Eleições nos EUA opõem o poder do povo ao dinheiro

Mudança na legislação americana aumentou a importância das doações de milionários para as campanhas

Washington – A disputa presidencial nos Estados Unidos confronta o poder de milhões de eleitores contra o de influentes milionários, como os conservadores Sheldon Adelson e os irmãos David e Charles Koch, por trás de várias campanhas republicanas.

O próprio Newt Gingrich aponta que a opção está entre ‘o poder do povo’ e ‘o poder do dinheiro’, referindo-se à ampla vantagem de organização e os diversos fundos de Mitt Romney em sua aposta por chegar à Casa Branca.

O ‘Super PAC’ (‘comitê de ação político’ independente) ‘Restore our Future’, que apoia Romney, recebeu dinheiro de banqueiros, investidores e empresários que, em seu conjunto, deram a ele mais de US$ 30 milhões em 2011, segundo a Comissão Federal Eleitoral (FEC, na sigla em inglês).

Graças a mudanças nas leis de financiamento eleitoral em 2010, que eliminaram as restrições de doações corporativas e sindicais em eleições federais, três desses doadores, todos investidores em fundos de alto risco, deram US$ 1 milhão cada um.

Os irmãos Koch estiveram por trás do grupo conservador ‘Americans for Prosperity’, que lançou uma campanha de propaganda nacional de US$ 6 milhões para mostrar o presidente Barack Obama como um líder corrupto.

O governador do Texas, Rick Perry, abandonou a disputa em 19 de janeiro, mas desde 2001 vinha reunindo doações de milionários.

Enquanto isso, Gingrich encontrou em Adelson, um magnata dos cassinos de Las Vegas, um importante padrinho, que doou US$ 10 milhões ao grupo ‘Winning our Future’, o ‘Super PAC’ que apoia o ex-presidente da Câmara de Representantes (Deputados).

A vasta fortuna de Adelson, um velho e leal amigo de Gingrich, chegaria como um ‘salva-vidas’, devido a sua extensa rede de conexões políticas e sua influência na economia estadual.

Com uma fortuna de US$ 21,5 bilhões, Adelson, de 78 anos, ocupa o posto ‘número oito’ entre os mais ricos dos EUA, apenas uma posição atrás de George Soros, segundo a revista ‘Forbes’.


Resta saber se, assim como alterou as paisagens em Las Vegas e Macau (China) com seus investimentos, poderá devolver a Gingrich o impulso obtido com sua vitória na Carolina do Sul no dia 21 de janeiro.

Será um fator-chave antes da chamada ‘Super terça-feira’, dia 6 de março, quando dez estados realizarão primárias, o dia em que estão em jogo mais delegados para a convenção republicana em agosto. São necessários 1.144 delegados para obter a candidatura presidencial republicana.

Em declarações concedidas à Agência Efe, o analista político da Universidade da Virgínia Larry Sabato apontou que ‘nunca houve uma escolha presidencial na qual os ricos de ambos os lados não tenham tido um papel desproporcional’.

A disputa de 1976 entre o republicano Gerald Ford e o democrata Jimmy Carter, por conta do escândalo de Watergate, ‘foi talvez a eleição mais limpa, porque ambos tiveram muito cuidado ao arrecadar fundos’, avaliou Sabato, diretor do Centro de Política da universidade.

Em 2012, Gingrich, Romney e o ex-senador Rick Santorum contam com ‘muitos anjos’, mas Obama ‘também absorve com aspirador o dinheiro de grupos de interesses especiais, e a culpa recai sobre os dois lados’, enfatizou.

‘Não é um panorama encorajador, mas a lei, respaldada pela Suprema Corte, o permite. Isso mudará quando surgir um grande escândalo que obrigue uma reforma’, especificou.

As doações milionárias contrastam com a frustração dos eleitores que, ao não se sentirem plenamente representados pela classe política, diminuíram sua participação nas urnas.

Segundo os observadores, seria um milagre se Gingrich conseguisse a candidatura, porque embora os republicanos não estejam fascinados com Romney, a maioria deles não vê com apreensão sua candidatura.

Isso não anula a possibilidade de que Gingrich, com a ajuda de Adelson e seu bolso, ganhe outras primárias e continue estragando a festa de Romney.