É a hora do “basta!” no Irã

Os iranianos estão cansados da crise e da repressão e começam a questionar as lideranças do país, como o aiatolá Khamenei e o presidente Hassan Rouhani

SHIRAZ, IRÃ  — No fim de semana passado, os iranianos tiveram feriado prolongado. A festa de Ascensão do Profeta, quando segundo a crença islâmica Maomé foi escolhido por Alá para ser seu mensageiro, caiu no sábado 14 (primeiro dia útil da semana). Em vez de celebrar nas mesquitas, no entanto, muitos moradores de Shiraz, no sudoeste do país, fizeram fila para visitar o Túmulo de Hafez, poeta persa do século 14, que enaltecia o amor e os prazeres do vinho e criticava a hipocrisia de muitos fiéis.

A dura repressão à onda de protestos contra a teocracia e os problemas econômicos, iniciada em dezembro, deixou 25 mortos e centenas de feridos. Os iranianos têm buscado uma forma mais sutil de protestar: em todo o Irã, os monumentos que representam o passado persa, anterior à Revolução Islâmica de 1979, como o Túmulo de Hafez, têm se transformado em locais de peregrinação.

“A literatura é uma referência importante na identidade dos iranianos, e essa é uma forma silenciosa de lembrar que o país tem uma história muito anterior ao atual regime”, observa um historiador. Em 29 de outubro, quando se celebra o aniversário do imperador Ciro (que viveu entre 600 e 530 a.C), a importante estrada nacional que passa por Shiraz e Pasárgada, onde se encontra o seu túmulo, foi bloqueada para evitar a passagem de manifestantes. Policiais circulavam pelas ruínas de Persépolis, capital do antigo império, prontos para impedir qualquer manifestação.

“Festas como essa, da Ascensão do Profeta, são identificadas como sendo da cultura árabe, que não tem a ver conosco”, diz um iraniano de 61 anos, que prefere não ter seu nome publicado. O regime iraniano busca sua legitimidade na religião. Isso está fazendo com que muitos iranianos descontentes se afastem dela.

Pela primeira vez, o repórter de EXAME encontrou iranianos que se confessaram “ateus”. Isso era impensável alguns anos atrás. Os iranianos estão cansados.

Nas outras três vezes em que o repórter esteve no Irã, em 2006, 2009 e 2012, levava alguns dias para conquistar a confiança dos iranianos a ponto de eles dizerem o que realmente pensavam sobre o regime. Agora, já na primeira conversa, demonstram sua frustração: “Isto é uma ditadura”. Muitos falam também de seus planos de ir embora do país, se as coisas não melhorarem.

Há muito tempo que os iranianos têm duas vidas — uma privada e outra pública, em que são obrigados a se comportar conforme as regras do regime, que mantém uma polícia moral, os bassidjis, para vigia-los. Dentro de casa, alguns tomam bebidas alcoólicas contrabandeadas, dançam ao som de músicas consideradas liberais ou ocidentais, ainda que iranianas, e as mulheres tiram o véu mesmo diante de visitantes masculinos.

Agora, outro aspecto dessa privacidade foi acrescentado: alguns exibem, dentro de casa, sinais de sua oposição ao regime, como por exemplo fotos de Mir Hossein Moussavi, o candidato de oposição que provavelmente derrotou Mahmud Ahmadinejad na eleição presidencial de 2009, e desde então está sob prisão domiciliar.

Uma simples fita verde, cor da Primavera Persa de 2009, que culminou em manifestações brutalmente reprimidas, já indica preferências políticas secretas do dono da casa. A vida privada se politizou.

Outra forma de demonstrar desagrado é participar da festa do ano novo persa, o Nowruz, que este ano caiu em 21 de março. Vinculada ao zoroastrianismo, a religião professada no Irã antes da conquista árabe-muçulmana do século 7.º, ela também remete à identidade persa anterior à revolução de 1979. O regime tentou reprimi-la, mas não conseguiu.

Com a contaminação do Islã pelo regime, alguns jovens trocam a fé muçulmana pelo zoroastrianismo. Existem ainda templos da antiga religião, mas eles foram reduzidos quase que a museus. A única religião realmente aprovada no Irã é o Islã xiita. O culto secreto, também exercido em casa, está sendo chamado de “cripto-zoroastrianismo”.

Hafez (“Guardião”, em persa) foi o nome escolhido para um aplicativo lançado este ano, que dá assistência às vítimas de violações de direitos humanos no Irã. Ele fornece números de telefone de advogados, orienta sobre os direitos dos presos e veicula notícias relacionadas com direitos humanos.

Cerca de metade dos 80 milhões de iranianos tem smartphones e 32 milhões estão na faixa entre 20 e 32 anos. Com a ampliação do acesso à conexão 4G, os iranianos têm sido ávidos usuários do celular. Os ativistas de direitos humanos estão encontrando aí um meio de mobilização.

