Em Ohio, os 18 votos que importam

Thiago Lavado 

Um mês depois que o Cavaliers, time de basquete de Cleveland, ganhou a NBA em junho, a cidade, localizada no estado de Ohio, volta a ser manchete de todos os jornais. A partir desta segunda-feira, republicanos de todos os sotaques e topetes se reúnem na Quicken Loans Arena, o ginásio que recebe Lebron James e sua turma, para a convenção que deve vaticinar Donald Trump como o candidato republicano. Ao mesmo tempo, o partido tenta conquistar os cidadãos de Ohio para as eleições de novembro – para o futuro de Trump, tão importante quanto conquistar os caciques republicanos é convencer a população local que ele é o homem certo para liderar o país.

O palco da convenção parece ter sido escolhido a dedo: Ohio é um dos campos de batalha mais importantes da eleição norte-americana, ao lado da Flórida e da Pensilvânia, principalmente para os republicanos. Desde a fundação do partido no século 19, nenhum candidato republicano entrou na Casa Branca sem ganhar no estado. Ohio é também o único reduto eleitoral que votou com o vencedor (seja ele democrata ou republicano) nos últimos 40 anos de eleições.

Nos Estados Unidos, o voto popular se reflete em um determinado número de representações, chamadas votos eleitorais, no Colégio Eleitoral, que em última instância é quem decide a eleição presidencial. Cada estado tem um número de votos eleitorais baseado na porcentagem de sua população sobre a do país. Ohio já chegou a ter 26 votos eleitorais em 538. Hoje, tem 18. Mas, na ponta do lápis, continua importante.

Desde 1992, 31 estados votam sempre nos mesmos partidos. O problema disso, principalmente para os republicanos, é que desse total 18 votaram pelos democratas nos últimos 24 anos, totalizando 242 dos 270 votos necessários nas últimas seis eleições. Os republicanos, em contrapartida, têm apenas 102 votos eleitorais garantidos na conta.

Nesse cenário, cada um dos “swing state”, como são chamados os estados que pendem para lados diferentes em diferentes campanhas, é essencial na corrida pela presidência. Pelas contas e pelas tendências, se Donald Trump não assegurar o estado de Ohio, deixa Hillary Clinton a 10 votos eleitorais da vitória. Se ele perder em Ohio e na Flórida, tecnicamente já não tem mais chances de vencer.

A mãe dos presidentes

Conhecido como a “A mãe dos presidentes” por oito deles terem feito carreira no estado (o último deles governou até 1923), Ohio é volátil e plural em termos políticos. Segundo o professor Daniel Tokaji, especialista em legislação eleitoral da Ohio State University, os eleitores republicanos se concentram nas áreas rurais e cidades pequenas, já os democratas estão nas grandes cidades, como Cleveland, Columbus, Toledo e Cincinnati. “Nós sempre fomos um estado dividido entre eleitores republicanos e democratas. Na campanha deste ano, para tentar conseguir mais votos, Trump deve focar no comércio e nas exportações, enquanto Clinton deve mirar na geração de emprego”, afirma.

Para Paul Beck, professor de ciência política da Ohio State University, as cidades pequenas do interior podem até ser republicanas, mas isso está longe de significar que são pró-Trump. “Essas cidades se identificam mais com outro tipo de republicano, mais próximo do governador John Kasich”, explica. Para ele, Trump deve ter um apelo nos subúrbios e regiões metropolitanas das grandes cidades, onde residem pessoas com menos acesso à educação e renda.

Outra região de Ohio onde Trump deve levar vantagem é no sudeste do estado, região que fica ao pé das montanhas Apalaches, uma área antiga de mineiração carvoeira. Além de estar entre as regiões mais pobres de Ohio, é também bastante conservadora e com uma média de idade maior, já que há poucos empregos e os jovens tendem a migrar. “Hillary Clinton tem um discurso ambientalista que não apetece aos conservadores do sudeste, que trabalham com mineração. Foi a região onde Trump mais teve sucesso durante as primárias republicanas”, afirma Beck.

Afinar o discurso certo para cada público em Ohio pode ser decisivo. Dinheiro também. Hillary Clinton está abrindo escritórios pelo estado. Clinton já investiu 9,7 milhões de dólares em propaganda no estado – é seu segundo maior investimento, atrás somente da Flórida. Trump, por outro lado, só havia desembolsado 500.000 dólares por lá até esta semana. A verba vai ter que aumentar. De acordo com o cientista político da Universidade de Columbia, Robert Erikson, Trump deve ganhar na Flórida, o que torna a batalha em Ohio ainda mais determinante. “A esperança dele é vencer no Rust Belt, região composta por Ohio e Pensilvânia”, afirma.

O fator Kasich

Por mais estranho que pareça, os republicanos realizam a convenção do partido em um estado cujo governador, também republicano, se recusa a apoiar o candidato do partido à presidência. John Kasich é muito bem avaliado no estado e ganhou por lá a única primária na corrida presidencial (ele foi o último adversário de Trump a desistir, no dia 4 de maio).

Kasich faz parte de um pequeno grupo de republicanos que nem apoia e nem rejeita Trump. Na realidade, ele espera mudar o comportamento do candidato usando sua influência. Mas as chances do governador mudar o jeitão arrogante característico do candidato são baixas. O próprio Kasich foi alvo das provocações de Trump, chamado durante a campanha de “1/38 Kasich”, em referência ao número de primárias que o governador ganhou após 38 disputas.

Ele faz a linha conservador “bonzinho”, do tipo que se recusa a atacar ferozmente seus adversários. Em entrevista à rede de TV CNN, ele chegou a dizer que não aprova as atitudes de Trump. “Eu não gosto quando ele está atacando e colocando as pessoas pra baixo. Já deixei claro que eu preciso ver um movimento positivo [dele]. Se não houver uma mudança de comportamento vai ser um problema para mim apoiá-lo”, afirmou.

Cientistas políticos têm visões diferentes sobre o quão decisivo Kasich pode de fato ser. Para alguns, como Daniel Tokaji, o apoio não importa muito, na medida que é a personalidade de Trump que o sustentou até aqui. Paul Beck enxerga o apoio como algo importantíssimo, mas que não vai acontecer. “Sem apoio do partido local, com pouca organização e escritórios eleitorais, Trump tem vários problemas para resolver no estado”, disse.

No fim das contas, a escolha de Ohio para a convenção do partido é fundamental para aumentar a exposição de Trump no estado (estamos aqui partindo do duvidoso princípio que Trump a exposição tem um efeito benéfico em sua candidatura). Hillary Clinton escolheu outro campo de batalha e na semana que vem será anunciada a candidata oficial durante a convenção do Partido Democrata na Pensilvânia, estado vizinho e também um dos 12 estados fundamentais na batalha pela presidência.

A maior exposição na convenção, obviamente, não é garantia de nada.
Em 2012, Obama foi à Carolina do Norte anunciar sua candidatura à reeleição e, alguns meses depois, perdeu no estado que havia ganho em 2008 para o republicano Mitt Romney. Ainda assim, venceu as eleições. Se perder Ohio, Trump pode não ter a mesma sorte.