Escolas britânicas buscam derrubar divisões entre gêneros

No país, cada vez mais escolas têm adotado medidas para acabar com a divisão binária entre homens e mulheres

Com a ajuda de ativistas e alguns grupos de pais, cada vez mais escolas britânicas permitem que seus alunos explorem sua identidade sexual, para serem mais inclusivas e acabar com o assédio moral sobre esta questão.

O Cumberland Lyceum, um estabelecimento escolar de quase 1.500 estudantes no leste de Londres, é uma das centenas de escolas do país que está tomando medidas para acabar com a divisão binária entre homens e mulheres.

Cumberland adotou uma política mais liberal quanto aos uniformes, que elimina as restrições de gênero, e está adaptando suas infraestruturas – como vestiários – em um esforço para ser mais tolerante.

“Trocar de roupa é um desafio para muitos alunos. É por isso que temos vestiários de gênero neutro que todos podem usar”, explicou à AFP Jake Jones, professor de Educação Física que também é diretor de departamento.

“Acredito que nossa estratégia inclusiva é essencialmente uma questão de terminologia”, acrescentou, observando que os professores são encorajados a evitar termos como “meninos” e “meninas” e usam palavras neutras como “alunos”.

He, she, ¿zie?

Nas escolas Brindishe do sul de Londres, os alunos são ensinados sobre a possibilidade de usar o “zie”, uma forma de pronome neutro, em vez de “he” (ele), ou “she” (ela).

As autoridades escolares estimam que cada vez mais crianças estão questionando seu gênero.

“Quando você capacita o gênero neutro, essas crianças têm menos preocupações, preocupam-se menos se são diferentes e se não se encaixam”, explicou Charlotte Dougan, da escola Brindishe Manor.

“Podem ser elas mesmas”, sentencia.

A vice-diretora da escola Brindishe Green, Lauren Campbell, declarou que “nunca é muito cedo para começar”.

“Acredito que é muito importante educar as crianças da melhor forma possível, desde o início, no que se refere ao ensino sobre o gênero, sobre estereótipos de gênero”, apontou.

Nem todos os pais britânicos concordam com este ponto de vista.

O Serviço Nacional de Saúde (NHS) teve de retirar uma questão sobre gênero de um formulário para crianças, depois de uma onda de críticas de pais e políticos.

A questão, para um estudo sobre crianças de 10 e 11 anos, era se elas se sentiam em consonância – “igual por dentro” – com seu gênero biológico e oferecia-lhes três opções de gênero: “menino”, “menina”, ou “outro”.

“Não pode ser quem é”

Há evidências de que as crianças estão fazendo mais e mais perguntas sobre sua identidade sexual.

O Serviço de Desenvolvimento de Identidade de Gênero (GIDS), um departamento de saúde pública para jovens de Londres e Leeds, declarou que as consultas passaram de apenas 95, em 2010, para 2.016, em 2017.

De acordo com dados da associação Educate and Celebrate, que promove uma educação não-sexista, cerca de 220 escolas no Reino Unido adotaram um uniforme único para meninos e meninas.

“O que algumas escolas não entendem, é que é uma questão fundamental para a vida e para a identidade de um jovem”, disse Elly Barnes, fundador dessa associação.

“Se você não pode ser quem você é, se te dizem constantemente que você não pode fazer isso porque é isso, você não vai tirar o melhor proveito de uma criança”, alegou.