A United for Iran (Unidos pelo Irã), organização de expatriados iranianos baseada na Baía de São Francisco, na Califórnia, criou um banco de dados na internet, chamado Atlas da Prisão no Irã (https://united4iran.org). Ele recebe, reúne e divulga informações bastante detalhadas sobre presos políticos e sentenças judiciais. Os dados sobre perseguições políticas reunidos no portal servem para basear pedidos de refúgio em outros países.

A organização criou também o Hafez; o podcast RadiTo, que dribla a censura iraniana de notícias; os apps Hamdam, sobre saúde sexual feminina, e Toranj, uma ferramenta para as mulheres pedirem ajuda em caso de violência; Haami, para ajudar a vencer dependência química; Michka, para orientar as crianças contra abuso sexual; e Sandoogh96, que reuniu e divulgou dados sobre a eleição presidencial do ano passado.

Há mais coisas. “Por razões de segurança, não divulgamos todos os aplicativos que criamos”, disse a EXAME a diretora executiva da United for Iran, Firuzeh Mahmoudi. Segundo ela, mais de meio milhão de iranianos baixaram os aplicativos, e passaram mais de 110.000 horas neles a partir de fevereiro do ano passado, quando o RadiTo foi lançado. O portal da entidade contém ainda uma incubadora para startups que criam ferramentas de utilidade pública.

O Atlas foi bloqueado no Irã. Mas muitos iranianos sabem como furar esse bloqueio. “Alguns de nossos apps são resistentes à censura”, disse Mahmoudi. Hoje com 46 anos, ela nasceu no Irã e se mudou adolescente para os EUA. Na equipe de dez pessoas do United for Iran, metade são ativistas que deixaram o país nos últimos anos. Dois deles, Mehdi Aminizadeh e Mohammad Ghafarian, foram presos. O co-diretor, Reza Ghazinouri, foi expulso do doutorado.

Segundo Mahmoudi, a entidade conta com uma série de doadores, como as fundações Rex, Mary Weinmann Trust, Open Society e Bohemian. Eles também fazem duas campanhas por ano para atrair doações individuais. Os iranianos estão se mexendo.

O governo tem estimulado o turismo, como alternativa de ingresso de moeda forte, diante das sanções financeiras impostas pelos Estados Unidos. Entretanto, alguns de seus principais atrativos estão associados à história anterior à revolução de 1979 e até mesmo ao islamismo, como Persépolis, a antiga capital do império.

Ali, historiadores lembram que os governantes persas costumavam se embriagar, em cerimônias públicas chamadas pelos gregos de potus, para tomar decisões — que depois, quando todos estavam de ressaca, eram rediscutidas, para ver se as mantinham. Os relevos nos muros do palácio mostram os visitantes levando jarros de bebidas para o imperador. Nada mais distante da teocracia iraniana.

Mas em frente às ruínas de Persépolis o regime deixou um recado da história mais recente: as tendas montadas pelo governo do deposto xá Reza Pahlevi para receber famílias reais, sheikhs e governantes de todo o mundo, para a celebração dos 2.500 anos do Império Persa. Considerada “a festa mais cara da história”, a celebração, exibida na TV, causou revolta na população iraniana, e ajudou a fermentar a onda de protestos que culminou na revolução de 1979.

Os iranianos mais velhos, que viveram aquele período, não têm saudade dos tempos do xá, cujo regime era tão tirânico quanto a atual teocracia islâmica. E mais desigual. A diferença entre ricos e pobres diminuiu depois da revolução. O Irã se tornou um país de classe média.

Seus indicadores de educação, saúde e de renda não são ruins. Tanto que ocupa a 69.ª posição no ranking do índice de desenvolvimento humano (IDH) — 10 acima do Brasil.

Entretanto, o fim das sanções comerciais e a volta das exportações do petróleo, a partir de janeiro de 2016, não trouxeram a esperada prosperidade. A economia cresceu 12,5% em 2016 e 3,5% em 2017, mas o desemprego continua no elevado patamar de 11,4%. Há duas razões para isso, uma interna e outra externa.

A interna é que grande parte das atividades lucrativas, como bancos, indústria, comércio e, claro, a exploração do petróleo, está cada vez mais controlada pelo Sepah, o Corpo dos Guardas Revolucionários, subordinado ao líder espiritual, Ali Khamenei. As decisões de gestão ficam subordinadas a interesses políticos, e os administradores são escolhidos mais por sua lealdade ao regime do que por suas qualidades técnicas. Teologia e gestão têm pouco em comum, como ciências.

A razão de ordem externa é que os investimentos não voltaram com o fim das sanções. Os bancos internacionais têm medo de serem castigados pelos Estados Unidos. O mercado não esqueceu a multa de 8,9 bilhões de dólares que o banco francês BNP Paribas recebeu em 2015 da Justiça americana por realizar negócios com Irã, Cuba e Sudão.

