Eleições mostram Alemanha dividida e decepcionam oposição

Angela Merkel, candidata da União Democrata Cristã, esperava uma vitória retumbante, mas foi surpreendida por virtual empate com a social democracia do primeiro-ministro Gerhard Schröder. Fala-se agora até em governo de coalização entre os dois rivais

Angela Merkel, candidata oposicionista ao cargo de primeiro-ministro da Alemanha, obteve nas eleições de domingo o pior resultado de uma coalização conservadora desde 1949. Em 2002, Edmund Stoiber, o líder do Partido Social Cristão (PSC), tradicional aliado do União Democrata Cristã (UDC) de Merkel, chegou a angariar 3 pontos percentuais a mais do que ela.

O resultado de uma campanha atipicamente acirrada foi inconclusivo. A aliança UDC/PSC obteve 35,2% dos votos, contra 34,3% do Partido Social Democrata (PSD) do primeiro-ministro Gerhard Schröder. Os conservadores terão 225 cadeiras no Bundestag, o equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil, contra 222 do PSD.

Com o virtual empate, abre-se uma série de possibilidades de coalizão diferentes das chapas originais — que tanto podem ser lideradas por Merkel quando por Schroeder. Um líder parlamentar da UDC já declarou que conservadores e verdes (com 8,1% dos votos) “não estão assim tão distantes” a respeito de questões econômicas centrais. Stoiber já avisou que só não conversa com o novo Partido de Esquerda (que levou 8,7% dos votos), de Oskar Lafontaine. O Partido Democrata Livre conquistou 9,8% dos votos, o que lhe assegura 61 cadeiras no Parlamento.

Existe até a possibilidade de que os grandes rivais formam uma grande coalizão, uma união de conservadores e social-democratas que não ocorre desde 1966.

Momento amargo

O jornal alemão Der Spiegel desta segunda-feira (19/9) qualifica o resultado da disputa eleitoral alemã como o “mais inesperado” da história, e responsável pelo momento mais amargo da vida política de Angela Merkel. Um de seus fiéis aliados, Dieter Althaus, admitiu publicamente que o futuro da candidata não está claro. Os conservadores conquistaram maioria em apenas quatro estados.

Para tornar as coisas ainda mais confusas, o estado da Dresden só realizará eleições em 2 de outubro. Schröder, a partir de agora, alimenta esperanças de conquistar em Dresden três assentos no Parlamento, e assim igualar a representação conservadora. “É teoricamente possível, mas na prática é improvável”, diz Manfred Güllner, chefe do instituto de pesquisas Forsa.

Para o diário britânico Financial Times, a eventual formação de um governo unindo UDC e PSD conduziria uma crise de governabilidade, pois os programas partidários marcam posições bem distintas em relação a temas como flexibilização das leis trabalhistas e reforma do sistema público de saúde.

Outra possibilidade é que Merkel e Schröder apresentem suas candidaturas para votação aberta no Parlamento, o que pode resultar em um governo de minoria, ou até mesmo na convocação de novas eleições.