Em Opa Locka, a ameaça a Hillary

Lourival Sant’Anna, de Miami

Opa Locka é uma região pobre e quase totalmente negra, no noroeste de Miami. A municipalidade se orgulha de ter sido a primeira a batizar uma avenida com o nome Barack Obama, logo depois de o primeiro presidente negro tomar posse, em 2009. Passados quase oito anos, no entanto, parte desse entusiasmo se dissipou. Muitos moradores não vão votar — frustrados com as expectativas não atendidas no governo de Obama. Outros ainda gostam de Obama, mas não veem motivos para votar em sua candidata, Hillary Clinton. E isso é um problema para ela: a participação dos eleitores negros na votação antecipada na Flórida caiu 7%, em relação a 2012. O padrão se repete em outros Estados, levando Obama a fazer apelos pessoais para que os negros votem em sua candidata.

“Votei no Barack as duas vezes, mas não vou votar este ano”, diz Keith Anderson, de 25 anos, que trabalha em um restaurante de lagostas e no estádio do Marlins, o time local de baseball. “Sinto que realmente não faz diferença, não vejo nada de bom. São duas pessoas que já estão sob investigação”, continua ele, referindo-se a Hillary e a Donald Trump. “Não servem para ser presidentes. Os dois são muito ruins, envolvidos em esquemas, complôs. Qual o sentido de votar?” Keith admite que o fato de Obama ser afro-americano foi importante em sua motivação a votar. “Mas eu teria votado em Bernie Sanders”, explica ele, mencionando o senador por Vermont, à esquerda de Hillary, que disputou com ela as primárias democratas, e que é branco. “Ele parece um cara mais honesto.”

A desilusão dos amigos David Blackmon e Kamel Austin é mais profunda. “Não vou votar porque os candidatos são uma droga”, diz David, estudante de psicologia, de 22 anos. “Na última eleição, votei no Obama, porque ele era negro e porque pensei que ia fazer algo para minha comunidade. Ele não fez nada.” Perguntei o que David esperava de Obama. “Não esperava violência policial. Esperava aumento do salário mínimo. Esperava um programa de saúde pública que me atendesse, mas o Obamacare é uma piada”, enumerou o estudante, falando do programa que obriga todos a terem plano de saúde, e subsidia os que não podem pagá-lo integralmente.

“O Obamacare não funciona porque não querem que funcione”, afirma David. “É feito na base de mentiras. É só destinação de impostos que a gente já tem que pagar. O governo poderia pagar pela saúde, torná-la gratuita. Mas estão cobrando e muitas famílias pobres não estão tendo acesso. Conheço pessoas que têm Obamacare. Eles mal são atendidos quando vão ao hospital.”

Ao seu lado, Kamel, também de 22 anos, diz que também votou em Obama e não vai votar este ano. “Na época pensei que fosse um ótimo candidato, que faria melhor pela nossa comunidade, para os negros, para as minorias”, recorda o rapaz, que estuda administração de empresas voltada para esportes e trabalha na carga e descarga da empresa de encomendas Fedex. “Ele não fez nada. As políticas dele não nos ajudaram. Esperava melhor acesso à saúde. Pensei que mesmo os mais velhos e as crianças teriam melhor atendimento. Mas não tiveram.”

Os problemas de Terrell Bohler, de 36 anos, que trabalha em uma borracharia, também estão longe de terem sido resolvidos por Obama, mas mesmo assim ele vai votar em Hillary. “Acho ela legal”, diz Terrell. “E, como é o nome dele? Donald Fake (Falso), não gosto dele. Não é a favor de nós, o povo, só dos ricos e famosos.” Terrell acha que Obama “se preocupou com todo mundo”. Além do Obamacare, e cita a ajuda com “dinheiro extra” para crianças, pais ou mães solteiros. Terrell paga 35 dólares por mês pelo Obamacare. Se tivesse que contratar um plano de saúde para ele, a mulher e os oito filhos a preço de mercado, estima que pagaria de 200 a 300 dólares por mês. Sua mulher recebe do governo cupons de alimentação no valor de 400 a 500 dólares. “Só dá para uma criança”, conta Terrell. “O resto sai do meu bolso todo dia. Trabalho duro para sustentar minha família.” Entretanto, compara ele, na época do ex-presidente George W Bush (2001-2009), recebia por volta de 150 dólares.