A perspectiva de os EUA romperem o acordo nuclear e retomar as sanções contra o petróleo iraniano tem causado uma corrida aos bancos e às casas de câmbio para enviar dinheiro para o exterior ou trocar a moeda local, o rial, por euros e dólares. De setembro para cá, o rial perdeu 50% de seu valor frente ao dólar. Um dólar, que antes custava 40.000 rials, passou a valer 60.000.

O governo fixou então o valor em 42.000 e ameaçou punir quem trocasse o dólar a um preço maior. A polícia anunciou que 39 donos de casas de câmbio foram presos e 80 dessas lojas que não tinham licença foram fechadas.

Na quarta-feira 18, o Banco Central anunciou que passaria a publicar suas reservas em euros, para incentivar a substituição do dólar pela moeda europeia. As transações em dólares já estavam difíceis por causa do receio dos bancos de sofrerem represálias dos EUA. O banco estatal de fomento francês Bpifrance anunciou em fevereiro que começará a oferecer créditos denominados em euros para financiar transações com o Irã.

No fim do ano passado, ao assinar a renovação semestral do acordo nuclear — que suspendeu as sanções das importações de petróleo iraniano —, o presidente Donald Trump anunciou que não o faria novamente, se o seu texto não fosse revisto. Ele exige garantias de que o Irã não poderá retomar nenhum aspecto de seu programa nuclear depois do fim do acordo, em 2025, e também que o país pare de desenvolver mísseis convencionais. O prazo para a renovação termina no dia 12 de maio, e tudo indica que Trump se prepara para romper o acordo e retomar as sanções.

A pressão sobre as armas convencionais já causou reação em Teerã. Durante o desfile militar de comemoração do Dia do Exército, o presidente Hassan Rouhani, um moderado, declarou: “Se precisarmos de qualquer arma, nós a desenvolveremos, na maior parte das vezes, ou encomendaremos, se necessário. Não esperaremos a aprovação do mundo”.

Na parada militar, foi exibido pela primeira vez o sistema de mísseis Kamin-2, desenhado para derrubar drones em baixa altitude, entre outros sistemas de mísseis e radares, tanques e veículos blindados. O bombardeio dos EUA, França e Grã-Bretanha contra alvos sírios relacionados com o uso de armas químicas, no sábado 14, deixou os iranianos ainda mais na defensiva.

As ameaças externas reforçam nos iranianos sentimentos nacionalistas, e até mesmo a suspeita de que podem não ter um tratamento justo por parte da Fifa na Copa do Mundo, apesar de que ela será realizada na Rússia, aliada do Irã.

“Estamos muito otimistas. O Irã enfrentou a Argentina na Copa passada, e mostrou que está à altura das grandes seleções”, diz uma mulher de 39 anos, formada em literatura, referindo-se à partida no Mineirão, em Belo Horizonte, na segunda rodada. Num jogo bastante equilibrado, em que os iranianos não deram espaços para os argentinos, Leonel Messi marcou um gol já nos acréscimos, dando a vitória à Argentina.

Dirigido pelo técnico português Carlos Queiroz, que já comandou o Real Madrid, o Manchester United e a própria seleção portuguesa na Copa de 2010 na África do Sul, o Irã é considerado o melhor time da Ásia.

“Mas não creio que a política externa deixe”, acrescentou a iraniana, sugerindo que o país pode ser impedido de avançar na Copa. “Vamos ver. Posso estar enganada.” Queiroz já tem, se quiser, uma desculpa para um eventual mau desempenho na Rússia. O grupo B, do Irã, tem dois rivais de peso: Espanha e Portugal. O quarto time é o do Marrocos, que jogará com o Irã na estreia, dia 15 de junho.

Por enquanto, seu time tem sido prejudicado mesmo é pela política interna. Em agosto, o ministro de Esportes iraniano, Mohamed Reza Davarzani, suspendeu da seleção os jogadores Ehsan Hajsafi e Masoud Shojaei, do Panionios, da Grécia, por terem jogado contra o time israelense Maccabi. “Eles já não fazem parte da seleção do Irã porque ultrapassaram uma linha vermelha”, disse o ministro, lembrando que desde a revolução nenhum atleta iraniano havia aceitado enfrentar equipes israelenses. “Agora, esses jogadores ignoraram esta questão em razão do compromisso que têm com seu clube. Mas onde está o compromisso deles com a grande nação do Irã?”

Os dois jogadores tinham se negado em julho a participar do jogo de ida da terceira rodada da fase de qualificação para a Liga Europa, em Israel. Mas acharam que não haveria muito problema disputar o jogo de volta na Grécia. O Ministério de Relações Exteriores de Israel os parabenizou em sua conta no Twitter em persa por terem “quebrado um tabu”. O regime iraniano prefere os tabus intactos.