e concluiu, em um relatório apresentado em 16 de setembro, que armas químicas foram utilizadas em grande escala.


Também determinou o uso de gás sarin no ataque de 21 de agosto em Ghouta, perto de Damasco, no qual morreram centenas de pessoas. Ake Sellstrom destacou, no entanto, que é apenas um relatório preliminar.

Mas para Washington, Paris e Londres esse relatório não “deixa dúvidas” quanto à responsabilidade extremamente clara” do regime sírio no ataque.

Já a Rússia, aliada de Damasco, denuncia a parcialidade do relatório e acusa os rebeldes de outros ataques químicos.

O ataque de 21 de agosto, atribuído pela oposição e pelos países ocidentais ao regime de Bashar al-Assad, levou o governo dos Estados Unidos a ameaçar com uma intervenção militar.

O governo sírio negou o uso de armas químicas contra civis e aceitou um plano dos Estados Unidos e da Rússia para desmantelar seu arsenal químico.

O acordo afasta a ameaça de ataque militar, mas Washington e Moscou não concordam sobre o conteúdo de uma resolução da ONU e se esta deve incluir ou não a ameaça do uso da força.

O regime entregou a tempo um inventário de seu arsenal químico à Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), mas as negociações sobre uma resolução na ONU para a aplicação do acordo de 14 de setembro continuam.


Na terça, na Assembleia Geral da ONU, Obama advertiu que o regime do presidente Assad deve enfrentar as consequências pelo uso de armas químicas.

“Deve haver uma resolução sólida do Conselho de Segurança para verificar se o regime de Assad mantém seus compromissos, e deve haver consequências se não respeitá-los”, afirmou.

Já o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu que a comunidade internacional “pare de alimentar o derramamento de sangue” nesse país e disse que espera a “adoção iminente” de uma resolução do Conselho de Segurança.

Mas Moscou, representando por seu vice-ministro das Relações Exteriores Serguei Riabkov, reafirmou que “está fora de questão” uma tal resolução, “nem a aplicação automática de sanções e muito menos de recurso à força”.

Riabkov aceita apenas uma “menção” do capítulo VII.

Por sua vez, uma delegação da Coalizão Nacional síria (CNS, oposição), principal interlocutor do Ocidente, lamentou a suspensão dos ataques americanos e pediu apoio aos Estados Unidos em seu combate.

Rompimento entre rebeldes islamitas e oposição

O anúncio do rompimento de importantes grupos rebeldes islâmicos com a CNS no exílio, enfraqueceu ainda mais a oposição.

No comunicado, os signatários fizeram um apelo “a todos os grupos militares e civis que se unam em torno de um claro contexto islâmico (…) baseado na ‘sharia’ (lei islâmica) como única fonte da legislação”.

Essa ruptura com a CNS e o ESL também mostra os diferentes objetivos dos grupos rebeldes: a instauração de um Estado islâmico pelos islamitas, ou a criação de um Estado democrático pluralista pelos rebeldes ditos moderados.

Neste contexto, mais de 100 oficiais do ESL assinaram um pedido de “boicote” a qualquer conferência sobre a Síria que envolva o regime iraniano, um aliado do regime Assad.