A rejeição a Trump também pesa bastante na decisão de votar em Hillary. “Acho Donald muito rude e arrogante. Não quero minhas quatro filhas vendo alguém como ele como presidente”, critica a motorista de ônibus Lisa Cooper, de 45 anos, que já depositou seu voto antecipado em Hillary. “Ambos não são bons o suficiente para mim, mas ela tem mais experiência.” Lisa tem muito mais apreço por Obama: “Acho que ele fez um ótimo trabalho. A economia melhorou. Não tivemos mais guerras”.

A retirada das tropas do Iraque e do Afeganistão é um dos motivos que fizeram Rene Collie, de 56 anos, sargento aposentado do Exército, a buscar a continuidade, com Hillary. “Trump não tem experiência nenhuma. Governar um país não é um negócio. Você tem de conhecer de tudo. Ele não está preparado para esse cargo”, diz Rene, que votou em Obama nas eleições anteriores e se considera um democrata. “O governo dele foi um começo de algo que precisa ser terminado. Sou militar aposentado. Eu sei do que estou falando. Trump acha que sabe mais sobre o Estado Islâmico do que os generais? Isso é bobagem. Os presidentes sabem o que as pessoas lhe dizem. Muitas coisas, eles não sabem.”

Rene acha que a eleição de Trump seria “um retrocesso de 30 anos para este país”, não só em relação às guerras, mas a todo o resto. “Não precisamos recomeçar do zero. Precisamos terminar as coisas.” Ele observa, no entanto, que Hillary “não é prefeita”. “Essa eleição é a escolha do menor de dois males.”

Rene também reconhece que o fato de Obama ser negro foi o principal motivo que o levou a apoiá-lo. “Em segundo lugar, ele realizou um progresso neste país. Quando ele assumiu, a economia deste país estava lá embaixo. E isso não acontece da noite para o dia. Temos de levar adiante o legado dele.”

O apelo de Trump 

Em um comício no sábado em Tampa, na Flórida, Trump fez um apelo aos eleitores latinos e negros para que votem nele. “Que diabos vocês têm a perder?”, perguntou, como já havia feito outras vezes. Ele argumentou que as duas minorias estão sofrendo com altas taxas de criminalidade, ensino de má qualidade e falta de empregos. E acusou os democratas de só se lembrar deles em época de eleições.

Obama, por sua vez, voltou a apelar para que os negros votem em Hillary como se estivessem votando nele. “Preciso que vocês saiam e agarrem as pessoas que não estão votando”, pediu o presidente na sexta-feira na Universidade Estadual de Fayeteville, na Carolina do Norte, o Estado com o maior eleitorado negro entre aqueles cujo resultado está incerto, segundo as pesquisas. “Preciso que vocês digam para eles que Barack está pedindo pessoalmente.” Na Carolina do Norte, 22% dos votos antecipados foram de eleitores negros — 8% menos do que em 2012.

Hillary também fez comícios no sábado na Flórida, e veio acompanhada dos deputados negros Sheila Jackson Lee, do Texas, e John Lewis, líder do movimento de direitos civis na Geórgia. E também foi pedir votos na Carolina do Norte, ao lado de outra deputada negra, Eleanor Holmes, de Washington, e de Mae Brown Wiggins, que entrou com um processo contra a empresa da família de Trump nos anos 70, acusando-a de lhe recusar um apartamento por ser negra.

“Nesta eleição temos de fazer tudo o que pudermos para parar o movimento de destruir o legado do presidente Obama”, disse Hillary na manhã de domingo, durante uma missa na Igreja de Deus em Cristo de Mount Airy, na Filadélfia (Pensilvânia), frequentada pela comunidade negra.

Com o voto dos brancos dividido, entre os de maior nível de instrução destinados a Hillary e os outros a Trump, a mobilização das minorias latina e negra torna-se crucial. “Esta corrida depende da intensidade do voto afroamericano na Filadélfia, Cleveland (Ohio), Charlotte (Carolina do Norte) e Miami”, prevê David Paleologos, diretor do Centro de Pesquisa Política da Universidade de Suffolk, em Boston. Cabe a Hillary ser capaz de aproveitar o capital de ter como cabo eleitoral o primeiro presidente negro da história dos EUA. E a Trump, simplesmente convidar as minorias a experimentar a “mudança”. O slogan da campanha de Obama, há oito anos.