Entre as eleições e o medo

Isabel Seta e Thiago Lavado

Enquanto se recupera do baque de mais um atentado terrorista, o terceiro em menos de três meses, a população do Reino Unido calcula as implicações políticas do aumento da insegurança. O país, afinal, vai às urnas na quinta-feira para eleições parlamentares que pode dar mais tranquilidade à primeira-ministra Theresa May ou, em caso de uma reviravolta, levar o trabalhista Jeremy Corbyn ao cargo de premiê.

No sábado, uma van atropelou pedestres na ponte de Londres e três homens saíram do veículo com facas de caça, esfaqueando londrinos e turistas que aproveitavam a noite de primavera no Mercado de Borough. O atentado deixou 7 mortos, além dos três terroristas, e cerca de 50 feridos. dois homens já foram presos.

Apesar das promessas de uma trégua nas campanhas em respeito às vítimas, os partidos políticos têm se atacado mutuamente nos últimos dias. Nesta segunda-feira, Corbyn disse que May deveria renunciar e que era ela uma das principais culpadas pela redução de 19.000 postos no expediente policial, orquestrada enquanto ainda era Secretária do Interior.

O prefeito de Londres, Sadiq Khan, também do Partido Trabalhista, entoou o canto da oposição e acusou May e os Conservadores de terem imposto cortes federais de 1,7 bilhão de libras esterlinas à Polícia Metropolitana no decorrer da última década. “Nós não estamos recebendo o tipo de fundo necessário a uma cidade do porte de Londres”, disse Khan. A primeira ministra foi secretária da do interior durante 6 anos, entre 2010 e 2016.

May se defendeu dizendo que sempre preservou o orçamento das forças antiterrorismo e rebateu as críticas apontando o dedo para o outro lado. Segundo ela, o líder dos Trabalhistas já se mostrou contrário à política de “atire-para-matar”, utilizada pela polícia para deter os três terroristas no sábado. De acordo com oficiais da Polícia Metropolitana, foram disparados mais de 50 tiros para parar os três homens, que carregavam cintos interpretados como explosivos. Mais tarde, a polícia descobriu que os dispositivos eram falsos e que os terroristas os usavam justamente para se certificar de que seriam mortos.

As provocações políticas devem seguir até a quinta-feira. Apesar disso, especialistas colocam em xeque o real impacto das acusações nas urnas. “Ambos os partidos têm uma história para contar sobre os atentados, mas como vimos com o ataque de Manchester [ocorrido há duas semanas], o impacto na opinião pública é mínimo”, afirma John Curtice, cientista político da Universidade Strathclyde.

Para ele, ambos os partidos estão enquadrando o incidente à sua maneira, tentando capitalizar em uma eleição que a cada dia se torna mais apertada. Quando convocou para este ano eleições previstas para 2020, May tinha uma vantagem de cerca de 20 pontos. Adiantar o pleito parecia um jeito simples de consolidar seu então bem avaliado governo no poder. De lá para cá, no entanto, a vantagem dos conservadores só fez cair. De acordo com um compilado de pesquisas do jornal Financial Times, os Conservadores têm hoje 44% das intenções de voto, contra 37% dos Trabalhistas.

Segundo um levantamento do instituto de pesquisas YouGov divulgado nesta segunda-feira, o partido de May ficará com 21 cadeiras a menos que o necessário para ter a maioria da House of Commons, a câmara baixa do parlamento britânico. Os conservadores devem ficar com 305 assentos, longe dos 326 necessários para passar leis com uma maioria. No último sábado 3, dia do atentado, em uma projeção do mesmo instituto, os Conservadores levariam 308 cadeiras.

Segundo o professor Curtice, mesmo a correlação entre terrorismo e imigração, feita por partidos mais à direita do espectro político, como o Partido da Independência do Reino Unido (UKIP) ainda não será suficiente para reverter as previsões. “O terrorista de Manchester, por exemplo, era britânico de nascença. Esse é um discurso que os Conservadores não querem comprar, por ser associado com o extremismo político de direita”.

O fator econômico

As eleições desta quinta-feira ainda reverberam os ecos do Brexit, referendo que em junho do ano passado votou a saída do Reino Unido da União Europeia. Uma das explicações possíveis para a perda de popularidade de May são as diferenças dos dois partidos nos planos para a economia. O manifesto do Partido Trabalhista chamou atenção por uma agressividade inesperada e pela guinada à esquerda, como aumento dos impostos sobre a renda de quem ganha altos salários e sobre os lucros das empresas — o que renderia 50 bilhões de libras aos cofres públicos —, e a reestatização dos correios, de linhas ferroviárias, do sistema de distribuição de água e de empresas de energia.

Já os Conservadores continuam a defender mais austeridade para eliminar o déficit das contas públicas britânicas até “a metade da próxima década”. O prazo significa dez anos a mais do que o inicialmente prometido pelos tories, que, quando chegaram ao poder em 2010, planejavam acabar com o déficit até 2015.

Segundo Andrew Goodwin, economista da Oxford Economics, os planos fiscais “mais expansionistas” dos Trabalhistas e dos Liberais Democratas impulsionariam tanto a demanda, quanto a oferta, levando a um crescimento mais forte do PIB em relação aos Conservadores. Sob o partido de Corbyn, o PIB britânico seria um ponto percentual mais alto ao final de 2021-22 em relação ao que seria sob os conservadores. Com os liberais democratas, a diferença seria ainda mais alta, de 1,9 ponto percentual.

A pesquisa de Goodwin também analisou como ficará a dívida pública britânica com os diferentes partidos. Segundo suas previsões, tanto com os conservadores quanto com os liberais democratas, a dívida cairia para cerca de 83% do PIB. A incerteza maior é em relação às propostas do Partido Trabalhista, que pretende reestatizações em série. “Há uma incerteza significativa em relação ao ‘timing’ e o custo do programa de restatização e também não está claro como Escritório Nacional de Estatísticas (ONS) vai classificar a compra de ativos”, diz o relatório. De acordo com uma das projeções, a dívida pública cresceria para cerca de 93% do PIB com a implementação das propostas dos Trabalhistas.

O investimento em forças nacionais também voltou à pauta Trabalhista com os atentados. “A polícia e a segurança precisam ganhar os recursos que merecem, não austeridade e cortes de 20.000 membros”, disse Corbyn. A três dias das eleições, austeridade e segurança, dois pontos importantes na agenda Conservadora, parecem caminhar em sentidos contrários.